Inovação processual e informação: O bem necessário na ITV

As actividades de produção de têxteis e vestuário fazem parte da história, a sua existência remonta aos primórdios da civilização. Protecção climática e distinção social aparecem assim como duas funções essenciais destes artigos numa base milenar.

Este sector utiliza uma diversidade de fibras (naturais, artificiais, sintéticas, …) susceptíveis de serem tecidas como inputs primários para a sua cadeia de valor. É tradição neste sector a utilização, nas mais diferentes épocas, da melhor e mais avançada tecnologia existente, incorporando valor em cada uma das etapas da sua cadeia extensa, complexa e actualmente bastante tecnológica.

Das matérias-primas até ao retalho, passando pela confecção, são utilizados muitos conhecimentos, processos físicos e químicos, maquinaria sofisticada, criatividade e arte.

A produção de uma peça de vestuário implica um significativo esforço em termos de tempo, de desenho e criatividade, de gestão de recursos, de engenharia, de empreendorismo e actividade empresarial, de gestão e de comercialização.

Temos aqui, em formato resumido e simples, o que representa esta cadeia e o que incorpora, quais são as funções primordiais dos produtos e as ferramentas que deverão ser empregues na gestão deste sector. No entanto, com a globalização e com o aumento da competitividade, assistimos à transferência da complexidade de gestão do material para o imaterial, isto é, fazer e fazer bem já não é suficiente para acrescentar valor e introduzir diferenciação (objectivo estratégico primordial de cada organização), isso é um dado adquirido.

Neste sentido, o mercado tem obrigado a que este sector se concentre em vantagens diferenciadoras (marca, tendências, relações, canais de distribuição, …) absolutamente dependentes de um factor: a informação.

Do Domínio da Produção ao Domínio da Informação

Na ITV nacional, assistimos a um domínio dos factores tradicionais desta fileira: compreensão e manuseamento correcto das características funcionais do têxtil e vestuário, know-how produtivo e de engenharia, boa maquinaria e avançada tecnologia de produção. Mas a luta há muito que não se faz só aí, faz-se na informação, nas relações, no serviço, nas práticas de gestão e no claro domínio dos aspectos comportamentais e psicológicos dos consumidores finais.

Seja qual for o novo paradigma de gestão, seja qual for a estratégia de diferenciação proposta para as empresas nacionais (criação de marcas, resposta rápida, serviço integrado, séries curtas, têxteis técnicos, nichos de mercado, aposta na distribuição …) existem aspectos aos quais não se poderá fugir: capacidade de gestão, rigor, criatividade e claro domínio sobre a informação (especialmente a gerada no mercado).

São estes os principais pontos a ter em atenção para a competitividade do sector onde, segundo diversos analistas, falhamos e falhamos muito.

Uma das ferramentas indispensáveis para a consecução dos objectivos de competitividade para a ITV nacional é desta forma o domínio das Tecnologias e Sistemas de Informação.

Ferramenta, porque a vulgarmente designada “informática” não deve ser um fim em si mesmo, como assistimos na maioria das vezes, mas uma alavanca para a boa gestão e para a competitividade das empresas. Não uma “informática” centrada na produção e nas operações internas da empresa, mas uma “informática” estratégica e centrada no mercado e na envolvente (clientes, fornecedores, parceiros, colaboradores, …) realmente potenciadora da performance e da competitividade. Que forneça informação à gestão, que potencie o serviço, que estabeleça o rigor, que facilite a criatividade, em suma, que o seu retorno seja visível e durável.

Indispensável, porque seja qual for a estratégia e o posicionamento a ser seguido, ele consubstanciará em maior ou menor grau a utilização das tecnologias de informação e comunicação como condição necessária ao sucesso das iniciativas.

Os Sistemas de Informação como Ferramenta para a Competitividade

Esta inevitabilidade na utilização das Tecnologias e Sistemas de Informação como imperativo estratégico assenta em grande parte nas transformações a que assistimos no mercado. O poder da distribuição, nomeadamente o do retalho especializado e das cadeias de distribuição generalistas, permite a obtenção de informação privilegiada junto dos consumidores e obriga a cadeias de fornecimento eficientes, rápidas e inteligentes. Neste cenário, a utilização de ferramentas de transmissão e de gestão dinâmica da informação ao longo das cadeias de fornecimento com fluxo paralelo e/ou inverso aos fluxos logísticos tornam-se críticas para as empresas da ITV (desde as matérias-primas até ao retalho, passando pela confecção e tecelagem).

Desta forma, e na incapacidade das empresas se tornarem todas players integrados na ITV, as empresas devem especializar-se nas suas actividades principais e dotarem-se de mecanismo de integração nas redes de fornecimento de terceiros. Permitir que grandes compradores mundiais acedam a informação específica, interajam de forma automatizada, obtenham ganhos de eficiência e efectividade através da transmissão de dados será uma mais valia que a nossa indústria necessita urgentemente introduzir. Similarmente, ao facultar tal interacção as empresas encontram-se em condições de reclamar para si o fluxo de informação inverso, isto é, as empresas passarão a poder receber informações sobre os clientes dos seus clientes (consumidores finais) podendo planear melhor a sua actividade através de uma monitorização efectiva dos gostos, tendências e interacções do mercado.

Para as empresas que optem por centrar os seus esforços no estabelecimento de presença no retalho e na criação e consolidação de marcas, as tecnologias e sistemas de informação são ainda mais importantes. Devido à origem deste posicionamento, que emerge de empresas industriais que se horizontalizam rumo à distribuição, a tendência natural será a de “aproveitar” sistemas e processos da componente industrial da empresa. Mas o que outrora foi concebido para controlar máquinas e recursos num ambiente industrial, não será decididamente o mais adequado para gerir uma cadeia de distribuição, uma loja, as interacções com clientes finais, em suma, toda uma estrutura logística e comercial orientada ao mercado.

As empresas mais performantes deste sector no panorama global (Zara, H&M, The Gap, Mango, Abercrombie & Fitch, …), utilizam as Tecnologias de Informação e Comunicação como um factor crítico para o sucesso dos seus modelos de negócio. Uma tecnologia orientada ao mercado e que replique em tempo quase real as tendências para toda a estrutura da empresa, uma tecnologia que obtenha eficiências na cadeia logística, no interior da empresa e nas tarefas mais rotineiras e repetitivas (tarefas administrativas, de controlo da produção, etc.), mas sobretudo uma tecnologia que interprete o mercado, interaja com ele e permita uma constante melhoria da experiência de compra dos consumidores de forma ubíqua e surpreendente (onde, quando, como e o que o consumidor desejar).

Do cliente para o Shop Floor

Os modelos de negócio vencedores no futuro, assentarão em cadeias de fornecimento que consigam responder às constantes mudanças de tendências do mercado em períodos inferiores a 1 mês. Para isso são necessários Tecnologias e Sistemas de Informação flexíveis, que encurtem distâncias entre os intervenientes na cadeia e que forneçam a possibilidade de transmissão de informação bi-direcional, de forma rápida, ágil e com custos marginais nulos.

A evolução tecnológica permitiu a aparição de tais sistemas a custos perfeitamente comportáveis para muitas das empresas da ITV nacional.

Para se processar esta transformação é necessário ter-se em mente que actualmente o importante não será vender o que se produz mas sim produzir-se o que se vende.

Em colaboração com Netimpact– Consultoria de Gestão e Sistemas (info@netimpact.pt)