Indústria de vestuário de Myanmar em risco

Numa altura em que a junta militar está a perder diversos territórios na guerra civil que começou em 2021, a indústria de vestuário do país está a ser afetada pela falta de mão de obra, com muitos trabalhadores a sair do país ou a entrar na clandestinidade.

[©ILO]

Em fevereiro de 2024, o governo militar decretou o recrutamento obrigatório de homens e mulheres entre os 18 e os 35 anos e os 18 e os 27 anos, respetivamente, assim como de especialistas com 45 e mais anos, que são agora obrigados a cumprir dois anos de serviço militar obrigatório, que se podem prolongar por cinco anos.

Este recrutamento está a afetar a indústria de vestuário do país, já que aqueles que não obedecerem à legislação podem ser presos, o que está a levar muitos a fugir do país.

Os trabalhadores da indústria têxtil e do vestuário estão particularmente reticentes em fazer horas extra, apesar de precisarem do dinheiro, porque há relatos de que unidades militares estão a forçar os jovens que trabalham à noite a integrarem o exército sem informarem as famílias. Isso tem levado muitos jovens a pedirem a demissão. «Os trabalhadores nas fábricas de vestuário regressaram a casa, fugiram do país devido a esta crise», indica uma ativista laboral ao Just Style sob anonimato.

Vicky Bowman, diretora do Myanmar Centre for Responsible Business, indicou que «os especialistas na indústria estimam que até 5% da força de trabalho não regresse às fábricas após a festa de Thingyan [o novo ano birmanês] e fiquem em casa ou tentem ir para a Tailândia. Isso vai afetar a época de pico da produção, uma vez que as fábricas estão mais ocupadas entre maio e setembro».

A instabilidade pode ainda intensificar-se à medida que o governo militar perde terreno para a aliança pró-democracia de grupos armados e milícias, sobretudo nas fronteiras de Myanmar com a China, com o Bangladesh e a Tailândia. Isso afetou os produtores de têxteis e vestuário que usam as rotas terrestres para exportar e importar produtos da Tailândia e da China, embora as empresas que usam rotas marítimas, como a partir do porte de Yangon, a capital comercial do país, estejam a sentir menos instabilidade.

Ainda assim, as interrupções locais acrescentam mais incerteza e custos aos compradores que ponderam Myanmar como país de sourcing. «Isto pode encorajar os compradores a irem a outros países, sobretudo se as suas encomendas forem sazonais e sensíveis a prazos. Linhas de produto com mais duração, como o vestuário de trabalho, podem continuar a ser produzidas [no país]», acredita Vicky Bowman.

Atualmente, refere Ko Kyaw Gyi, da Myamar Labour Society, as principais zonas de produção de vestuário, em Yangon e nas cidades vizinhas de Bago e Pathein, continuam a ser controladas pelo governo militar, que beneficia dos impostos pagos, pela corrupção e pelos ganhos em moeda estrangeira desta indústria.

Em 2023, o Banco Mundial indicou que as exportações de vestuário de Myanmar atingiram 5,5 mil milhões de dólares em 2022, apesar da condenação internacional do golpe de 2021, que pôs fim ao governo democrático de Aung San Suu Kyi.

Mercado sem sanções

Os principais parceiros comerciais, como os EUA e a União Europeia, têm-se mostrado relutantes em impor sanções gerais a Myanmar após o golpe de Estado, para evitar punir os negócios e os trabalhadores, por isso o mercado tem sido preservado. Com 52% das exportações de vestuário de Myanmar a terem como destino a UE, de acordo com o Banco Mundial, as exportações totais de vestuário do país aumentaram de 900 milhões de dólares em 2010 para 5,5 mil milhões de dólares em 2022, representando um terço das exportações totais, indica o relatório do Banco Mundial, com as receitas em moeda estrangeira provenientes de venda de serviços de confeção a representarem 3% do PIB.

Algumas empresas, como a H&M, decidiram, entretanto, deixar gradualmente de se aprovisionar em Myanmar.

Apesar de tudo, a indústria têxtil e vestuário de Myanmar continua a operar e, segundo Vicky Bowman, o volume de negócios terá crescido no primeiro semestre de 2023. Segundo a diretora do Myanmar Centre for Responsible Business, esse crescimento pode dever-se à recuperação pós-pandemia e ao impacto de novas empresas que foram construídas com investimentos realizados antes do golpe de Estado. «Estão agora à procura de encomendas, mas frequentemente de diferentes compradores do que pensavam fornecer», indicou ao Just Style. Estão ainda a aproveitar os custos baixos da mão de obra resultante da manutenção do salário mínimo até outubro de 2023, altura em que subiu para os funcionários do sector privado para 5.800 kyat de Myanmar (cerca de 2,5 euros) por dia, em comparação com 1.000 kyat para 8 horas de trabalho diário.

O valor, contudo, não chega para cobrir o custo de vida no país, sublinha Ko Kyaw Gyi, que salienta que diariamente os trabalhadores gastam pelo menos 6.000 kyat de Myanmar para comida e despesas básicas. Representantes dos trabalhadores sustentam que o aumento foi pensado para ajudar os donos das empresas a manterem o controlo sobre os funcionários.

Para o futuro, a situação não parece dar sinais de melhoria, sobretudo porque não tem havido novos investimentos nesta indústria desde o golpe.