Indústria de vestuário mais atenta à água

Um estudo da CDP revela que as cadeias mundiais de aprovisionamento estão sob ameaça por causa da crescente falta de água, mas a indústria da moda lidera na definição de objetivos.

Numa análise a como as empresas estão a responder à segurança da água, a associação sem fins lucrativos indica que 35% do sector do vestuário mostra riscos na cadeia de aprovisionamento relacionados com a água – o que, ainda assim, representa a melhor performance entre os 12 sectores analisados.

Esta indústria, contudo, teve o quarto menor número de respostas em comparação com outros, com apenas 72 empresas a enviarem informação.

Cerca de 26% dessas empresas da indústria de vestuário estabeleceram objetivos relativos à água – o melhor resultado por sector. «Players conhecidos como o grupo Burberry, a Capri Holdings, a Levi Strauss, o Kering e o LVMH estão já nesse caminho, apoiados por iniciativas como o programa Roadmap to Zero da ZDHC», indica o documento, que aponta que o aumento potencial de legislação relacionada com a devida diligência, «antecipamos ver um aumento gradual nos objetivos para a água na cadeia de aprovisionamento».

O estudo focou-se em 3.163 grandes empresas, com um volume de negócios superior a 250 milhões de euros, que responderam a um inquérito. Destas, 1.542 empresas, equivalente a 50%, responderam estar envolvidos com a sua cadeia de aprovisionamento em relação à utilização de água. Isso inclui fazer exigências relativas à água nos contratos, recolher dados sobre água, consciencializar para as questões da água ou colaborar na área da inovação.

«As cadeias de aprovisionamento são nós que ligam a economia mundial. Mas estão a desintegrar-se rapidamente devido às mudanças climáticas e ao abandono imprudente com que tratamos os recursos finitos do mundo», afirma Patricia Calderon, diretora na área da água da CDP. «Os dados dizem-nos que as nossas reservas de água estão a tornar-se cada vez mais frágeis e os custos financeiros estão a aumentar. Devem ser as grandes empresas, com maior impacto sobre a água, a tomarem ações imediatas, a trabalhar com os seus fornecedores para conter a onda de risco da água», acrescenta.

As necessidades de água deverão aumentar até 30% até 2050, de acordo com as Nações Unidas, tendo impacto nas cadeias de aprovisionamento, que terão de tomar medidas para acompanhar as mudanças.

Os dados da CDP revelam que uma em cada cinco empresas enfrenta riscos relacionados com a cadeia de aprovisionamento que podem ter um impacto financeiro ou estratégico substancial nos seus negócios. Estes riscos estão estimados em 77 mil milhões de dólares para 623 empresas inquiridas. De acordo com 79 empresas, há um risco imediato de 7 mil milhões de dólares causado por escassez de água e comida, assim como relacionado com questões regulamentares e de reputação.

Mais preocupante, aponta a CDP, é o facto de 28% das empresas participantes no estudo não se envolverem com a sua cadeia de aprovisionamento nem ter planos para o fazer nos próximos dois anos. Estas empresas abrangem diversos sectores, da indústria à agricultura e transportes. Um quinto destes negócios considera que a questão não é importante, apesar da sua atividade ter um forte impacto na água.

«Precisamos de uma mudança de paradigma na forma como as métricas económicas, e as políticas que estão por detrás delas, valorizam e governam a água», realça Henk Ovink, diretor-executivo da Comissão Global a Economia da Água.

«A fasquia tem de subir muito mais se queremos criar cadeias de aprovisionamento fortes e eficientes, livres de riscos sérios em relação à água. As empresas devem mudar as suas perspetivas para reconhecerem as oportunidades significativas que advêm de se tornarem mais resilientes ao nível da água», conclui Patricia Calderon.