frica minha

A Vlisco, uma empresa holandesa criada há mais de 160 anos fruto da experiência colonial deste país europeu e que se tornou numa parte integrante da cultura da áfrica Central e Ocidental, mostrou a sua colecção com um tema “urban chic” em Paris num desfile dinâmico. Os modelos desfilaram alegremente em fatos justos e vestidos de cocktail em estampados que casavam combinações de cores arrojadas como o laranja, açafrão e chocolate ou o violeta, turquesa e castanho. Os estampados foram, além dos chamativos desenhos abstractos muitas vezes associados com os tecidos com estampados com cera, obtidos com recurso a cilindros gravados que espalham cera quente em ambos os lados de um rolo de tecido branco, mergulhado depois em banho de corantes. Um vermelho ketchup e o estampado água com quadrados misturados com triângulos lembravam os botões de comando de um i-Pod. Uma paisagem urbana com filas de arranha-céus deu à colecção um estilo arriscado e cosmopolita, enquanto que outra, com bolas coloridas, se dirigia explicitamente à elite africana globalizada. Somos a verdadeira marca africana. E porque as mulheres que a usam, mulheres africanas, são também muito internacionais, é natural estarmos também a desenvolver a nossa marca aqui na Europa», afirma Eddy Hessing, directora para a Holanda da Vlisco. A empresa – que forneceu tecidos para marcas de luxo como Kenzo e Jean Paul Gaultier, assim como para a japonesa Junya Watanabe para a sua recente colecção inspirada em áfrica – há muito que se sente atraída por Paris, a capital mundial da moda e casa de uma vasta comunidade africana, segundo Hessing. O desfile também apresentou três jovens designers, laureados no concurso de design de moda patrocinado pela Vlisco. O trio – Eva Gabarra, do Senegal, Anggy Haif dos Camarões e June, uma dupla de designers com loja em Paris – criou visuais que associam o algodão estampado a cera com sedas e tules sumptuosos, combinando fatos de saia cortados com cintos de tecido e ultimando os modelos com capas decoradas com búzios e bordas feitas em madeira. Eva Gabarra, que apresentou vestidos de cerimónia com grandes caudas e colares a sobressair, afirmou que queria seduzir a geração mais jovem da elite africana. Gostaria de trazer essas raparigas, que estão muito interessadas em marcas internacionais como Versace e Gucci, de volta aos estampados com cera, que são a nossa herança», explicou a designer autodidacta. As jovens mulheres na audiência – muitas nascidas em França de pais de origem africana – pareceram perceber a mensagem de Gabarra. é fantástico ver estes tecidos valorizados», sublinhou Massita Sissoko, de 24 anos, editora de uma revista on-line, cujos pais emigraram do Mali para França. Para nós, os estampados em cera são realmente um símbolo forte, que resumem a pessoa que os está a usar num único olhar: podemos saber a riqueza de uma pessoa, o estatuto social e a idade só de olhar para os estampados com cera que usa». Vendidos a cerca de 50 euros por metro, os estampados com cera da Vlisco estão entre os mais caros de áfrica e têm sido alvo de imitações mais baratas. A empresa estima que 75% de todos os estampados africanos com cera sejam inspirados nos designs da Vlisco, mas apenas uma fracção é autêntica, de acordo com o seu website. Uma realidade indiscutível para a empresa, sobretudo em relação aos chineses que, segundo aponta, estão a copiar os seus designs assim que chegam ao mercado para despejarem imitações baratas nos mercados africanos. Pelo preço de um metro de Vlisco pode comprar 8 a 10 cópias», afirma Eddy Hessing. A concorrência como a China é uma ameaça. Temos de nos defender contra as cópias chinesas. Queremos tornar-nos numa marca de topo da gama em áfrica». A Vlisco quer agora ultrapassar as imitações entregando quatro colecções de tecidos por ano. Também introduziu linhas de pronto-a-vestir e de carteiras e abriu a sua flagship em Cotonou, no Benim. E tal como a Louis Vuitton, que põe o seu logo nas suas criações, há muito que a Vlisco estampa nas bordas do tecido o slogan “veritable wax hollandaise Vlisco” ou “Real Dutch Wax Vlisco”. Fundada em 1846 pelo holandês Pieter Fentener van Vlissingen, a Vlisco encontrou rapidamente um mercado de exportação para os seus tecidos pintados à mão na Indonésia. Os soldados africanos que serviram o exército imperial holandês trouxeram os tecidos, que retiraram a sua inspiração dos tradicionais batiks do arquipélago. A áfrica Central e Ocidental acolheram os tecidos, integrando-os na cultura local. Ainda hoje, os tecidos estampados a cera são presentes populares em casamentos, aniversários e outras festividades. Inicialmente pintados à mão, o processo foi industrializado no início do século XX. Para a convidada de primeira fila, Sissoko, ver os tecidos da sua infância numa passerelle foi um momento de emoção. Senti que estavam a prestar uma homenagem à minha herança, à minha cultura e à minha mãe», revelou. Nos últimos tempos, o continente africano tem estado no centro das atenções, pelo seu potencial económico e, apesar das muitas limitações que apresenta, pelo seu desenvolvimento estrutural e social. Tem também sido uma fonte de inspiração incontornável para marcas e criadores internacionais. A Louis Vuitton, por exemplo, inspirou-se em áfrica para uma colecção de pronto-a-vestir Primavera-Verão aclamada pela crítica, com saias rodadas e blazers com ombros destacados decorados com fechos tribais e muitas pulseiras.