iTechStyle Summit apontou tendências

Com um balanço claramente positivo para a organização, que, no entanto, já anunciou mudanças para a edição do próximo ano, a conferência internacional organizada pelo CITEVE reuniu centenas de especialistas para mostrar os avanços em diferentes áreas e apontar os possíveis rumos para a ITV.

Realizada de 26 a 28 de maio na Alfândega do Porto, a iTechStyle Summit voltou a reunir academia, representantes governamentais e institucionais e empresas para apresentar e debater os avanços científicos na área dos têxteis e vestuário e, no final dos três dias, António Braz Costa, diretor-geral do CITEVE, não hesitou em afirmar que os objetivos para esta sétima edição foram «completamente atingidos».

Ainda assim, adiantou que já estão a ser pensadas mudanças para a próxima iTechStyle Summit. «No próximo ano, vamos ter uma nova abordagem, algumas novidades no formato», anunciou. O facto de o evento estar quase a chegar aos 10 anos levou a organização a refletir sobre a forma como a conferência pode evoluir. «Está na altura de pensar e refinar alguns pontos», considera o diretor-geral do CITEVE. O que não está em causa é a continuidade. «Voltaremos a encontrar-nos no próximo ano», garantiu.

Na edição deste ano – na qual voltaram a ser entregues os prémios de inovação iTechStyle Awards –, a abertura, como habitualmente, foi dedicada às megatendências para a indústria têxtil e do vestuário, seguindo-se painéis sobre a legislação europeia, tecnologias, materiais, reciclagem e a estreia do tema da defesa, que encerrou o evento.

Megatendências: da competitividade à sustentabilidade

Na abertura do painel dedicado às megatendências, Mário Jorge Machado, presidente da Euratex, destacou a perda de capacidade industrial da Europa, a necessidade urgente de inovação e sustentabilidade e o impacto crescente da inteligência artificial.

«A Europa perdeu 13,5% da sua capacidade industrial no último ano, em 2024», afirmou, sublinhando que esta é uma «verdade estatisticamente provada» e não sujeita a «verdades alternativas». Uma tendência que, alertou, põe em causa até a soberania do continente.

O presidente da Euratex lembrou também que o setor têxtil é um dos 14 setores estratégicos reconhecidos pela Comissão Europeia, reforçando o seu papel crucial não apenas na economia, mas também em áreas como a defesa, a sustentabilidade e a inovação. Durante a pandemia, lembrou, foi a indústria têxtil europeia que respondeu à escassez de equipamentos de proteção, demonstrando a sua capacidade de adaptação e resiliência. E defendeu que esta mesma capacidade deve agora ser canalizada para enfrentar novos desafios como a circularidade, a digitalização e a transição verde.

«O investimento na indústria de defesa será crítico para a Europa nos próximos anos», acrescentou, destacando o papel dos têxteis técnicos no equipamento dos soldados e nas novas soluções de proteção.

Thomas Gries, Mário Jorge Machado, Alfred J. Beerli, António Braz Costa e Lutz Walter

Mário Jorge Machado abordou ainda o crescimento da fraude fiscal associada ao comércio eletrónico de ultra fast fashion. Segundo o presidente da Euratex, as plataformas digitais que operam fora da Europa estão a beneficiar de incentivos fiscais injustos, ao não pagarem IVA, o que representou uma fraude de 89 mil milhões de euros em 2022. «Temos aqui uma megatendência de consumo, mas também temos aqui uma megatendência de fraude», apontou.

Antes de terminar, o presidente da Euratex destacou ainda o impacto crescente da inteligência artificial em modelos de negócio, previsão de tendências e logística.

«Nós, na Europa, temos a obrigação de continuar a liderar esta indústria. Temos a obrigação de continuar a ser o centro da inovação para a sustentabilidade e para a singularidade», salientou.

Lutz Walter, secretário-geral da Plataforma Tecnológica Têxtil Europeia (Textile ETP), apresentou uma visão sobre os desafios e oportunidades que o setor têxtil enfrenta na Europa, reforçando que o futuro da indústria será definido pela capacidade de enfrentar desafios como a sustentabilidade, a digitalização, a circularidade, o custo e disponibilidade de matérias‑primas, e a necessidade de novas competências na força de trabalho.

A indústria deve olhar para além dos modelos tradicionais e apostar na agilidade e na diferenciação: não se trata apenas de produzir mais barato, mas de criar valor com produtos técnicos, processos sustentáveis e soluções digitais. Lutz Walter frisou também a importância de ter dados de qualidade, da adoção de inteligência artificial e da criação de gémeos digitais para otimizar processos e permitir respostas rápidas a um mercado cada vez mais volátil. Além disso, lembrou que a indústria deve assumir um papel ativo na transição energética, investindo em eletrificação de processos e produção local de energia, e defendeu um maior investimento na durabilidade e reparabilidade dos produtos, indo além do simples conceito de reciclagem.

Thomas Gries, diretor do Instituto de Tecnologia Têxtil da Universidade RWTH Aachen, focou-se no papel central da bioeconomia no futuro da indústria têxtil e insistiu que é imperativo abandonar a dependência de materiais fósseis e optar por soluções baseadas na natureza – como fibras de base biológica, captura e utilização de carbono e reciclagem – apesar dos desafios técnicos e económicos.

Criticou ainda os discursos populistas que desacreditam a ciência climática, mencionando tanto figuras internacionais como nacionais que «querem cortar florestas ou derrubar turbinas eólicas» em nome do crescimento económico. No entanto, destacou também exemplos positivos, como cientistas e líderes industriais que apostam em soluções baseadas em dados e sustentabilidade, ainda que menos mediáticos.

Thomas Gries apresentou vários exemplos de inovação, como sapatos feitos com polímeros de algas, fibras têxteis produzidas a partir de resíduos agrícolas ou a ligação estratégica entre o setor do papel e os não-tecidos na Alemanha, com implicações diretas para a circularidade.

«Apenas a cooperação entre diferentes setores ao longo da cadeia de valor criará um futuro promissor. E tenho a certeza de que temos de seguir este caminho», afirmou.

Neste percurso, as certificações são essenciais para criar confiança, acredita Alfred J. Beerli, CEO da Oeko-Tex. «Não basta inovar. Também temos de investir em confiança e responsabilidade», assegurou. «Demonstrem os vossos esforços de sustentabilidade. Contem a vossa história, mesmo com imperfeições. As certificações não são apenas carimbos, são narrativas de responsabilidade, integridade e inovação», resumiu.

Os avanços e recuos da legislação

No painel sobre a regulamentação, o eurodeputado Bruno Gonçalves alertou contra uma abordagem simplista à regulação. «Simplificar não pode ser despropor, não pode ser ficarmos sem caminho ou sem estratégia», afirmou, numa intervenção onde admitiu que mesmo a implementação do passaporte digital do produto, que tem vindo a ser adiada, pode estar em risco em Bruxelas. «Não gostava que voltássemos atrás em tudo, porque há algo que já se passou. Interromper agora os ciclos de investimento pode ser desastroso daqui a dez anos», acredita.

Bruno Gonçalves destacou a urgência de combater a estagnação europeia no investimento em inovação, sobretudo face à evolução da China, que «hoje inova mais do que a Europa», acrescentando que «temos que garantir que os melhores investigadores do mundo, em vez de escolherem a China, escolhem o continente europeu».

O eurodeputado destacou ainda oportunidades na área da defesa e proteção. «A Europa vai investir 800 mil milhões de euros em defesa», referiu, afirmando que esse investimento não pode ficar restrito ao setor militar, mas deve também gerar impacto na economia civil, nomeadamente através de materiais sustentáveis. «Há uma grande oportunidade para o setor do têxtil, nomeadamente ao nível dos novos materiais de nanotecnologias e biotecnologias», referiu.

Num tom semelhante, o eurodeputado Paulo Cunha reforçou a importância de uma abordagem sensata à sustentabilidade, até porque, considera, a Europa pecou por excesso de confiança. «Houve uma boa dose de presunção. Achávamos que, quando fixássemos um patamar de exigência, todos os outros correriam atrás. Não correram», sublinhou.

Sobre regulação, fez uma distinção clara entre desburocratizar, que definiu como «eliminar barreiras absurdas» e desregulamentar, que «pode ser perigoso», e apontou o foco necessário na qualidade da regulação, em vez da sua quantidade. «Mais do que mais regulação, precisamos de melhor regulação», acredita.

Paulo Cunha salientou também a incoerência ambiental de algumas políticas europeias. «No dia em que apertarmos demasiado a malha legal na Europa, o que vai acontecer é que as empresas se deslocalizam para territórios com menos exigência ambiental. Em vez de protegermos o ambiente, estamos a destruí-lo», afirmou, apelando a uma regulação sustentável que proteja simultaneamente o ambiente e a competitividade.

Paulo Cunha, Fernando Pimentel, Cristina Carrola, Alexandra Vilela, António Braz Costa e Bruno Gonçalves

Com experiência direta na gestão de fundos comunitários, Alexandra Vilela, presidente do conselho de administração do COMPETE 2030, foi perentória em afirmar que «perdemo-nos neste grande edifício regulamentar, que às vezes é só papel e muito pouca realidade» e considera que a aplicação dos fundos sofre com uma «hiper-regulamentação» desconectada da vida real das empresas.

Apontou que a função da regulamentação devia ser promover transparência, concorrência justa e segurança jurídica, mas, na prática, muitas vezes falha. «Estamos num domínio de grande insegurança jurídica e com muita dificuldade de implementar a regulamentação», apontou.

Em representação da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), Cristina Carrola trouxe para o debate uma perspetiva operacional da regulação ambiental, particularmente centrada nos resíduos do setor têxtil. Explicou os mecanismos legislativos que permitem a desclassificação de resíduos e a sua reintegração como subprodutos, realçando a simplificação dos procedimentos e o envolvimento das empresas. «Para que um resíduo possa ser classificado como subproduto, é apenas necessária uma comunicação à APA», indicou.

No entanto, advertiu que esta solução não deve substituir a redução na origem, até porque «o melhor resíduo é o resíduo evitado».

Na última intervenção sobre o tema, Fernando Pimentel, diretor superintendente da Abit – Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confeção, destacou a importância do alinhamento regulatório entre o Brasil, o Mercosul e a União Europeia, ressaltando desafios e oportunidades de integração económica.