Giatex reduz consumo de água em 40% com novas soluções

A diminuição média apresentada pelo projeto liderado pela Adalberto decorre do desenvolvimento de ferramentas para a gestão e tratamento de água, mas também de novas tecnologias têxteis para a preparação, tingimento e acabamentos.

Com um investimento de 18,2 milhões de euros, apoiado em 11,4 milhões de incentivos, a agenda mobilizadora, cujos resultados foram ontem apresentados na Fábrica de Santo Thyrso, envolveu 27 entidades e centrou-se na gestão eficiente da água nos processos de tinturaria, estamparia e acabamento.

O projeto resultou na implementação de 20 pilotos industriais, dos quais 15 já se encontram em operação e cinco em fase final, tendo sido registados ganhos ao nível do consumo de água, energia, utilização de produtos químicos e redução da carga poluente.

Quatro linhas, múltiplas soluções

O Giatex dividiu-se em áreas distintas, que deram origem a quatro eixos de inovação. No caso do primeiro PPS (sigla de Processos, Produtos e Serviços), dedicado à consultoria para a eficiência hídrica, o primeiro passo passou pela caracterização dos processos industriais. «Estudamos mais de 50 processos de enobrecimento, analisamos mais de 1000 amostras de efluentes», explicou Ana Gonçalves, gestora do projeto no CITEVE, que coordenou cientificamente o Giatex.

Esse trabalho permitiu construir um modelo de diagnóstico que identifica consumos específicos por etapa de processo, correntes com potencial de reutilização direta ou após tratamento e pontos críticos de controlo. A metodologia integra ainda recomendações ao nível da reorganização de fluxos hídricos, otimização de sequências de lavagem e modernização de equipamentos.

O resultado é um serviço de consultoria, disponível para qualquer empresa da indústria têxtil, que transforma dados operacionais em decisões técnicas, permitindo reduzir o consumo de água, diminuir o volume de efluentes e aumentar a eficiência global dos processos produtivos.

O PPS2 focou-se no desenvolvimento de soluções para redução da pegada ambiental dos processos de enobrecimento, mantendo os requisitos técnicos dos produtos finais. Foram desenvolvidas 30 linhas de investigação, organizadas em diferentes áreas tecnológicas.

De acordo com Ana Gonçalves, «11 das soluções testadas seguiram para a implementação industrial, porque tiveram efetivamente resultados muito promissores», estando mesmo em curso a submissão de um pedido de patente.

Entre os resultados incluem-se o desenvolvimento de uma nova gama de corantes naturais, a redução significativa da carga poluente dos efluentes, bem como ganhos ao nível da eficiência energética e hídrica. Destacam-se também processos de preparação e branqueamento a baixa temperatura, que permitem reduzir consumos energéticos e emissões, e soluções baseadas na reutilização de resíduos têxteis como matéria-prima para novos processos de tingimento.

Já o PPS3 incidiu no desenvolvimento e validação de soluções para tratamento e reutilização de efluentes. Foram testadas diferentes tecnologias, incluindo processos biológicos, eletroquímicos e de oxidação avançada, bem como materiais filtrantes desenvolvidos a partir de resíduos.

Os resultados obtidos indicam a possibilidade de reutilização de parte dos efluentes tratados em processos industriais, tendo sido realizados testes em ambiente semi-industrial para validação das soluções.

O último PPS, por seu lado, centrou-se no desenvolvimento de uma solução digital para monitorização e gestão dos processos. A plataforma desenvolvida permite a recolha de dados em tempo real através de sensores aplicados aos processos, integrando informação sobre parâmetros críticos como pH, condutividade ou consumo de água. Estes dados são processados através de ferramentas de Business Intelligence, permitindo gerar indicadores, identificar padrões e antecipar desvios.

A solução integra sensores, sistemas de comunicação e ferramentas de análise, permitindo acompanhar parâmetros operacionais, identificar desvios e apoiar a otimização dos processos.

Sustentabilidade ambiental e económica

Para Mário Jorge Machado, presidente da Adalberto, que lidera o projeto, o Giatex demonstra que a gestão eficiente da água deve ser encarada não apenas como um imperativo ambiental, mas como um fator estruturante da competitividade industrial.

«Este projeto vai muito para além das questões da sustentabilidade ambiental, também passa pela sustentabilidade económica das empresas e da competitividade», afirmou.

O responsável destacou que a redução do consumo de água está diretamente ligada à eficiência energética e à diminuição do uso de auxiliares químicos, dois fatores críticos no custo dos processos de enobrecimento. Ao otimizar estes parâmetros, as soluções desenvolvidas no âmbito do Giatex permitem ganhos operacionais relevantes, com impacto direto na competitividade das empresas.

Mário Jorge Machado destacou ainda a importância estratégica dos dados gerados pelo projeto. «Vamos poder ter dados para mostrar qual é o consumo de água, qual é o impacto que temos em termos do ambiente e os consumidores têm o direito de ter essa informação», indicou, acrescentando que «os dados gerados na execução deste projeto podem servir de modelo e de exemplo para virem a ser incluídos no passaporte digital do produto».

Carla Branco Santos

Em termos mais latos, acredita Mário Jorge Machado, «estamos a dar ferramentas para a Europa inovar, ser mais competitiva e termos ferramentas para poder competir com outros parceiros que têm outras vantagens».

Para Carla Branco Santos, vogal do conselho diretivo do IAPMEI, «esta agenda constitui um enorme exemplo daquilo que é a eficiência coletiva e da colaboração estratégica entre empresas e entidades do sistema científico e tecnológico» e os resultados demonstram ser possível «transformar processos, criar produtos com maior valor acrescentado, reduzindo impactos ambientais e económicos».