Indústria de vestuário do Egito otimista

A disrupção nos envios provocada pelos ataques dos Houthis no Mar Vermelho está a prejudicar a aquisição de matérias-primas por parte dos produtores egípcios, mas, ao mesmo tempo, está a aumentar as encomendas de clientes europeus.

[©Suez Canal Authority]

O Egito tem visto as taxas de envio aumentarem desde a crise do Mar Vermelho, ao mesmo tempo que tem sido afetado ao nível da importação de matérias-primas da Ásia. No entanto, o país, que é um importante centro de sourcing de proximidade para o mercado da UE, também registou um aumento nas encomendas de clientes europeus para tirar partido da proximidade do Egito à Europa, sem enfrentar os ataques dos Houthi.

Em 2023, o Egito exportou vestuário no valor de 2,43 mil milhões de dólares, o que representou uma queda de 2% em relação a 2022, sendo os EUA o seu principal destino de exportação, com 1,03 mil milhões de dólares, seguidos pela Europa, com 533 milhões de dólares, de acordo com o Conselho de Exportação de Vestuário do Egipto (ECE).

Desde outubro de 2023, o transporte marítimo através do Mar Vermelho para o Canal de Suez tem sido afetado por ataques a navios de carga, feitos em resposta à guerra de Israel em Gaza. Nos últimos dois meses, os custos dos seguros aumentaram e as empresas de contentores deixaram de transitar no Mar Vermelho, refere um artigo do Just Style.

«Os envios estão a passar pelo Mar Vermelho, mas o custo do envio para o Egito duplicou ou triplicou e tem havido atrasos. A crise não parou a produção», afirma Mohamed Kassem, presidente e CEO da World Trading Company, uma organização de sourcing de têxteis e vestuário no Egito, e administrador da International Textile Manufacturers Federation (ITMF).

Embora o Egito tenha uma indústria têxtil e de vestuário totalmente integrada, a maior parte das matérias-primas é importada da Índia e da China. Samer Riad, diretor-geral do Grupo Riad, um produtor vertical de vestuário no Cairo, afirma que a interrupção dessas importações teve um impacto imediato, levando alguns produtores a começarem a abandonar as suas fontes tradicionais de matérias-primas.

«Estes produtores estão a recorrer à Turquia para a importação das suas necessidades de matéria-prima, a preços um pouco mais elevados, uma vez que os custos de frete e os tempos de envio estão agora muito mais a favor da Turquia em comparação com o Extremo Oriente», aponta Samer Riad.

Nancy Salam, diretora de exportação da Salamtex, produtora de malhas e rendas no Egito, refere que a indústria local poderia absorver a interrupção se tivesse dois a três meses de matérias-primas e têxteis em stock e era capaz de integrar um mês adicional de prazos de entrega para novas remessas.

Para mitigar o risco de atravessar o Mar Vermelho, alguns produtores egípcios estão a utilizar rotas alternativas, revela Nancy Salam, como o envio para Omã. A carga é então transportada por terra através da Arábia Saudita e depois enviada para o Egito. «É mais caro e demora mais, mas garante melhor a entrega», sublinha.

Nos últimos dois meses, a situação tem sido benéfica em termos de encomendas de nearshoring por parte de clientes europeus. «Os clientes estão muito mais interessados ​​[no Egito] do que antes, devido ao atraso de 15 a 30 dias [no envio ao redor do Cabo da Boa Esperança]. Ser capaz de se aprovisionar em proximidade é definitivamente mais atrativo», acrescenta Nancy Salam.

No entanto, embora em grande parte o tráfego marítimo no Mediterrâneo não tenha sido afetado, indica Samer Riad, «os navios com destino aos EUA foram negativamente afetados, uma vez que a rota marítima do Extremo Oriente para os EUA através do Canal de Suez não é atualmente a rota preferida devido à situação no Mar Vermelho». Em vez disso, muitas companhias marítimas navegam da Ásia para os EUA através do Pacífico e não passam pelo Egipto, onde poderiam adquirir stock para o mercado dos EUA.

Algo que preocupa os egípcios, uma vez que os EUA são o maior mercado de exportação do país, em parte devido ao programa de Zonas Industriais Qualificadas (QIZ) dos EUA, através do qual os produtores egípcios têm acesso isento de impostos se 10,5% dos componentes de um produto forem provenientes de Israel.

De acordo com Mohamed Kassem, essas exportações continuaram apesar da guerra, embora as discussões bilaterais entre o Egito e Israel sobre o QIZ estivessem em pausa. O presidente e CEO da World Trading Company espera, por isso, que todas as exportações de vestuário e têxteis egípcios aumentem no segundo semestre de 2024. «No primeiro semestre do ano, a procura diminuiu, mas no segundo semestre veremos um aumento. Se mantivermos os mesmos níveis do ano passado, seria bom», conclui.