Importações ilegais de vestuário inundam a Indonésia

O aumento das importações ilegais está a afetar a indústria de vestuário da Indonésia, que está atualmente a recuperar de um declínio nas encomendas internacionais, e a sentir uma maior pressão para ter uma produção sustentável.

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O valor dos têxteis e dos produtos têxteis ilegais, nomeadamente importações de vestuário, para a Indonésia atingiu 2,94 mil milhões de dólares no ano passado, de acordo com a Associação Indonésia de Produtores de Fios de Fibra e Filamentos (APSyFi – Asosiasi Produsen Serat dan Benang Filament Indonesia).

A associação chegou a este número comparando os dados comerciais com o consumo legal de têxteis e vestuário da Indonésia, com especial enfoque nos dados comerciais Indonésia-China recolhidos pelo International Trade Centre (ITC) das Nações Unidas, revela o Just Style. Segundo a APSyFi, isso significa que as importações ilegais representaram cerca de 41% do consumo total de têxteis e produtos têxteis em 2022 na Indonésia, que foi de 16 mil milhões de dólares em 2022.

A China foi a maior fonte de importações ilegais de têxteis na Indonésia, tendo exportado 6,5 mil milhões de dólares em têxteis para a Indonésia em 2022, de acordo com a administração das alfândegas da China.

No entanto, ao gabinete de estatística da Indonésia (BPS – Badan Pusat Statistik) registou apenas 3,55 mil milhões de dólares em importações têxteis provenientes da China que entraram na Indonésia através de canais formais no mesmo ano. A diferença de 2,95 mil milhões de dólares nas importações foi atribuída ao contrabando ilegal para a Indonésia.

Assumindo um valor de importação de 1,5 mil milhões de rupias da Indonésia por contentor, a APSyFi estima que 28.480 contentores de têxteis ilegais entram na Indonésia a cada ano, o que equivale a 2.370 contentores por mês.

«O impacto é definitivamente enorme», afirma Rizal Tanzil, secretário-geral da Associação Têxtil Indonésia (API – Asosiasi Pertekstilan Indonesia). «Eles são mais baratos e mais massivos. Estão em toda parte. Acabaremos por morrer» caso esta enorme onda de contrabando não seja combatida, alerta.

As importações ilegais de têxteis não estão apenas a prejudicar a indústria têxtil e de vestuário indonésia, mas também as receitas fiscais do governo e a saúde pública, uma vez que muitos dos produtos importados são roupas usadas que não cumprem os padrões de higiene locais, refere Rizal Tanzil

A causa das importações ilegais de têxteis é a elevada procura por parte dos consumidores, que querem produtos baratos, e a fraca supervisão das importações ilícitas para a Indonésia, acrescenta.

Rizal Tanzil explica que a indústria tem estado em conversações com o governo para resolver o problema, mas não houve uma solução clara até agora.

Desafios a ultrapassar

Redma Wirawasta, presidente da APSyFI, indica que o atual nível de produção têxtil a jusante da Indonésia está abaixo de 50% da capacidade devido a este contrabando, que é pior do que durante a pandemia.  De acordo com Redma Wirawasta, em 2022, a indústria têxtil a jusante no país recuperou do covid e atingiu 75% da capacidade. No entanto, o nível caiu novamente devido ao influxo de importações ilegais. «Se o nível de produção a jusante for de 45%, então há cerca de dois milhões de trabalhadores que perderam o seu emprego», destaca ao Just Style. «Muitas grandes empresas não informam a redução da força de trabalho para evitar danos à sua imagem», acrescenta.

Atualmente, a indústria têxtil emprega cerca de três milhões de trabalhadores na indústria têxtil, um número que aumenta para seis milhões se forem incluídos os sectores de vestuário e convecção de pequena escala, adianta Redma Wirawasta.

A guerra entre a Rússia e a Ucrânia, o abrandamento económico na Europa e nos EUA e o conflito entre Israel e o Hamas perturbaram a procura, aponta. «A China, que ainda mantém o seu nível normal de produção, tem de despejar o seu excesso de oferta noutros mercados, e a Indonésia é o alvo mais fácil», justifica.

Apesar dos esforços, há um défice de aplicação das leis, considera Redma Wirawasta. «O principal problema não é a regulamentação, mas a aplicação e a monitorização das importações ilegais. O governo precisa de envolver a sociedade e os meios de comunicação social para denunciar quaisquer atividades ilegais e educar os consumidores a preferirem os produtos legais e nacionais», afirma ao Just Style.

Esta crise surge num momento difícil, dado que o mercado global da moda está a evoluir em direção à sustentabilidade. Regulamentações como a Estratégia para os Têxteis Sustentáveis ​​e Circulares da UE exigem que as peças de vestuário vendidas na UE cumpram normas específicas de durabilidade, impacto ambiental e reciclabilidade.

Esta mudança coloca pressão adicional sobre os produtores indonésios para que adaptem os seus processos de produção, ao mesmo tempo que se mantêm competitivos.

«Precisamos preparar a nossa indústria», realça Rizal Tanzil. «Não é fácil. Precisamos de reestruturar novamente a nossa indústria, tanto a partir da fonte de energia como da cadeia de aprovisionamento, incluindo as substâncias perigosas e outras normas», sustenta.

Moga Simatupang, diretor-geral de proteção ao consumidor e regulamentação comercial do Ministério do Comércio, garantiu ao Just Style que o governo está a ouvir e a tomar medidas práticas para conter as importações ilegais de têxteis, dando conta que tem havido um aumento da supervisão do comércio e que foram destruídos, este ano, mais de 18.000 fardos de roupa usada contrabandeada, incluindo malas e sapatos. «É claro que aplicamos a lei de acordo com os regulamentos e a legislação aplicável e fazemos uma supervisão intensiva em conjunto com os ministérios e instituições e educamos o público para consumir produtos legais e dar prioridade aos produtos nacionais, resumiu.