Guerra no Médio Oriente pressiona custos do vestuário

A guerra no Irão está a fazer subir os custos das fibras, da energia e dos transportes, colocando os produtores de vestuário sob pressão e abrindo caminho a um aumento dos preços que deverá chegar aos consumidores em breve.

[©Plummy Fashions]

As consequências do conflito no Médio Oriente estão a alastrar à cadeia de valor têxtil e de vestuário, com a subida simultânea dos preços do poliéster e do algodão a reduzir a margem de manobra de fabricantes e marcas num momento em que a procura continua débil, revela a Bloomberg.

Não é apenas na energia e nos transportes que os custos estão a aumentar, mas também os preços das matérias-primas estão a subir. O custo do poliéster, derivado de combustíveis fósseis, disparou, ao mesmo tempo que o algodão registou igualmente uma forte subida, perante receios relacionados com a oferta, escassez de fertilizantes e preocupações de que um poderoso fenómeno El Niño possa afetar as colheitas ainda este ano. Para equilibrar as contas, os produtores estão a repensar os processos produtivos e os retalhistas ponderam entre aumentar os preços ou aceitar margens mais reduzidas.

Os clientes deverão começar a sentir o impacto no outono. Uma vez que as marcas costumam fazer encomendas com até um ano de antecedência, os custos mais elevados poderão fazer-se sentir verdadeiramente nas lojas na próxima primavera e verão, o que poderá desencorajar ainda mais os consumidores, já pressionados pelo aumento das faturas de alimentação e energia, e expor os retalhistas ao risco de perdas mais elevadas.

Para muitos na indústria do vestuário, a guerra no Irão é apenas a mais recente crise a enfrentar. Depois da pandemia, das perturbações nas cadeias globais de aprovisionamento e das tarifas dos EUA, «tem sido uma montanha-russa nos últimos dois anos», afirma Jakob Dworsky, cofundador da marca sueca de vestuário minimalista Asket, à Bloomberg. «Se recuarmos até ao covid, parece que nada tem sido verdadeiramente estável. Tivemos de nos adaptar», refere.

Preços das fibras em escalada

Antes do conflito, o poliéster era transacionado a cerca de metade do preço do algodão. Depois, a forte subida dos preços do petróleo levou os preços desta fibra sintética na China para máximos de quase quatro anos. A empresa de vestuário Plummy Fashions, do Bangladesh, que fornece marcas da Inditex, incluindo a Zara e a Pull&Bear, registou um aumento de até 25% nos preços dos fios de poliéster nas semanas que se seguiram ao início da guerra. Por sua vez, os preços do algodão atingiram máximos de dois anos, à medida que os compradores procuravam alternativas e a oferta se tornava mais limitada. Com o El Niño desta temporada a representar uma ameaça adicional às colheitas, os futuros do algodão atingiram recentemente os níveis mais elevados desde março de 2024.

«O que é invulgar no atual contexto é que as duas principais fibras estão simultaneamente sob pressão ao nível dos custos», explica Julian Hügl, partner da McKinsey & Co. «Isso elimina a habitual possibilidade de as marcas substituírem uma fibra pela outra», salienta.

A Kettelhack, produtora alemã de tecidos cujos produtos utilizam maioritariamente misturas de poliéster e algodão, registou um aumento dos custos entre 5% e 8%, desvenda o diretor comercial Jens Kampling, numa entrevista à Bloomberg.

As fortes oscilações de preços não se limitam às fibras. «Não há um único custo de produção que não tenha aumentado, sejam fios de poliéster, fios de algodão, corantes, produtos químicos, petróleo ou gás», realçou, por seu lado, Mohit Jain, vice-presidente executivo da produtora têxtil indiana Indo Count Industries, numa conferência de apresentação de resultados.

Produtores e marcas com poucas alternativas

Segundo Fazlul Hoque, diretor-geral da Plummy Fashions, as matérias-primas representam cerca de 60% do custo de uma t-shirt básica, enquanto as margens das fábricas rondam normalmente apenas 2% a 3%. Com a procura ainda fraca, a empresa está a absorver os custos adicionais em vez de os repercutir nos clientes.

«Não temos absolutamente qualquer margem de manobra», assume Fazlul Hoque. «Não cultivamos algodão, não produzimos chips de poliéster e o petróleo não é o nosso produto», resume.

Na Ásia, os grandes polos de produção começam a dar sinais destas pressões. A Índia, um dos maiores centros mundiais de sourcing de vestuário, representa cerca de 4% do comércio global de têxteis e vestuário. Ainda assim, as exportações indianas de vestuário confecionado caíram 4,5% em julho face ao mesmo mês do ano anterior, prolongando uma sequência de quedas que levou os envios a recuar 10,5% nos primeiros quatro meses do ano fiscal. O Bangladesh exporta anualmente cerca de 800 milhões de dólares em vestuário para o Médio Oriente e, por enquanto, esse comércio está praticamente suspenso.

Embora os produtores tenham poucas alternativas senão lidar com a subida dos custos ao longo da cadeia de aprovisionamento, as marcas dispõem de mais opções. Podem pressionar os fornecedores ao nível dos preços, alterar os produtos ou simplesmente aumentar os seus próprios preços.

Perante o aumento dos custos dos fios e dos tecidos, a Asket optou pela última solução. «Se tivéssemos seguido o outro caminho para manter os preços, teríamos de procurar fornecedores noutros locais ou reduzir a nossa qualidade», indica Jakob Dworsky. «Enquanto marca independente a operar com margens reduzidas, não podemos simplesmente absorver aumentos de custos prolongados», acrescenta.

Alguns produtores e consultores consideram que, se as pressões não diminuírem, as marcas poderão em breve ser obrigadas a explorar outras opções, como reduzir as gramagens dos tecidos, simplificar os designs, alterar as misturas de matérias-primas ou eliminar determinadas características dos produtos para compensar os custos de produção mais elevados.

Ainda assim, Julian Hügl estima que os aumentos de preços nas categorias de vestuário básico possam eventualmente atingir entre 10% e 20%, embora possa demorar até um ano para que o impacto seja sentido na totalidade.

A Inditex revelou que as perturbações no Médio Oriente fizeram aumentar os seus custos de transporte e de produção, sendo esperado que o impacto continue a pressionar as margens brutas na segunda metade do ano. Para mitigar as perturbações provocadas pela guerra, o grupo espanhol afirmou ter adaptado os seus métodos de transporte e sourcing, apoiando-se igualmente numa rede de aprovisionamento distribuída por dezenas de países.

«É um ambiente extremamente competitivo», sublinha Jon Devine, economista-chefe da Cotton Incorporated. «Por isso, cada cêntimo conta. O consumidor pode nem sequer reparar numa alteração dos preços do algodão, mas os retalhistas que estão atentos às suas margens vão reparar, porque cada cêntimo pode ajudá-los ou prejudicá-los», aponta.

Efeito sobre os consumidores

Para muitos dos retalhistas, a principal preocupação são os consumidores. Existe o receio de que o aumento do custo de vida deixe os clientes com menos dinheiro disponível para despesas discricionárias. «A cadeia de valor têxtil depende muito da confiança dos consumidores e do dinheiro que têm disponível», realça Fritz Grobien, presidente da Bolsa de Algodão de Bremen, associação que representa produtores, transformadores e comerciantes.

Os produtores estão a acompanhar atentamente os mercados de matérias-primas, as rotas de transporte e os padrões de consumo, à procura de sinais de uma redução da procura. Na Plummy Fashions, Fazlul Hoque já registou uma queda das receitas e não espera que a situação mude até que a guerra abrande e os preços comecem a normalizar.

Em períodos económicos difíceis, explica, é fácil para os consumidores «simplesmente deixarem de comprar uma camisa e usarem aquilo que já têm».

Isso deixa empresas como a sua encurraladas entre custos crescentes e compradores que, num mercado altamente competitivo, não estão dispostos a pagar mais. O resultado é uma pressão ainda maior sobre margens que já eram reduzidas.

«Os compradores não querem saber se os preços das matérias-primas aumentaram, porque neste momento têm inúmeras alternativas», acredita Fazlul Hoque. «Se eu me recusar a produzir com prejuízo, haverá outra empresa disposta a fazê-lo», conclui.