Governo iraniano quer criar uma moda feminina islâmica

O parlamento iraniano aprovou um projecto-lei para promover uma moda feminina iraniana e islamista, face aos temores dos deputados de uma “invasão cultural” do estrangeiro nesta área. «O vestuário das jovens iranianas não reflecte a sua identidade islâmica e iraniana. Exprime pontos de vista estrangeiros», afirma com alguma preocupação Laleh Eftekhari. Vestida com o tradicional “chador” preto, esta deputada queixa-se que «mesmo se alguém procura um artigo de vestuário diferente, não encontra nada».Toda a pessoa do sexo feminino e púbere deve respeitar o código islâmico, dissimulando as formas do seu corpo e cobrindo a sua cabeleira, de preferência, com algo preto. Embora grande número de iranianas respeite esta regra, nas cidades os lenços tendem a “deslizar” sobre as cabeças, as bainhas das calças a subir e os casacos a ajustar-se. Ao ponto do guia supremo iraniano, o aiatola Ali Khamenei, ter soado a campainha de alarme já há 2 anos.«Temos numerosos criadores de moda talentosos cuja experiência não é aproveitada ou cujas criações não têm preços acessíveis. Queremos apoiá-los a desenvolver e a vender os seus produtos», declara Laleh Eftekhari. Uma vez aprovada pelo Conselho dos Guardiães, a lei obrigará o governo a promover e a ajudar financeiramente uma moda inspirada pelas raízes tradicionais iranianas. Além disso, servirá para encorajar a população a não ceder aos atractivos de uma moda estrangeira que seria “incompatível” com os cânones do código de vestuário e as tradições do Irão.Por exemplo, a televisão do Estado deverá incitar as suas apresentadoras a vestir peças que estejam em conformidade com a regulamentação. «Não vamos obrigar a nada. Aliás somos contra uma aparência homogénea», refere uma outra deputada, Fatemeh Alia, membro da comissão da cultura.Mas nem toda a gente está entusiasmada com a ideia. Os moderados estão preocupados com uma nova potencial restrição às liberdades públicas, num país que conta já com algumas. «Se devemos adoptar uma lei sobre o que vestir, deveríamos conceber também uma sobre o que comer», sugere em tom irónico o deputado reformador Ismail Gerami-Moghadam. Em Teerão, as mulheres interrogadas na rua mostram-se na defensiva perante este tema. «No início é só “mel”, mas é bem possível que depois forcem toda a gente a vestir a mesma coisa», sustenta Manijeh Afzali, de 47 anos. A sua filha de 20 revela também algum cepticismo: «não consigo imaginar o que vão propor como padrões de vestuário. Será certamente algo parolo e semelhante à roupa dos camponeses».Até ao momento, os deputados não explicaram o que subentendem por vestuário “correcto”, mas evocaram como fonte de inspiração os costumes tradicionais e regionais do Irão. De acordo com a lei, os ministérios da Indústria e do Comércio deverão trabalhar em conjunto com o da Cultura e da Orientação Islâmica no sentido de realizar exposições de moda. Para Parvaneh Hosseinpour, vendedora numa loja de roupa, a inspiração do vestuário tradicional poderia paradoxalmente colorir o preto uniforme do “chador”, omnipresente por todas as ruas do Irão. «Os costumes tradicionais apresentam cores vivas magníficas, mas não são muito confortáveis. Se os criadores puderem aplicar essas cores em roupa mais prática, poderíamos fazer desaparecer este negro invasor», conclui Parvaneh Hosseinpour.