Farfetch em contrarrelógio

O desaparecimento nos moldes em que funciona atualmente ou a entrada de novos investidores e uma possível mudança de proprietário são algumas das opções avançadas para o futuro próximo da empresa liderada por José Neves.

[©Farfetch]

O tempo pode estar a esgotar-se para a Farfecth, afirma ao WWD, que avança que, até ao Natal, a empresa terá provavelmente um novo proprietário ou vai deixar de existir tal como a conhecemos.

Num artigo publicado ontem, 13 de dezembro, o WWD afirma que «há pelo menos dois investidores que pretendem intervir e resgatar a Farfetch», avançando com o nome de Carmen Busquets como um desses investidores. O outro é ainda desconhecido, mas será uma empresa.

Carmen Busquets é conhecida pelos seus investimentos em fases iniciais em marcas com forte componente tecnológica. A investidora pretende conseguir «entre 500 e 1.000 milhões de dólares para resgatar a empresa e propôs um plano de cinco anos com o objetivo de impulsionar um crescimento e rentabilidade rápidos», indica a WWD.

Carmen Busquets é mais conhecida como investidora cofundadora maioritária da Net-a-porter e como defensora da sustentabilidade. Já investiu em start-ups nos EUA e na Grã-Bretanha, incluindo na Farfetch, Moda Operandi, Flowerbx, Tagwalk, Cult Beauty e a marca de cosméticos Dr Jackson’s.

«Fundamentalmente, acredito no sector do mercado de moda e tecnologia e acredito que a Farfetch continua a ser a empresa líder no sector. Impulsionou mudanças fundamentais na distribuição de moda mundialmente nos últimos 15 anos», afirma ao WWD.

«A indústria é cíclica e a Farfetch está a navegar num ambiente complexo, dificultado pela complexidade da gestão de múltiplas transações corporativas. A Farfetch continua a ser um ativo estratégico e, dado o colapso da confiança do mercado e das avaliações do sector, há uma série de ligações estratégicas e oportunidades de consolidação para a Farfetch como plataforma líder de comércio eletrónico para o século XXI», acrescenta.

Caso o resgate não se concretize por parte de nenhum dos investidores, a Farfetch tem já administradores de insolvência no Reino Unido, onde está sediada. Nesse caso, os ativos da Farfetch – incluindo a Browns, New Guards Group, Stadium Goods, a participação de 200 milhões de dólares da Farfetch na Neiman Marcus e a sua a Platform Solutions IP – deverão ser vendidos para pagar os principais detentores de dívida, que são principalmente investidores institucionais.

Uma fonte próxima da Farfetch refere, citada pelo WWD, que aconteça o que acontecer no curto prazo, tudo continuará como sempre para os fornecedores, clientes e parceiros da empresa.

Dois dos maiores parceiros comerciais da Farfetch, a Compagnie Financière Richemont e o Alibaba, mantêm distância e não estão interessados ​​em resgatar a empresa. O Richemont estava na fase final de um acordo para vender uma participação de 47,5% na Yoox Net-a-porter à Farfetch, mas já disse que não investirá na empresa. Já o Alibaba estará disposto a investir dinheiro, mas não quer comprar a Farfetch no imediato.

Tecnologia é maior ativo

Um investidor que não detém ações da Farfetch e que falou sob condição de anonimato considera que, independentemente do que possa acontecer, a Farfetch precisa de encontrar uma forma de preservar a sua experiência tecnológica, pelo que deveria construir um novo negócio mais pequeno em torno da sua propriedade intelectual tecnológica, «sem nunca mais se envolver em moda, branding ou marketing».

[©Farfetch]
Muitos dizem que a experiência tecnológica continua a ser a superpotência da Farfetch, com o fundador José Neves e a equipa da Farfetch a continuarem a ajudar as marcas a criar estratégias de retalho digital e as experiências dos clientes e das lojas.

O presidente de moda da Chanel, Bruno Pavlovsky, declarou ao WWD na semana passada que, embora a marca francesa já não detenha uma participação na Farfetch, os dois grupos ainda trabalham juntos.

«Continuamos a colaborar, a fazer brainstorming juntos e a conversar sobre o futuro do retalho e da nossa relação com o consumidor. Estamos a falar de muitas iniciativas diferentes para alimentar o futuro das nossas boutiques, como ferramentas de inteligência artwificial, para compreender melhor as necessidades do cliente. Podemos acabar por não usar essas ferramentas, mas queremos entender o que elas significam», explicou Bruno Pavlovsky.

Apesar do desejo de unir o mundo do luxo online, o modelo de negócio da Farfech sempre suscitou suspeitas entre investidores e membros da indústria. Mas José Neves conseguiu mudar a situação antes, destaca o WWD, dando como exemplos a publicação de resultados trimestrais promissores ou o anúncio de uma nova parceria com um grande nome do luxo.

José Neves, que é presidente e CEO da empresa e, realça o WWD, «foi, ao mesmo tempo, o arquiteto da grande visão e da tecnologia da Farfetch e um líder de claque implacável»

Em agosto, depois da empresa ter abandonado a aposta nos produtos de beleza e ter dito que eliminou 150 milhões de dólares de custos fixos planeados para este ano, ao longo de alguns meses, José Neves manteve-se, como sempre, otimista. «Esta empresa foi construída do zero, do nada, e foi lançada em 2008, no meio de uma crise financeira global», afirmou, na altura, ao WWD. «Recebemos o nosso primeiro dinheiro de capital de risco em 2010, pelo que os primeiros três anos foram apenas com o meu dinheiro, que era não ter dinheiro. Por isso, temos realmente esse ADN de resiliência e frugalidade e desenvolvemos este negócio dessas origens humildes, muito humildes, para ser uma plataforma global presente em todos os grandes mercados de bens de luxo do mundo. O Norte desta empresa permanece absolutamente intacto: ser a plataforma mundial do luxo», acrescentou.

Mesmo assim, a empresa, que tem vindo a registar prejuízos, viu a sua avaliação continuar a diminuir, com as ações – apesar de terem recuperado na quarta-feira, com uma subida de 18,2%, para cerca de 0,74 dólares – a terem perdido mais de 41% do seu valor só na última semana, estando longe do máximo de 52 semanas de 8,02 dólares.

No início desta semana, a Moody’s Investors Service baixou a classificação da Farfetch de “B3” para “Caa2”, e colocou a Farfetch em revisão para uma nova descida.

Segundo fontes do setor, o negócio da YNAP, que deveria ser fechado antes do final de 2023, não será concretizado se a empresa entrar em administração, embora ainda possa ser ressuscitado se um novo proprietário assumir o controlo.

Tem ainda sido noticiado que a Farfetch tem também estado em conversações com potenciais investidores, incluindo o Frasers Group, de Mike Ashley, sobre a Browns.