O relatório “Trade in Secondhand Clothing: Analysis of Markets in Uganda, the United Republic of Tanzania and the United States of America” foi elaborado no âmbito do programa Sustainable Manufacturing and Environmental Pollution (SMEP), implementado em parceria com a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD).
A investigação analisou cerca de 244.500 peças de vestuário em mercados do Uganda e da Tanzânia para avaliar a composição dos fardos de vestuário em segunda mão recebidos nestes mercados. Segundo o estudo, 96% das peças são reutilizáveis, entre 2,9% e 3,2% foram classificadas como “trapos” com algum valor comercial residual e apenas entre 1,1% e 1,3% cumpriam os critérios de resíduos têxteis. «Esta análise dos fardos contrasta com a narrativa predominante de despejo generalizado de resíduos», referem os autores.
O trabalho de campo decorreu entre maio e agosto de 2024. No Uganda, foram inquiridos 1.019 participantes no mercado Owino, em Kampala, incluindo 18 importadores, 598 retalhistas, 312 vendedores e 91 alfaiates. Na Tanzânia, foram consultados 1.082 participantes nos mercados de Kariakoo, Ilala e Karume, em Dar es Salaam, entre os quais 35 importadores, 642 retalhistas e 405 vendedores.
Nos EUA, o estudo contou com a colaboração da Secondary Materials and Recycled Textiles Association (SMART) e envolveu 12 empresas de triagem.
O relatório destaca que o comércio global de vestuário em segunda mão desempenha um papel relevante na circularidade têxtil ao prolongar a vida útil das peças, reduzir a pressão sobre os aterros nos países exportadores e disponibilizar opções de vestuário a preços acessíveis nos países importadores.
«Há anos que o setor têxtil de segunda mão enfrenta acusações que não refletem a realidade do funcionamento deste comércio. Este estudo fornece evidências sólidas e independentes que demonstram que a grande maioria das peças de vestuário que entram nestes mercados tem valor, pode ser utilizado como vestuário e continua o seu ciclo de vida através de sistemas locais de reutilização», refere Jessica Franken, diretora de assuntos governamentais da SMART, em declarações à Innovation in Textiles. «O setor global de segunda mão é um dos modelos de economia circular mais eficazes que temos. Prolongar a vida útil do vestuário reduz a procura por recursos virgens, diminui as emissões de carbono e mantém os têxteis em uso por mais tempo. A elaboração de políticas deve ser orientada por factos e dados, não por suposições», acrescenta.
Comércio e regras em debate
Em 2023, o Uganda e a Tanzânia importaram em conjunto 166,3 milhões de quilogramas de vestuário em segunda mão, no valor de 168 milhões de dólares (cerca de 145,62 milhões de euros), representando 13,1% do total de 1,27 mil milhões de quilogramas importados por África. A China foi o principal fornecedor de vestuário em segunda mão para ambos os países, com uma quota de 47,3% no Uganda e de 55,5% na Tanzânia, tendo esta posição crescido de forma significativa entre 2018 e 2023. No mesmo período, a quota de mercado dos EUA recuou de 8,2% para 2,5% no Uganda e de 13,9% para 9,1% na Tanzânia.
O estudo sublinha ainda a importância económica deste mercado para os consumidores com rendimentos baixos. No Uganda, onde o rendimento diário médio é de 2,68 dólares, uma peça de roupa nova pode representar até seis dias de rendimento, enquanto uma peça de vestuário em segunda mão equivale a 1,56 dias de rendimento.
Segundo o relatório, persistem desafios regulatórios associados à ausência de definições harmonizadas para distinguir vestuário reutilizável de resíduos têxteis. Os autores defendem maior transparência nas operações de triagem, sistemas normalizados de reporte e auditorias independentes para reforçar a rastreabilidade ao longo da cadeia de valor.
«Existe uma distinção crucial entre resíduos e têxteis reutilizáveis. Confundir os dois arrisca prejudicar meios de subsistência, restringir o acesso a vestuário a preços acessíveis e enfraquecer mercados circulares que já estão a proporcionar benefícios ambientais. O desafio não é impedir a reutilização, mas sim apoiá-la e reforçá-la», salienta Jessica Franken.
A investigação conclui que a harmonização de definições, a melhoria dos sistemas de dados e o reforço da transparência poderão contribuir para equilibrar objetivos ambientais com as realidades socioeconómicas dos mercados de vestuário em segunda mão.



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