A circularidade e a gestão de resíduos têxteis estão a ganhar destaque na política industrial indiana em 2026, através de um conjunto de iniciativas anunciadas pelo Governo e da publicação do relatório “Mapping of Textile Waste Value Chain in India”, que identifica os principais desafios e oportunidades para reforçar a reciclagem e a valorização dos resíduos ao longo da cadeia de valor têxtil.
O relatório conclui que a Índia gera cerca de 7,07 milhões de toneladas de resíduos têxteis por ano, dos quais 42% são pré-consumo e 58% pós-consumo. O documento indica ainda que mais de 70% dos resíduos são recuperados e encaminhados para reciclagem, downcycling ou upcycling, enquanto a indústria da fiação reintegra quase 100% dos seus resíduos no próprio processo produtivo. Já a fase de confeção é identificada como a principal fonte de resíduos pré-consumo, com 1,85 milhões de toneladas anuais, e o setor informal surge como um ator central na recuperação dos resíduos pós-consumo, com taxas de recuperação na ordem dos 55%.
No entanto, o relatório aponta lacunas ao nível da separação dos resíduos na origem, da adoção de tecnologias avançadas de triagem e do enquadramento regulamentar, referindo a ausência de códigos do sistema harmonizado para fios reciclados e produtos de upcycling, o que limita o desenvolvimento destes mercados e o acesso a incentivos.
No Orçamento do Estado indiano para 2026-2027, o Governo anunciou um “Programa Integrado para o Setor Têxtil”, estruturado em cinco programas, entre os quais a Tex-Eco Initiative, destinada a promover uma indústria têxtil e do vestuário «globalmente competitiva e ambientalmente sustentável». Esta iniciativa pretende «apoiar tecnologias inovadoras para a economia circular, incluindo a gestão de resíduos têxteis, a reciclagem e a valorização, bem como o desenvolvimento de fibras recicladas, novos materiais, embalagens sustentáveis e outros produtos de elevado valor a partir de têxteis descartados, em colaboração com instituições de investigação, associações de investigação têxtil, centros de excelência, indústria, start-ups e outras partes interessadas relevantes», indica Pabitra Margherita, Ministro de Estado dos Negócios Estrangeiros e dos Têxteis da Índia.
Já Giriraj Singh, Ministro dos Têxteis, refere, em comunicado, que esta iniciativa integra ainda a National Fibre Scheme, que visa reforçar a «autossuficiência em fibras naturais, fibras sintéticas e fibras de nova geração», reduzindo a dependência das importações; a Textile Expansion and Employment Scheme, que se destina à «modernização dos clusters têxteis tradicionais, através de apoio ao investimento em maquinaria, atualização tecnológica e criação de centros comuns de testes e certificação»; o National Handloom and Handicraft Programme, que reúne e reforça os programas de apoio aos tecelões e artesãos, procurando melhorar os rendimentos, facilitar o acesso ao mercado e preservar o património têxtil indiano; e o Samarth 2.0, com o objetivo de «modernizar o sistema de formação do setor, reforçando a colaboração entre a indústria e as instituições académicas» para assegurar mão de obra qualificada.
O Governo indiano destaca ainda um conjunto de medidas ambientais já em vigor aplicáveis à indústria têxtil e do vestuário. Entre estas contam-se as metas de intensidade de emissões de gases com efeito de estufa, apesar de não as quantificar, para os setores intensivos em carbono, ao abrigo do Carbon Credit Trading Scheme, que obriga as entidades abrangidas a divulgar as emissões de âmbito 1 e 2, um projeto-piloto de assistência técnica para PME, marcas e fabricantes sobre abordagens de ciclo de vida e Pegada Ambiental do Produto (PEF na sigla em inglês), bem como restrições à utilização de substâncias químicas perigosas.
Preparação de um modelo RAP
A National Recycling, empresa indiana privada especializada na gestão e reciclagem de resíduos, considera que a evolução das políticas de economia circular aponta para uma maior responsabilização das empresas pela gestão dos produtos no fim de vida.
Num guia dedicado à reciclagem de resíduos têxteis e ao cumprimento das futuras exigências do sistema de responsabilidade alargada do produtor (RAP), a empresa explica que este modelo «transfere a responsabilidade pela gestão dos produtos em fim de vida dos municípios para os produtores», incentivando-os a «assumir a responsabilidade por todo o ciclo de vida dos produtos».
A National Recycling defende que as organizações deverão começar por identificar e quantificar os resíduos gerados nas diferentes fases da atividade, distinguindo resíduos pré-consumo e pós-consumo, bem como os diferentes tipos de fibras e materiais presentes nos produtos. Segundo a empresa, este levantamento deverá servir de base para a definição de objetivos de redução de resíduos e de aumento das taxas de reutilização e reciclagem.
O guia recomenda ainda a criação de sistemas de recolha e de programas de devolução de artigos usados, bem como o estabelecimento de parcerias com recicladores e operadores especializados, capazes de assegurar a correta triagem, processamento e valorização dos materiais.
Outro dos aspetos destacados é a rastreabilidade. A National Recycling considera que as empresas deverão implementar mecanismos que permitam acompanhar o percurso dos resíduos desde a recolha até ao tratamento final, mantendo documentação detalhada sobre quantidades recolhidas, materiais recuperados, processos de reciclagem e destino dos resíduos.
A National Recycling incentiva igualmente as empresas a integrarem princípios de economia circular no desenvolvimento dos produtos, privilegiando materiais recicláveis, reduzindo a utilização de misturas de fibras difíceis de separar e concebendo artigos mais duráveis e fáceis de reciclar no fim da sua vida útil.
De acordo com a empresa indiana, o Ministério do Ambiente, Florestas e Alterações Climáticas da Índia divulgou, no final de 2024, um projeto – que ainda não está em vigor – que alargaria o modelo de RAP já em vigor para fluxos como plásticos, resíduos eletrónicos e pilhas, ao setor têxtil. O projeto propõe metas mínimas de incorporação de fibras recicladas de 5% no exercício de 2025-2026, 12% em 2026-2027 e 20% em 2028-2029. Segundo a empresa, o modelo abrangeria fabricantes e marcas que coloquem produtos têxteis no mercado indiano acima de um determinado limiar de volume de negócios, permitindo ainda a aquisição de créditos de RAP a recicladores registados para cumprir essas metas, à semelhança do mecanismo já utilizado para os resíduos de embalagens de plástico.
A empresa de gestão de resíduos refere ainda que, até meados de 2025, a Índia não dispunha de uma legislação específica para a reciclagem de resíduos têxteis, mas que o setor se encontra abrangido por legislação ambiental de caráter geral, aplicável aos grandes produtores de resíduos.



![Índia_30julho2026[©Ministry of Textiles of India]](https://portugaltextil.com/wp-content/uploads/2026/07/India_30julho2026©Ministry-of-Textiles-of-India-696x464.jpeg)






