ITV do Paquistão preocupada

Os produtores de vestuário do país antecipam tempos difíceis depois dos resultados das eleições do início do mês, que ditaram a necessidade de negociação entre diferentes partidos para formar governo.

[©ILO Asia-Pacific]

As negociações para a formação do governo foram conduzidas por entre alegações e contra-alegações de fraudes nas urnas, agravada pela prisão do ex-Primeiro-Ministro Imran Khan, que é apoiado pelo maior bloco do novo parlamento, constituído por deputados independentes apoiados pelo seu partido, o Pakistan Tehreek-e-Insaf (PTI).

O novo governo, resultante da união entre o Partido Popular do Paquistão (PPP) de Bhutto-Zardari e a Liga Muçulmana do Paquistão (PML-N) de Shehbaz Sharif, terá uma maioria parlamentar muito pequena e terá de enfrentar vários problemas económicos, como o aumento do défice comercial, elevados custos energéticos, inflação (28,3% em janeiro) e a pressão por parte do Fundo Monetário Internacional (FMI) para retirar os subsídios aos bens de consumo.

Ao Just Style, a Federação das Câmaras de Comércio e Indústria do Paquistão (FPCCI) e a All Pakistan Textile Mills Association (APTMA) indicaram que o primeiro desafio, contudo, serão as negociações para tentar prolongar o acordo de financiamento de 3 mil milhões de dólares com o FMI que termina em março.

Ao mesmo tempo, o novo governo terá de tornar a indústria exportadora de têxteis e vestuário mais viável, tendo em conta que esteve sob forte pressão devido ao aumento dos custos, nomeadamente das tarifas energéticas, aponta Zaki Ijaz, presidente regional da FPCCI.

«Durante o governo de 2023, o governo, por pressão do IFM, aumentou as taxas do gás para as centrais elétricas cativas em até 210%, resultando no encerramento de 160 das 400 centrais elétricas cativas de fábricas têxteis», explica ao Just Style. Além disso, a indústria têxtil e do vestuário do Paquistão quer que o governo reduza para metade a atual taxa de eletricidade – de 25 rupias paquistanesas por kWh para 50 rupias paquistanesas por kWh – para reduzir os custos de produção.

Se o governo não conseguir cumprir, as exportações de têxteis e vestuário vão cair devido à queda da competitividade, indica Zaki Ijaz, interrompendo uma tendência de crescimento sentida nos últimos dois meses. De acordo com o gabinete de estatística do Paquistão, em janeiro deste ano, as exportações de têxteis e vestuário subiram 10,1%, para 1,45 mil milhões de dólares.

No longo prazo, Kamran Arshad, presidente do conselho de administração da zona norte da APTMA, sublinha que «o Paquistão está a perder quota de exportação no mercado mundial devido à alarmante subida da energia». A indústria tem, segundo Kamran Arshad, uma capacidade de exportação não usada de 600 milhões de dólares por mês, devido aos elevados custos energéticos. «Devo dizer que apenas um aumento rápido nas exportações é a solução para responder às exigências de financiamento externo bruto de 2 mil milhões de dólares por ano do Paquistão, de outra forma a balança de pagamentos vai continuar a piorar, dando origem a desemprego».

A indústria têxtil e de vestuário paquistanesa opera com margens baixas de 3% a 4% e se o novo governo não der atenção à questão da energia, irá tornar-se pouco competitiva em termos locais e internacionais, destaca o presidente do conselho de administração da zona norte da APTMA.

Se o governo racionalizasse as tarifas energéticas e reduzisse a taxa de juro básica do banco nacional de 22% para 15%, poderia alcançar metas anuais de receitas com as exportações de 100 mil milhões de dólares para todos os tipos de vendas ao exterior, incluindo têxteis e vestuário, dentro de cinco a 10 anos, estabelecidas pelo ministro interino do comércio, Gohar Ejaz, que já liderou a APTMA, acredita Zaki Ijaz.

«Sugeriria ao novo governo, que esperamos que esteja em funções até ao final do mês, que assine uma carta de democracia que inclua todas as partes interessadas [todos os partidos políticos] durante 10 anos para garantir a consistência nas políticas económicas do país», advoga Zaki Ijaz. Mais importante ainda seria que o governo garantisse que as tarifas energéticas não voltem a aumentar. Ao mesmo tempo, se o governo conseguisse melhorar as relações comerciais com os vizinhos Irão e Índia, isso seria um passo positivo – as relações diplomáticas com ambos os países continuam fracas e, por vezes, hostis.

O resultado disso tem sido uma maior dependência das boas relações com a China. «Depender apenas da China não é uma decisão sábia», considera Zaki Ijaz, acrescentando que os termos muitas vezes favorecem os exportadores e investidores chineses e que melhores relações comerciais tanto com a Índia como com a China dariam mais opções aos exportadores do Paquistão.