ITV chamada a formar engenheiros têxteis na UMinho

Com o fim obrigatório dos mestrados integrados, o departamento de Engenharia Têxtil da UMinho aproveitou a oportunidade para reformular o curso, com a ITV a ter agora um papel fundamental na formação da próxima geração de engenheiros têxteis do sector.

Maria José Abreu, Fátima Esteves e Graça Soares

A imposição de acabar com o mestrado integrado levou o departamento de Engenharia Têxtil da Universidade do Minho (UMinho) a repensar a formação dos futuros engenheiros têxteis. O trabalho de reformulação começou em 2018, com a nova oferta educativa a ser implementada no ano letivo 2021/2022.

«O departamento e a direção do curso, na altura, pensou em fazer uma reestruturação mais profunda, aproveitar a oportunidade para tentar melhorar alguns aspetos que poderia ser melhorados e tentar que o curso fosse mais virado para a indústria», explica Maria José Abreu, diretora do Mestrado Integrado em Engenharia Têxtil (que ainda prossegue com os alunos do quarto e quinto anos) e responsável pela reestruturação da formação. Para isso, «estivemos a ver os planos de estudo de outras universidades, para ver o que eles andavam a fazer» e «falamos com alguns parceiros na indústria», revela ao Portugal Têxtil.

Maria José Abreu

O resultado é uma licenciatura em Engenharia Têxtil e um mestrado com duas especializações, que estão já a funcionar.

A licenciatura em Engenharia Têxtil tem agora três anos de «formação básica de engenharia», explica a diretora do curso Graça Soares. «A nossa intenção não é, nem nunca foi, restringir a formação dos engenheiros têxteis a esta licenciatura. Acreditamos que é manifestamente incompleta, digamos assim, para eles terem os conhecimentos que agora o mercado exige dos engenheiros têxteis, como já exigia no passado. Esperamos que isso aconteça no fim do mestrado», acrescenta. Ainda assim, «tentámos aproveitar esta oportunidade para melhorar, dentro do possível, e até atualizar os conteúdos das diferentes unidades curriculares, posicioná-las de maneira mais adequada e perspetivar depois a continuação do currículo do curso de maneira a fazer mais sentido», salienta Graça Soares.

O papel da ITV

A grande novidade é a integração da formação com a indústria têxtil e vestuário (ITV), com as empresas a terem um papel fundamental na formação destes novos engenheiros têxteis. «Vai começar a primeira edição, no próximo semestre, que tem início em fevereiro, do estágio do projeto industrial, que pretende mesmo ser um estágio realizado numa empresa têxtil», adianta a diretora da licenciatura.

A ideia subjacente a este projeto individual em engenharia têxtil, que decorre no terceiro ano da licenciatura, é que os alunos passem três dias por semana, durante todo o semestre, numa empresa da ITV para conhecerem as diversas vertentes e processos. «Vai funcionar um bocadinho à luz daquilo que eram os antigos projetos industriais que existiam na conclusão da licenciatura em Engenharia Têxtil. Não têm o propósito de terminar a formação têxtil dos alunos, mas sim de lhes dar uma visão mais atualizada, mais integrada da realidade industrial e integrar essa componente na formação têxtil e, depois, quando eles voltarem para escolher, esperamos nós, a sua formação a nível pós-graduado nos mestrados, já trarão uma visão mais fundamentada, digamos assim, dos interesses deles, de qual é a realidade industrial, do que é que eles se veem a fazer no futuro, como é que eles querem desenvolver as suas competências técnicas para o exercício da profissão», explica Graça Soares.

Graça Soares

Para concretizar esta parte da formação, está a ser criada uma bolsa de empresas interessadas em colaborar com a Universidade do Minho. «Essas empresas vão oferecer a estes alunos, durante aquele período de tempo, a possibilidade de desenvolverem o seu trabalho nas suas unidades industriais. O trabalho será definido, mas tem grandes graus de liberdade do ponto de vista temático, digamos assim. Pode abranger qualquer uma das áreas têxteis em função do interesse do aluno e em função do interesse da empresa. Portanto, é nosso interesse que as empresas, como sempre fizeram com os mestrandos, e, antes disso, com os estagiários, acolham os alunos para desenvolver matérias que tenham interesse para a formação do aluno, mas também para a própria empresa», sublinha a diretora da licenciatura. «Este ano temos 23 alunos para fazer esta primeira edição de projeto industrial. Esperamos encontrar empresas que os acolham neste contexto», indica.

Revolução no mestrado

Se na licenciatura, as mudanças foram menos evidentes, por se tratar de uma formação em engenharia que tem de cumprir critérios específicos gerais, notando-se sobretudo, dentro das cadeiras existentes, um maior foco em temáticas atuais – como microbiologia e bioquímica, para responder ao crescimento dos têxteis para a área da saúde, por exemplo –, o mestrado sofreu uma revolução, apresentando um tronco comum – com cadeiras como sustentabilidade e economia circular na indústria têxtil e vestuário e monotorização e gestão da qualidade na indústria têxtil e vestuário – e depois duas áreas de especialização: Materiais e Acabamentos Funcionais ou Materiais e Tecnologias Avançadas.

Fátima Esteves

«Uma área corresponde mais à química, ou seja, todas as cadeiras relacionadas com processos de base química, no fundo, todos aqueles que, atualmente, são exigidos para as empresas, porque cada vez mais trabalham com acabamentos funcionais, antimicrobianos, têxteis médicos, têxteis técnicos, etc… Por outro lado, a área dos Materiais e Tecnologias Avançadas foca-se mais na parte dos materiais em si, levando atrás a fiação, a tecelagem, toda a parte física», esclarece a diretora do mestrado, Fátima Esteves.

Atualmente o mestrado conta com 27 alunos, estando 12 na especialização de Materiais e Acabamentos Funcionais e 15 na especialização Materiais e Tecnologias Avançadas.