Exigência aumenta

Na área da defesa e da proteção de bombeiros, os requisitos para os equipamentos de proteção individual estão a mudar, incluindo, cada vez mais, critérios relacionados com a funcionalidade, mas também preocupações com a sustentabilidade.

Jonathan McKendry, Lucy Westgarth, Mandeep Soor e Rick Van Es

Sanjiv Bhaskar, vice-presidente de investigação na consultora americana Frost & Sullivan, sublinhou, na cimeira da PCIAW, que a sustentabilidade é a tendência mais marcante na área dos equipamentos de proteção individual (EPIs) e algo que vai ditar a competitividade das empresas.

Este mercado, de resto, depende menos dos ciclos económicos e mais da legislação e implementação de novas regulamentações, da taxa de emprego e da força de trabalho. «O número de trabalhadores na Europa ou na América do Norte é menor do que na China ou na Índia. Mas ainda assim, o mercado de EPIs é maior na América do Norte e na Europa e muito mais pequeno na China, porque dificilmente há uma aplicação efetiva da legislação nesses países», explicou.

Sanjiv Bhaskar

As perspetivas da Frost & Sullivan apontam para que haja uma evolução no tipo de produto procurado no mercado de vestuário de trabalho e uniformes na Europa Ocidental, sendo que o vestuário de trabalho deverá ter um aumento da quota de mercado de 67,4% em 2022 para 67,6% em 2027, enquanto o vestuário corporativo (de 26,3% em 2022 para 26,2% em 2027) e os uniformes (de 6,3% para 6,2%) deverão registar uma ligeira redução.

O cenário é semelhante na América do Norte (com o vestuário de trabalho a passar de 61,7% em 2022 para 62% em 2027).

Como principais tendências a marcar o mercado dos EPIs em 2023, Sanjiv Bhaskar destacou, além da sustentabilidade, o reshoring, a conectividade e os produtos direcionados para mulheres.

«Temos de prestar atenção à demografia, tem de fazer parte do plano de negócios para quem quer ser bem sucedido», realçou Sanjiv Bhaskar, acrescentando ainda como necessidade «o investimento em sustentabilidade – se não o fizerem hoje, amanhã será demasiado tarde».

Na área militar, Jonathan McKendry, diretor de desenvolvimento de negócio do grupo Cooneen, produtor europeu de coletes à prova de bala e de uniformes de combate, revelou que a pandemia mostrou a necessidade de «não depender apenas de um fornecedor num determinado país», pelo que a empresa passou a ter produtores na Ásia, no Médio Oriente e na Irlanda do Norte, onde está sediada, de forma a ter «uma cadeia de aprovisionamento resistente para poder fazer face às diferentes questões geopolíticas que se colocam atualmente».

Esta distribuição geográfica é igualmente importante para a empresa ser capaz de dar diferentes respostas face a requisitos distintos. «Por exemplo, em França, as regulamentações em termos de compras são muito claras e sustentam que 85% das compras têm de ser feitas através de empresas francesas. Se olharmos para o lado britânico, é o preço», exemplificou.

Outra tendência prende-se com a durabilidade, que é algo que Jonathan McKendry acredita «que tem de ser avaliado» e contabilizado na altura das entidades governamentais fazerem as suas compras, em vez apenas do preço. «Há tecidos hoje que duram mais de 100 lavagens – podemos mostrar que isso permite poupar. Infelizmente ainda não é tido em conta na maior parte dos casos. Mas é algo que está a mudar lentamente», apontou.

Em termos de produto, «houve bastantes mudanças nos últimos anos», indicou Lucy Westgarth, responsável de governança social e ambiental na Leidos Europe, passando dos fardamentos «muito básicos» que eram comuns durante a Guerra do Golfo para sistemas multicamada, com diferentes designs e padrões, assim como materiais inovadores. «Diria definitivamente que o que se vê na Europa, e no mundo, é uma abordagem mais modular», acrescentou.

Há ainda uma tendência para a produção de vestuário militar adaptado ao tipo de corpo, nomeadamente em termos de género, mas não só. «Acredito que uma força de trabalho mais diversa é uma força de trabalho mais ágil para enfrentar os desafios da defesa, mas também para responder à sustentabilidade», resumiu Lucy Westgarth.

As questões ambientais, contudo, são mais difíceis de responder, como sublinhou Jonathan McKendry, particularmente no caso das armaduras corporais. «Há muitas placas duras e outras mais leves, pelo que se torna muito difícil a circularidade de ambas. Mas estamos a fazer muito trabalho nesse sentido», mencionou.

No caso da Phantomleaf, que se especializou na produção de vestuário para forças especiais, a produção é feita totalmente na Europa por uma questão «da confidencialidade ser o principal requisito», justificou Rick Van Es, diretor-geral da empresa alemã, que destacou que «na área em que trabalhamos, a proteção tem definitivamente prioridade face à sustentabilidade», embora também a Phantomleaf esteja a dar passos nesse sentido. «Tem tudo a ver com o que conseguimos fazer e como lidamos com os nossos processos. Se fizermos as coisas com o estado da arte, então é a forma mais sustentável que conseguimos fazer. É possível incorporar um pouco de fibra reciclada ou algo do género. Mas realmente tornar este vestuário circular, ter carbono zero, isso não é possível neste momento, as autoridades têm de assegurar a segurança das pessoas», considera Rick Van Es.

E aí a inteligência artificial está a exigir novos desenvolvimentos, como mostra o recente conflito na Ucrânia, em que drones são capazes de reconhecer pessoas e equipamentos do inimigo. «Estamos a tentar encontrar tecnologias para proteger os soldados e que permitam que a pessoa não seja reconhecida por inteligência artificial», desvendou o diretor-geral da Phantomleaf.

No caso dos bombeiros, a preocupação é, além da segurança, a saúde de quem combate incêndios.

Tommy Bækgaard Kjær, presidente da comissão de saúde dos bombeiros da International Association of Fire and Rescue Services (CTIF), realçou que a absorção pela pele de químicos libertados nos incêndios estão a prejudicar a saúde dos bombeiros e que as lavagens convencionais não são suficientes para limpar verdadeiramente os equipamentos de proteção dos bombeiros. A Agência Internacional de Investigação do Cancro da Organização Mundial de Saúde classificou a exposição profissional dos bombeiros como «carcinogénica», depois de um estudo concluído no ano passado, que mostrou que as condições se têm agravado e tornado mais prejudiciais à saúde. «Provavelmente a principal razão tem a ver com o facto do fumo tóxico estar pior», devido aos plásticos que integram os elementos construtivos num edifício ou até mesmo nos incêndios florestais. «5% dos bombeiros que combatem este tipo de incêndio desenvolvem cancro», indicou Tommy Bækgaard Kjær.

Os incêndios libertam agora um conjunto de químicos complexos diferentes dependendo do que está a arder, como referiu Abby Hannah, diretora de desenvolvimento de estratégia e negócio internacional da Stedfast, uma empresa fornecedora de tecidos laminados para vestuário de proteção. «Os carcinogéneos entram no corpo por inalação, absorção e ingestão», enumerou. No caso da inalação, as máscaras têm proporcionado uma maior proteção e têm sido desenvolvidas tecnologias para reduzir a absorção pela pele, nomeadamente pela cabeça, pescoço e maxilar, zonas habitualmente menos protegidas.

Tommy Bækgaard Kjær, Abby Hannah e Thomas Verminck

Contudo, a lavagem do vestuário mostrou-se ineficaz a remover todas as partículas nocivas, criando um efeito cumulativo de partículas, que acabam por ser absorvidas pela pele.

O Decontex Group desenvolveu uma tecnologia com CO2 que permite a descontaminação de têxteis técnicos, incluindo dos equipamentos usados pelos bombeiros no combate a incêndios, capaz de eliminar as partículas nocivas de químicos das membranas. «A estrutura da membrana foi desenhada para impedir a passagem de água, mas o gás de CO2 passa e permite limpar 99,9% da membrana. E não tem qualquer efeito na integridade do têxtil», revelou Thomas Verminck, CEO do Decontex Group.

A proteção terá igualmente de ser feita com uniformes adaptados a diferentes corpos, que assegurem um melhor ajuste. «Posso garantir-vos que o primeiro produtor de vestuário de bombeiro para mulher vai ser rico. Precisamos disso», afirmou Tommy Bækgaard Kjær.