FEM: Primeiro dia em Davos

O consumo e a poupança das famílias chinesas, as exportações das empresas, os apelos da comunidade internacional à reavaliação da moeda, o iuan, e ainda os negócios na China, foram os temas que dominaram o primeiro dia do Fórum Económico Mundial, que começou no dia 25 de Janeiro na estância turística de Davos, conforme noticiado pelo Diário Económico. Entretanto, os responsáveis de Pequim, que vieram à Suíça anunciar um crescimento económico na ordem dos 10%, aproveitaram a ocasião para assegurar aos investidores uma integração suave do país na economia mundial. «Devemos melhorar o nosso sistema de Segurança Social» para permitir uma redução da poupança de precaução e «desenvolver o conceito do crédito», garantiu Cheng Siwei, vice-presidente da Assembleia Nacional Popular, o parlamento chinês. Esta abertura avançada foi bem recebida pelos analistas presentes, que sublinharam a necessidade da China passar a «consumir». É tempo de Pequim alterar «o seu modelo e fazê-lo assentar, cada vez mais, no consumo», garantiu Stephen Roach, economista-chefe no Morgan Stanley. Nesse sentido, foi secundado por Laura Tyson, reitora da London Business School, que estimou «ser necessário, a bem do equilíbrio da economia mundial, mais consumo e menos poupança da China, e menos consumo e mais poupança dos EUA e da Europa». Embora «não represente certamente mais do que 5% do PIB mundial», afirmou Min-Zhu, «a China contribui com mais de 20% do crescimento, ao passo que a Europa e o Japão contribuem menos». Acrescentando que «a China tem ainda um potencial de crescimento», o Vice-presidente do Banco da China deixou as previsões para 2006: «Entre 8,8% e 9,3%». O crescimento chinês assenta nas exportações do país, de onde se destacam os grandes níveis de consumo, mas também do investimento, dos EUA e da Europa. Quanto à possibilidade de reavaliação do iuan, que tem permitido persistentes ganhos de competitividade para os produtos “made in China”, as críticas a Pequim ecoaram num desejo que transita do último encontro. «A apreciação do iuan (que permite a integração da China na economia global) tem sido relativamente modesta», afiançou Victor Chu, responsável pelo fundo de investimento do First Eastern Investment Group. E, naquele que foi o momento mais hilariante do dia, Cheng Siwei prometeu que «o iuan será totalmente convertível… no futuro». A Índia, «por se manter relativamente fechada», como assegurou Jim O’Neal, da Goldman Sachs, foi a grande ausente nos debates. Ministros do Comércio tentam avaliar progressos À margem do encontro em Davos, os ministros do Comércio dos 20 países mais importantes, no âmbito das negociações do ciclo de desenvolvimento de Doha, vão reunir-se Sábado para tentar avaliar as conclusões que os diversos responsáveis tiraram do período de reflexão que decorreu desde a conclusão da reunião ministerial que decorreu em Dezembro em Hong Kong. Retoricamente, o Comissário europeu para o Comércio, Peter Mandelson, questionou, num discurso proferido em Berlim, se nos países membros da organização realmente existe vontade de terminar o ciclo de Doha até ao final do ano. O responsável reiterou que a UE não vai alterar a sua oferta agrícola e que agora a bola está no campo dos países que querem acesso ao mercado agrícola europeu que têm de dar o correspondente acesso ao seus mercados industriais. Caso contrário, as negociações vão acabar por ficar paralisadas. Os grandes actores do G4 (UE, EUA, Japão e Austrália) mais o Brasil e a Índia encontram-se em negociações que prometem não ser fáceis, até porque os países do G10 (os importadores agrícolas) voltaram a pedir à UE e EUA para reduzirem ainda mais os seus subsídios à agricultura. FMI deve rever o seu papel para lidar com novas crises Um fracasso na reforma do Fundo Monetário Internacional (FMI) deixará a instituição mal preparada para lidar com futuras crises financeiras, de acordo com um estudo preparado a propósito do Fórum mundial de Davos. Duas grandes reformas foram delineadas numa revisão ampla das do papel do FMI por académicos e operadores de mercados. O FMI deve adoptar um sistema cambial de referência para medir os progressos na redefinição das políticas macroeconómicas dos países que ameaçam a economia global. Por outro lado, o FMI deve abrir uma janela de liquidez de modo a poder agir incondicionalmente como financiador de último recurso para os países. Segundo os mesmos responsáveis a estrutura de voto do FMI também precisa de ser repensada para reduzir o peso da UE e dar maior espaço à Ásia. Além disso, a qualidade da vigilância do mercado de capitais pelo FMI também carece de ser melhorada, segundo os responsáveis. A análise desta possível reestruturação vai ser feita por um painel informal na presença do director-geral do Fundo, Rodrigo Rato.