Inditex pressionada para revelar fornecedores

A retalhista espanhola é das poucas com a sua dimensão que não publica a lista das empresas onde se aprovisiona. Os investidores querem uma maior transparência.

[©Inditex]

Os investidores querem que a Inditex siga o exemplo da H&M e da Primark para tornar pública a lista de fornecedores para que possam melhor avaliar quaisquer riscos associados à cadeia de aprovisionamento, indica a Reuters.

Os retalhistas de vestuário, em particular, estão sob pressão para demonstrarem que não há trabalho forçado nas cadeias de aprovisionamento e que os trabalhadores da confeção recebem salários decentes.

Retalhistas e marcas de moda como a Adidas, H&M, Hugo Boss, M&S, Nike, Primark e Puma já publicam a lista de fornecedores, incluindo nomes e moradas das fábricas a que recorrem.

A Inditex, por seu lado, publica anualmente o número de fornecedores que tem em 12 países, mas não fornece informação individual sobre as empresas. A Reuters questionou acionistas da Inditex o que desejam ver da empresa em termos de transparência de informação.

Em resposta, a gestora de ativos neerlandesa MN afirmou que «no nosso envolvimento com a Inditex, uma das coisas que pedimos é se pode revelar a lista dos fornecedores e a sua localização geográfica. Embora a Inditex nos assegure que tem esses dados disponíveis, até agora a Inditex não se mostrou disponível para desvendar essa informação, ao contrário de outros pares na indústria que fornecem listas de fornecedores extensivas».

A MN, que gere fundos de pensões neerlandeses, sublinhou que é importante ter esta informação para mostrar se a Inditex tem esta informação disponível, assim como para o seu próprio dever de diligência.

A Inditex, que deverá publicar amanhã, 13 de março, os seus resultados anuais, recusou comentar as exigências dos investidores de publicação da lista de fornecedores.

«A Inditex tem um profundo empenho em manter padrões elevados na sua cadeia de aprovisionamento e acredita que o nosso sistema de rastreabilidade, que é líder na indústria e nos dá a máxima visibilidade da cadeia de aprovisionamento, é essencial para isso», referiu um porta-voz da Inditex, citado pela Reuters.

O fundador da Inditex, Amancio Ortega, detém uma quota de 59% da empresa, com uma quota de 5% detida pela filha Sandra Ortega. Juntos representam cerca de 69 mil milhões de dólares.

Os cinco investidores que responderam às questões da Reuters detêm uma quota conjunta de cerca de 2 mil milhões de dólares na empresa, cuja avaliação atual é de cerca de 140 mil milhões de dólares.

Nenhum dos investidores que falaram com a Reuters considera desinvestir da Inditex, destaca a Reuters.

A MN indicou que aconselhou os seus clientes em dezembro a desinvestir da retalhista de preços baixos TJX, que detém a Homesense e a TK Maxx, que tiveram um desinvestimento a partir de 1 de janeiro. «Durante mais de três anos de envolvimento vimos muito pouca melhoria na diligência sobre direitos humanos na sua cadeia de aprovisionamento», referiu a MN à Reuters. A TJX declarou ter reforçado o seu código de conduta para os fornecedores e ter expandido o seu programa de auditorias a fábricas nos últimos anos.

Mais transparência

A Inditex tem um acordo com a federação sindical IndustriAll, sob o qual lhe fornece a lista completa de fornecedores. Mas o IndustriAll quer maior transparência por parte de todas as empresas, incluindo da Inditex, realçou.

A Know The Chain, uma iniciativa de benchmarking para empresas e investidores responderem ao trabalho forçado nas cadeias de aprovisionamento, deu à Inditex uma classificação mais baixa na avaliação de 2023 do que na avaliação de 2021. «A empresa é encorajada a reforçar a transparência na sua cadeia de aprovisionamento ao revelar a lista completa de fornecedores diretos, não uma lista parcial», explicou a iniciativa.

Publicar as fábricas com as quais trabalha pode trazer mais concorrência à Inditex pelos seus fornecedores, admitem os investidores. Swetha Ramachandran, gestora de portefólio da Artemis Investment Management, em Londres, quer saber que quota de volume de negócios da Inditex é produzida em cada país fornecedor. «Ajudar-nos-ia a determinar a resiliência da sua cadeia de aprovisionamento», acredita.

Os dados publicados pela Inditex desde 2019 mostram que a empresa reduziu o número de fornecedores na China e aumentou no Bangladesh e em Marrocos. Mas não dá detalhes sobre a quantidade de produtos que adquire a esses fornecedores.

Grace Fu, gestora de portefólio na Clearbridge Investments, que detém ações na Inditex, também pediu mais clareza em relação à cadeia de aprovisionamento. «É muito importante por causa de todo o escrutínio relacionado com o ESG, o trabalho e as matérias-primas.  Eles afirmam ser um líder nessas questões, por isso é muito importante para eles realmente ter esse nível de transparência», destacou.

A Schroders, acionista da Inditex, acompanha a consciencialização das empresas sobre os locais de produção e encoraja os retalhistas de vestuário, incluindo a Inditex, a ser transparente, revelou Hannah Shoesmith, diretora de envolvimento na empresa.

Uma maior transparência, nomeadamente sobre fatores de sustentabilidade, governança e ambientais, podem influenciar decisões de investimento, lembrou Marie Payne, diretor de investimento responsável na Cardano, outra acionista da Inditex.

O fundo soberano norueguês, que detém uma quota de 1,4 mil milhões de dólares na Inditex, afirmou que contacta regularmente com a empresa para temas como gestão de risco da cadeia de aprovisionamento, direitos humanos e transparência. Contudo, recusou dar detalhes sobre esses debates. O fundo indicou que em relação às práticas, em geral, das empresas sobre a cadeia de aprovisionamento «há desafios constantes, incluindo no que diz respeito a rastreabilidade e reporte».