Fibe produz fio com resíduos de batata

A empresa de ciência de materiais desenvolveu a primeira fibra têxtil a partir de resíduos da colheita de batata. Agora, a empresa sediada em Londres anunciou a criação de um fio a partir das suas fibras.

[©Fibe]

A empresa, que tinha já recebido 785 mil libras em bolsas de investigação, fechou a sua primeira ronda de investimento, no valor de mil milhões de libras, com o contributo da Tin Shed Ventures, da Patagonia.

Com este financiamento, a start-up irá focar-se na ampliação do seu processo para que a Fibe tenha «toda a validação técnica e comercial necessária» para trazer uma fibra competitiva ao mercado nos próximos anos, segundo o cofundador e CEO Idan Gal-Shohet.

«A inovação da Fibe não só evita emissões de um fluxo de resíduos sem opções viáveis, mas também está preparada para produzir fibras de alta qualidade e com menor pegada ecológica para ajudar a impulsionar a transição climática da indústria do vestuário», destaca McKenzie Smith, da Tin Shed Ventures. «Ficamos muito impressionados com o progresso técnico inicial da Fibe e estamos entusiasmados por fornecer não apenas investimento, mas também aproveitar a nossa inovação interna em materiais e a nossa experiência na comercialização para ajudar a acelerar o caminho da Fibe até ao mercado», acrescenta.

A Fibe foi fundada em 2022 com o objetivo de criar as fibras mais escaláveis, acessíveis e sustentáveis ​​do mercado. Usa fluxos de resíduos agrícolas, nomeadamente os resíduos da colheita da batata, uma vez que os restos de caules e folhas da batata são a maior matéria-prima agrícola inexplorada. Este tipo de material orgânico não pode ser usado como alimento para o gado ou transformado em fertilizante, refere a empresa, que indica que 150 milhões de toneladas de resíduos são incinerados ou deixados a apodrecer, sem valor económico para o agricultor ou para a economia circular.

A Fibe acredita que a sua tecnologia com patente pendente pode utilizar estes resíduos para substituir até 70% da procura mundial de fibras naturais, sublinhando que as fibras de batata que desenvolveu têm propriedades semelhantes às das fibras naturais, incluindo ao nível da resistência, tendo um diâmetro semelhante ao do algodão e melhor do que as de cânhamo e linho, podendo, por isso, ser usadas para fazer desde telas pesadas a uma t-shirt leve.

«Queremos criar uma alternativa que se pareça com as fibras convencionais, que tenha o toque das fibras convencionais e que um dia custeo mesmo que essas fibras, tudo com uma poupança ambiental substancial e que promova a produção de alimentos básicos», realça Idan Gal-Shohet.

A empresa pretende compensar os agricultores por estes resíduos de batata e irá recolhê-los diretamente nos campos, desenvolvendo uma cadeia de aprovisionamento transparente que possa rastrear cada fibra até cada exploração agrícola.

[©Fibe]
A Fibe sublinha que o material que desenvolveu tem o potencial para usar 99,7% menos água, ter 82% menos emissões de carbono e zero uso da terra em comparação com o algodão.

Atualmente, a Fibe está a desenvolver um portefólio de tecnologias para a extração mais eficiente de fibras. O seu atual processo biológico, para o qual submeteu um pedido de patente, extrai fibras de resíduos agrícolas sem produtos químicos agressivos e é ajustável às necessidades específicas de uma marca.

«Ao trabalhar com uma cultura que nunca foi utilizada para têxteis, muito menos valorizada, fomos forçados a repensar desde o início os processos convencionais», justifica David Prior Hope, cofundador e CTO da Fibe. «Isso levou-nos a criar um sistema muito mais eficiente, que requer menos etapas e produz fibras de maior qualidade. A vantagem é que esse mesmo processo agora pode ser usado noutros fluxos de resíduos fibrosos e até melhora a extração de cânhamo e linho», acrescenta.

Num marco recente, a equipa de engenheiros e bioquímicos da Fibe criou o primeiro fio de resíduos da colheita de batata. O fio foi produzido usando a tecnologia convencional de fiação, o que valida a adequabilidade e performance das fibras para produção à escala comercial.