FDG inicia um novo ciclo

Com um historial de 30 anos, a Fiação da Graça (FDG) encetou todavia uma segunda vida em 2003, aquando da sua aquisição pelas famílias Liagre e Hans. Hoje, a especialista em fios tintos de lã e misturas é uma referência para os clientes e um exemplo para os concorrentes. Um sucesso que advém da sua capacidade de transformar factores restritivos em vantagens competitivas: desde a selecção da nobre mas "ingrata" matéria-prima – a lã, excessivamente sensível às flutuações do mercado e da moda – até à sua localização longe do lobby dos lanifícios e numa região onde o algodão é rei. Carla Freitas, directora-geral da FDG, revela, ao Jornal Têxtil, as novas apostas da empresa que tem como mais-valias a inovação, a flexibilidade e o serviço. Jornal Têxtil (JT) – O que mudou desde 2003?Carla Freitas (CF) – A primeira grande mudança foi desde logo uma nova orientação estratégica, focalizada no mercado – ambições, restrições, riscos e oportunidades, conduzindo à realização de um processo de rejuvenescimento da empresa, quer em termos tecnológicos quer em recursos humanos.A renovação do parque de máquinas não teve como objectivo aumentar a capacidade produtiva, que actualmente ascende a 1.500 toneladas por ano, mas sim conferir novas potencialidades tecnológicas, que fossem ao encontro das expectativas do mercado.Começámos por renovar a área de bobinagem – o sector onde sentíamos que havia maiores lacunas – com novas bobinadeiras. Gradualmente, efectuamos também alguns ajustes nas secções de preparação a fim de obter composições mais nobres e fios mais finos. E, neste momento, estamos a renovar o parque da fiação propriamente dita, com contínuos de última geração, completamente automatizados e dotados dos melhores sistemas de inserção de Lycra. Deste modo, a partir de Junho, vamos dispor de 30% de equipamento renovado.Estamos também a instalar um novo ERP, que permite dotar a empresa das mais recentes tecnologias informáticas, possibilitando a curto prazo aos seus diferentes parceiros (fornecedores, clientes, agentes e outras entidades) aceder, via portal, à estrutura de dados da FDG. Além disso, temos também previsto investir numa unidade de produção de amostras e em novos equipamentos para o controlo da qualidade. JT – Qual a ordem do investimento efectuado, até ao momento, na renovação da globalidade do parque tecnológico? CF – Nos últimos 3 anos, foram investidos cerca de 3 milhões de euros. Houve também um importante investimento no capital humano, tendo a empresa para além da valorização dos seus efectivos, recrutado, nos últimos dois anos, jovens licenciados mas com alguma experiência no sector para os departamentos de logística e de I&D, que conferem à estrutura da FDG um maior potencial nestas áreas. O maior trunfo desta empresa é o seu capital humano, uma estrutura equilibrada unida em torno de um objectivo comum em que todos se sentem parte integrante de um projecto e onde as diferenças são valorizadas JT – Como se desenrolou o rejuvenescimento do efectivo?CF – Existe um estigma social para com o trabalho na indústria têxtil que dificulta o rejuvenescimento do efectivo para qualquer empresa. Com o trabalho temporário, as pessoas acabaram por se aperceberem que é uma actividade interessante e não tão mal remunerada com pensavam. Em particular, as pessoas têm encontrado na FDG uma empresa consolidada e que lhes dá algumas garantias em termos de estrutura social. Isto permitiu, nos últimos anos, a saída de pessoas com idade mais avançada e levar a cabo esse rejuvenescimento sem perder a cultura da empresa.JT – A FDG foi pioneira, em Portugal, na implementação de uma estrutura organizacional muito flexível e de resposta rápida. CF – Temos um efectivo fixo de 105 pessoas, que em período de época alta não é suficiente. Por isso, acabámos por ser pioneiros em termos de indústria, ao aplicar, há cerca de 10 anos, um horário de seis dias por semana em épocas de grande procura, que é depois compensado com um período de férias mais longo ou dias de folga, na época de menor fluxo de encomendas. Além disso, recrutamos durante essa época alta, vários trabalhadores interinos, aos quais proporcionámos acções de formação. Esta medida acabou, por ser inspiradora e por ser integrada no novo Contrato Colectivo de Trabalho. JT – A empresa tem também privilegiado a formação contínua…CF – Desde 2003, temos tomado um conjunto de medidas que inclui acções generalizadas a todos os colaboradores, desde as mais genéricas como a Higiene e Segurança no Trabalho, Gestão de Qualidade, até às mais específicas como as Técnicas de Preparação e Fiação, Matérias e processos de fiação, Redução de Custos e Eliminação de Desperdícios, etc. com o objectivo, por um lado, de consolidar competências e, por outro, de conferir conhecimentos teóricos desconhecidos para muitos trabalhadores, apesar de os aplicarem há muitos anos na prática industrial. JT – Qual é hoje a principal especialização da FDG?CF – A FDG é uma fiação especializada na produção de fios de lã e misturas, tecnologia siro-spun, com inserção de Lycra, que representa cerca de 80% da nossa produção. Esta tecnologia avançada de fiação permite reproduzir o fio convencional a partir de um processo mais competitivo.Em termos de composições, os nossos best-sellers são as gamas clássicas, com 55 poliéster/45 lã e fios cada vez mais finos, assim como 60 lã/40 poliéster, 100% lã e misturas nobres, como lã/seda/linho, e inovadoras, como lã/bambu.Mas há alguns nichos de mercado nos quais consideramos interessante intervir, como para o sector das malhas, oferecendo fios finos e com novas funcionalidades, como por exemplo total easy-care, propriedades anti-bacterianas ou termorreguladoras. JT – Que outros activos industriais integram o grupo?CF – Associada à Fiação da Graça existe uma tinturaria, a TL, localizada no sul da França, especializada no tingimento de tops e fios. Os fios tintos representam 90% da nossa produção. JT – Que papel tem a I&D na cultura da empresa?CF – Um papel fulcral. Actualmente temos dois grandes projectos com dois parceiros fundamentais, a Universidade do Minho (U.M.) e o Citeve, no âmbito dos têxteis funcionais e no desenvolvimento de processos ecológicos que também envolve a TL.Em particular, com a U.M. procurámos identificar técnicas e produtos que confiram novas funcionalidades. Com o Citeve, dedicamo-nos aos processos ecológicos e produtos bio.Além disso, procuramos quotidianamente identificar novas necessidades no mercado e ajustarmo-nos às tendências, o que tem resultado em colecções com mais-valias. Neste âmbito, lançamos para o Verão 2008 três gamas inovadoras: o Dynamic, que é um compromisso de um toque suave com um preço muito competitivo, num total easy-care, e o Daring, que é uma composição nobre, rica em lã, com um toque macio num título bastante fino.Como complemento, lançámos também um produto mais competitivo – um fio de poliéster/linho, em tonalidades pastel e com uma aparência bastante moderna e atractiva.Continuamos ainda a consolidar dois best-sellers da FDG: Natural Light, um fio com bambu, que reúne a performance da lã com as excelentes qualidades do bambu – toque, anti-bacteriano e luminosidade natural após tingimento – e Warm Roots, uma composição 100% natural (lã/linho/seda) que conjuga as diferentes propriedades das três fibras naturais.JT – Que peso tem actualmente a exportação?CF – A exportação representa 70% do nosso volume de negócios, cifrado em 9 milhões de euros. Os principais mercados da FDG são a França, Inglaterra, Espanha, Grécia e Turquia.Nesta matéria, pretendemos expandir o mercado italiano, consolidar no mercado europeu em termos de fios para tecelagem e abarcar alguns nichos de mercado na Europa, como as malhas e a decoração, onde já temos alguns projectos embrionários.JT – Como tem sido a evolução da "nova" Fiação da Graça?CF – 2004 foi um excelente ano. Em contrapartida, 2005 foi um ano crítico, não em termos de actividade mas de margens, em consequência da concorrência dos países emergentes, que criou alguma anarquia. No ano transacto houve uma retoma do mercado, graças a uma selecção natural. Para o corrente ano, estamos moderadamente optimistas na medida em que há uma consolidação da estrutura do mercado e, em termos de moda, esta é de novo favorável à lã. JT – A deslocalização é uma alternativa para a empresa?CF – A deslocalização é hoje um processo irreversível face à nova organização social e económica. O nosso sector, à semelhança de toda a fileira, é facilmente deslocalizável. No entanto, somos de opinião que haverá sempre uma actividade têxtil associada a produtos de valor acrescentado, acompanhados de um conjunto de serviços rápidos, que será mantida na Europa. Desta forma, o nosso projecto ajusta-se mais a esta última realidade e, por consequência, procuramos apostar na inovação, na flexibilidade e no serviço. Deslocalizar a FDG seria perdermos o nosso DNA. Por isso, está fora de cogitação. JT – A abolição de todas as quotas a 1 de Janeiro de 2008 não implicará uma nova anarquia? CF – A meu ver, a fase mais conturbada foi ultrapassada, mas haverá ainda alguns ajustes de mercado. Daqui para a frente, viveremos sempre um equilíbrio instável. Nenhuma empresa pode hoje dar como adquirido um mercado, porque isso resulta de um trabalho quotidiano.Acreditamos que o futuro se constrói todos os dias e estamos conscientes da vulnerabilidade do mercado. Por isso, procuramos sistematicamente incrementar o potencial da FDG e tomar as medidas mais adequadas em função disso. Temos que estar preparados mas optimistas.JT – Como se posiciona a FDG face à concorrência?CF – Procuramos assumir uma postura diferente. Em termos de mercado, tentamos identificar algumas lacunas que podemos colmatar, centrados nos três grandes eixos que já referi: inovação, flexibilidade e serviço. Por um lado, temos uma boa gama de produtos e um stock service permanente, que permite responder rapidamente ao cliente e apresentar diferentes alternativas. Por outro lado, toda a nossa estrutura organizacional permite, em parceria com o cliente, desenvolver produtos específicos. Consideramo-nos, face à concorrência uma opção equilibrada em termos de serviço, qualidade e preço.Em 2005, sentimos que, nos produtos mais básicos, houve uma redução importante das margens de lucro. Deste modo, a própria FDG foi derivando e apresentando alternativas para uma menor dependência de produtos básicos. E esse não é claramente hoje o nosso mercado.Além do mais, o próprio mercado está mais clarificado com o desaparecimento de algumas empresas que não traduziam a realidade do mesmo. Isto resulta numa fatia maior e mais apetecível para a FDG.JT – A empresa tem sabido transformar o que, à partida, poderia ser um handicap numa vantagem competitiva. Por exemplo, a localização… CF – A nossa localização deslocalizada do centro tradicional laneiro em Portugal acabou por se traduzir numa mais-valia na medida em que nos permite uma menor permeabilidade ao "ruído" externo, o que fortalece a cultura da própria empresa. JT – Os movimentos associativos têxteis têm sabido estar à altura dos desafios que se colocam hoje às empresas do sector?CF – Por razões culturais, o português não é dado a saudáveis relações de associativismo. No entanto, considero que nos últimos anos, nomeadamente na Associação Têxtil de Portugal (ATP), tem sido tomado pelos actuais dirigentes um conjunto de medidas e de estratégias que permite eliminar barreiras e promover a unificação da fileira têxtil nacional. Quanto mais forte for a associação sectorial, mais forte será a nossa capacidade negocial perante o governo, os sindicatos, etc., para a defesa do sector. E os resultados não se têm feito esperar: o novo contrato colectivo de trabalho, a concentração nas instalações do Citeve … Tudo isto é fruto de um trabalho inteligente que tem permitido promover a unificação do sector, que beneficia todos os actores da ITV. Tenho também que sublinhar o trabalho levado a cabo pela Associação Selectiva Moda em termos de comunicação e imagem, junto da opinião pública, dando uma visão mais actual e mais moderna de um sector que nos últimos anos foi sentenciado várias vezes pelos media generalistas, criando um estigma junto da opinião pública que está longe de reflectir a realidade e o dinamismo da ITV nacional.