Indústria prepara-se para a desglobalização

Os confinamentos provocados pelo covid-19, que ainda estão impostos em países como a China, e a invasão da Ucrânia pela Rússia mostraram a volatilidade das cadeias de aprovisionamento mundiais, voltando o foco da indústria para um sourcing mais regional e local

Especialistas estão a tentar extrair sentido do clima geopolítico volátil e das duras realidades económicas que a indústria terá que enfrentar, numa altura em que ainda está a lidar com dificuldades nas cadeias de aprovisionamento.

Dana Peterson, economista-chefe na associação sem fins lucrativos The Conference Board, acredita que muitas empresas vão começar a recuar décadas na globalização, pelo menos em certo grau. Procurar componentes e mão de obra mais barata em todo o mundo deixou de ser tão atrativo quando os produtos ficam retidos em centros produtivos como as cidades sob confinamento na China, longe das prateleiras das lojas.

Os governos deverão «encorajar ou forçar a indústria a localizar as suas cadeias produtivas, diversificar o seu aprovisionamento ou mesmo a trazer a sua produção para casa», afirmou Dana Peterson no início de abril. «E, como qualquer economista dirá, isso resulta num crescimento mais lento e numa inflação mais alta – e essas duas coisas não são uma boa combinação», sublinhou a economista-chefe na The Conference Board, citada pelo Sourcing Journal.

Alguns países estão já a escolher lados, com aliados a colocarem-se ao lado dos EUA ou da China. Não só as economias, mas também as multinacionais, terão de decidir «com quem vão alinhar», alertou a economista. «Certamente, isso vai afetar não apenas onde as empresas operam, mas onde aprovisionam os seus produtos e que consumidores vão tentar cativar», realçou.

A pandemia lembrou à indústria porque é a diversificação importante, considera Simon Freakley, CEO da AlixPartners.

«Ao sair do covid, o que aprendemos é que temos de ter uma estratégia “para o caso de algo acontecer”, assim como uma estratégia para o fornecimento imediato, e que as cadeias de aprovisionamento regionais, assim como as locais, vão ser absolutamente essenciais para as empresas, porque elas não podem confiar nas cadeias de aprovisionamento mundiais naquilo que rapidamente se está a tornar num mundo desglobalizado», indicou num webinar em março.

Guerra traz novos desafios

Também a guerra na Ucrânia se tornou num «assunto polarizador» para alguns, salientou Simon Freakley, acrescentando que os líderes das empresas têm de «aproveitar a sua vantagem» e declarar exatamente aquilo que defendem e quais são os valores da sua empresa. Até agora, a maior parte assumiu uma forte oposição à invasão, com cerca de 300 empresas a saírem da Rússia e com apenas «algumas dezenas de grandes empresas» a continuarem com o negócio habitual, referiu o CEO da AlixPartners, acrescentando que «vai haver consequências» para as empresas que não ajam rapidamente contra os ataques.

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O grupo Prada, a Hermès, a Chanel, o LVMH, o Kering, a Burberry, a Valentino, a Versace e a Hugo Boss colocaram um travão nas suas operações na Rússia.

Embora fontes indiquem que as vendas de luxo na Rússia atingiram 8 a 9 mil milhões de dólares no ano passado, o mercado representa apenas uma pequena quota das vendas, minimizando, por isso, as implicações para o sector, apesar do encerramento temporário das lojas.

Na Prada, a Rússia representa apenas 1,5% a 2% das vendas, que atingiram 2,93 mil milhões de euros no retalho no ano passado, com o contributo de uma subida de 61% nas vendas online. Paolo Zannoni, presidente do conselho de administração da Prada, indicou que a Rússia «continua a ser potencialmente um mercado importante e gostaríamos de poder mantê-lo aberto se a situação nos permitir», mesmo que o país não gere grandes números.

O executivo citou um declínio nas perspetivas geopolíticas e macroeconómicas e uma volatilidade cada vez maior. «Não podemos antecipar, nesta fase, o impacto dos eventos atuais na indústria de bens de luxo, mas estamos a monitorizar de perto o ambiente de negócio, prontos a reagir rapidamente a desenvolvimentos inesperados», assegurou Paolo Zannoni.

O analista de retalho Walter Loeb, da Loeb Associates, acredita que os comentários de Zannoni podem indicar que as lojas encerradas durante a invasão podem não reabrir quando a guerra acabar. Os países vizinhos que pertencem à NATO que assumiram posições sem que a Rússia os tenha atacado diretamente podem gerar toda um novo conjunto de preocupações, apontou.

A Shein terá alegadamente abandonado os planos de IPO, embora nunca tenha confirmado a sua intenção de entrar em bolsa, e está agora em negociações com empresas de capital de risco. A Renaissance Capital, que segue as IPO, culpou a guerra entre a Rússia e a Ucrânia por estar a arrefecer o mercado das IPO, até há pouco borbulhante.

Consequências a longo prazo

As empresas devem preparar-se para consequências «de longa duração» decorrentes da guerra, segundo Lori Esposito Murray, presidente do Comité para o Desenvolvimento Económico do Centro de Políticas Públicas da The Conference Board. «Não tem só a ver com a Rússia e a Ucrânia. Tem a ver com as mudanças em curso na ordem mundial», explicou. Mesmo que a guerra termine num espaço de tempo relativamente curto, o «impacto será de longa duração», sublinhou.

Ilaria Maselli, a economista-chefe para a Europa da The Conference Board, deu conta de «sinais de que o sector da produção está claramente a perder dinamismo» mesmo que o sentimento em relação ao emprego esteja também a cair acentuadamente na indústria.

«Os países europeus entraram nesta crise com um mercado laboral muito forte e agora sabemos que a inflação está a aumentar e a acelerar», garantiu Maselli. «E como consequência disso, penso que vai haver um grande debate nas empresas entre empregadores e trabalhadores em 2022 e 2023 será sobre o aumento dos salários», acrescentou. Uma maior inflação irá, inevitavelmente, erodir o poder de compra das famílias, quando os salários não esticarem tanto, mencionou.

Entretanto, o Moody’s Investors Service espera que os retalhistas enfrentem uma crescente pressão, tendo em conta o aumento dos custos das matérias-primas e dos transportes na indústria, que exacerbam os elevados custos operacionais e irão testar a tolerância dos consumidores a preços mais altos. Os analistas da empresa de rating acreditam que «empresas mais pequenas com maior alavancagem têm menos margem para absorverem custos mais elevados e menos poder para negociar com vendedores e assegurar produto num ambiente de interrupções da cadeia de aprovisionamento».

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Pelo contrário, os grandes retalhistas como o Walmart vão «usar o seu poder financeiro para absorver e lidar com o aumento dos custos aproveitando-se das fortes relações com os vendedores».

Os retalhistas de preços médios que servem consumidores de rendimentos médios e baixos, sobretudo em categorias discricionárias, enfrentam maiores riscos se os consumidores começarem a usar o seu dinheiro para compras mais orientadas pelo preço baixo, colocando a Macy’s e a Kohl’s na linha de fogo, enquanto os outlets deverão sair vencedores.