Fim da cultura de descontos?

Poderá o fim da recessão levar não apenas ao fim da cultura de desconto, mas também ao aumento dos preços e da inflação? O consenso na indústria de retalho é que a inflação não pode ser uma preocupação por enquanto, embora muitos economistas continuem preocupados que pode de facto regressar e rapidamente. Estamos a atravessar um período económico de inflação consideravelmente baixa e, em alguns países, até mesmo deflação. Esta situação ocorreu apesar da introdução de um conjunto de iniciativas, tais como baixas taxas de juro, flexibilização quantitativa (impressão de mais dinheiro) e preços crescentes da energia e das matérias-primas, que são políticas que geralmente tendem a aumentar a inflação. Com isto em mente, os economistas alertam que tais políticas podem levar rapidamente ao aumento da inflação, algo que poderia prejudicar a recuperação dentro da indústria. Como a procura global por stocks caiu dramaticamente durante o ano passado, face à diminuição da despesa no consumidor, os fornecedores têm agora um nível considerável de excesso de capacidade em stocks e unidades de produção abaixo da capacidade. Alguns analistas projectam que qualquer aumento da procura no consumidor pode ser facilmente atendida pelo stock excedente e isto sem qualquer pressão ascendente sobre os preços. Mas será este o caso? Será que estas reservas de stock podem ser facilmente reabastecidas depois de perdidas e como é que isto vai ser feito com os actuais níveis de utilização de mão-de-obra nos principais países exportadores? Quem procurou um carro para alugar durante estas férias de Verão pode ter observado um aumento acentuado nos preços causado pela escassez da oferta. Apesar do mundo ser inundado com um excesso de novos carros, o negócio de aluguer não respondeu logicamente (isto é, de acordo com a teoria económica), colocando mais veículos no sistema – em parte por causa do receio e em parte porque não conseguem obter financiamento. A Mudpie, agência de previsão de tendências, tomou a decisão de comprar um novo sistema de tecnologias de informação, necessário para sustentar o seu rápido crescimento. Obtido o financiamento e colocada a encomenda, tem agora de esperar meses para a entrega, pois aparentemente a indústria de tecnologias de informação habituou-se a não vender coisa alguma e os principais componentes estão em falta. Quanto tempo faltará para que os preços comecem a aumentar? é fácil antever este tipo de situações na indústria de vestuário. é preciso apenas um ponto de estrangulamento na cadeia de abastecimento para contrariar a sabedoria convencional de que o excesso de capacidade vai manter-se sobre os preços. E o factor mais provável e preocupante na cadeia será a falta de financiamento. Os fornecedores e os retalhistas estão a sentir cada vez mais dificuldade em financiar o seu capital de maneio e uma subida na procura que origine a necessidade de mais capital será particularmente difícil de financiar. Além disso, as empresas que faliram retiraram capacidade ao sistema. A teoria económica sugere que as novas empresas vão começar a substituir a capacidade quando a procura aumentar, mas, mais uma vez, a falta de financiamento disponível irá reduzir drasticamente este efeito. Estamos todos conscientes de que, neste momento, os retalhistas estão inundados com produtos em rebaixa, mas a realidade é que quer os retalhistas quer os seus fornecedores têm vindo a reduzir stocks e capacidade. Em conjunto com a redução da oferta de retalhistas e fornecedores falidos, seria apenas necessário um pequeno aumento na procura para fazer desaparecer qualquer excesso. Quando isso acontecer, quantos retalhistas e seus fornecedores serão capazes de responder com rapidez suficiente, especialmente dadas as dificuldades na obtenção de financiamento? Se eles não conseguirem, então os preços deverão subir.