«Há uma tentativa de equilibrar sustentabilidade e competitividade industrial»

A pressão social recente e a proximidade às eleições está a levar Bruxelas a ser mais moderada em relação à sustentabilidade, mas, aponta Dirk Vantyghem, diretor-geral da Euratex, a transição para uma ITV mais ecológica é desejável e não vai parar.

Dirk Vantyghem

Apesar de alguns recuos e obstáculos, como aconteceu com a legislação do dever de diligência, a União Europeia deverá continuar a regulamentar a atividade da indústria têxtil e vestuário. O caminho não tem volta, sublinhou o diretor-geral da Euratex, numa entrevista ao Portugal Têxtil à margem da apresentação dos resultados do projeto RegioGreenTex. Dirk Vantyghem destacou, no entanto, uma certa moderação por parte de Bruxelas, que está mais atenta à competitividade das empresas, e sublinhou a necessidade de equilibrar o jogo face aos concorrentes de fora da Europa, assim como de consciencializar os consumidores para as questões da sustentabilidade, para que a procura possa acompanhar a oferta.

Como é que a Euratex vê os avanços, e recuos, que tem havido com a legislação europeia relacionada com a sustentabilidade?

Não é uma questão fácil de responder. É bom avançarmos e criarmos um quadro regulatório para a indústria têxtil, porque o objetivo final é promover e premiar os produtos têxteis mais sustentáveis e de maior qualidade. Para isso, é preciso estabelecer regras e ser capaz de medir o que é bom e o que não é. Por isso precisamos que haja esse enquadramento e temos de trabalhar nisso. O único risco é criarmos um quadro regulatório demasiado complicado e oneroso para as empresas europeias e que outras empresas, por exemplo, fora da Europa, não tenham de cumprir essas novas regras. Vai custar dinheiro, investimento em novas tecnologias, tratamento de águas, etc. Se outras empresas não fizerem esse esforço, estamos a criar um desequilíbrio na concorrência. É por isso que, enquanto Euratex, achamos que deve continuar a ser implementada esta estratégia têxtil, esta regulamentação, mas, ao mesmo tempo, temos dito à Comissão [Europeia] que é necessário ter muito cuidado na forma como é implementada, nos prazos e no fornecimento de detalhes, e que seja aplicada a todos. Isso é muito importante.

Temos visto países como França a adotarem medidas mais restritivas de combate à fast fashion, por exemplo. É algo que a Europa poderá seguir?

Enquanto Euratex não estamos a pedir para que seja construído um muro à volta da Europa e, de alguma forma, criar uma espécie de proteção artificial. Creio que seria um sinal errado em termos da cadeia de aprovisionamento, porque estamos dependentes, e também estamos muito interligados a todo o mundo em termos de exportações. Por isso, não queremos medidas protecionistas. Estamos apenas a pedir que todos sigam as mesmas regras, que é uma nuance importante. É verdade que França está a tentar, pelo menos em alguns aspetos, liderar nesta área. O risco, contudo, é que, se cada Estado-Membro começar a fazer as suas próprias regras, pequenas ou grandes, criamos um mercado único muito fragmentado. A maior parte das nossas empresas, mesmo as pequenas e médias empresas, operam em, pelo menos, vários Estados-Membros. Se França tiver umas regras e Portugal outras, e a Alemanha tiver uma regra um pouco diferente, estamos a fragmentar o mercado único, o que não é bom. Por isso, tudo bem que França esteja a fazer algumas iniciativas por diferentes razões, mas preferimos que essas iniciativas sejam tomadas a nível europeu e que sejam compatíveis com as regras da Organização Mundial do Comércio. Posso acrescentar que o que é relevante nestas propostas e debates sobre a ultra fast fashion é que aborda o papel do consumidor, que é algo que temos insistido em Bruxelas, onde há um foco muito grande na regulamentação e na responsabilidade do produtor, mas não tanto no lado do consumidor, no lado da procura. E se o consumidor não seguir a nossa jornada em direção a produtos têxteis de maior qualidade e mais sustentáveis, se não estiver disposto ou não tiver possibilidades de comprar uma peça de vestuário mais sustentável, então temos um problema e toda esta estratégia não irá funcionar. Por isso, temos de criar mais transparência para o consumidor. Temos de ver como conseguimos atrair o consumidor para os nossos esforços e para comprar vestuário mais sustentável. E, como tal, esta discussão em França é, pelo menos, um bom gatilho para espoletar este tipo de debates a uma escala pública maior.

A questão da procura tem sido muito falada nos últimos tempos, nomeadamente após o pedido de insolvência da Renewcell. Pode significar que o mercado não está ainda suficientemente maduro para estas soluções mais sustentáveis?

Claramente. E a história da Renewcell é um testemunho triste disso. Será que vamos demasiado rápido? É um sinal para estarmos mais com os pés no chão? A verdade é que era uma empresa boa, com tecnologia boa, com parceiros fortes, incluindo alguns grandes retalhistas na Europa. Por isso, parecia que estava tudo pronto para dar certo e mesmo assim deu errado. Mostra que qualquer que seja o modelo de negócio mais circular que se esteja a criar, é preciso olhar para a base, que são os números, os custos e a vontade, ou possibilidade, do consumidor pagar o preço. Às vezes, quando temos este tipo de debate na bolha europeia e em Bruxelas, há muita discussão, alguma quase ideológica, sobre porque temos de fazer isto e que há vontade de fazer isto, mas temos também de ter uma discussão ao nível da realidade, em termos de se há um aumento também na perspetiva dos custos, se há um mercado suficientemente grande para absorver esta tecnologia. E, mais uma vez, a insolvência da Renewcell foi um pouco uma chamada de atenção para dizer que as coisas, às vezes, não são tão fáceis como pensamos.

No entanto, não é motivo para não avançarmos no sentido de termos uma indústria têxtil mais sustentável e mais transparente. Mas é aquilo que estamos constantemente a dizer: vamos ter cuidado e ser realistas a estabelecer objetivos, a medir o que é possível. A cadeia de aprovisionamento será capaz de fazer essa gestão de uma perspetiva tecnológica, de quantidades, de aumento de custos? Temos de ter elementos mais factuais, gerados a partir de dados. Temos de ter os pés assentes na terra.

Olhando para este ano, o que é que as empresas da indústria têxtil e vestuário devem esperar a nível europeu?

De uma perspetiva política mais ampla, é interessante ver uma mudança em Bruxelas de um foco muito forte no Pacto Ecológico, há um ou dois anos, para o que está a acontecer atualmente, com uma perspetiva mais equilibrada sobre o Pacto Ecológico e, ao mesmo tempo, a competitividade industrial. Quem está na bolha de Bruxelas vê a evolução, que está ligada à proximidade das eleições europeias, porque há muita pressão dos agricultores, da indústria química e de outras, a dizer “é demasiado, demasiado rápido, estamos a perder empregos, temos de fechar, temos de concorrer com a China, temos os americanos a oferecerem grandes subsídios”. Há, por isso, um certo reequilíbrio, diria, um abrandamento neste foco muito grande na sustentabilidade e há uma tentativa de equilibrar sustentabilidade e competitividade industrial.

Poderá haver algum adiamento na legislação?

Algumas pessoas afirmam que poderia ser bom adiar alguma legislação. Eu atrevo-me a dizer que se for adiada, aumentamos a incerteza legal para as empresas, podendo, tendo em conta a forma como as coisas funcionam na Europa, perder-se mais um ou dois anos. Os empresários não gostam de incerteza. Por isso, há sentimentos contraditórios em relação a possíveis adiamentos, porque pode ser bom, por um lado, porque alguma da legislação pode ser demasiado radical e ter prazos demasiado rápidos, e, como tal, poderia ser melhorada, mas no geral, estaremos apenas a aumentar o período de incerteza para as empresas, que já têm muitos problemas em relação à evolução da economia, dos preços da energia ou das guerras.