EUA procuram sourcing de proximidade

A política de regresso de produção aos EUA deve prosseguir, mas apesar de estarem a produzir mais perto de casa, as marcas americanas ainda recorrem, sobretudo, a outros mercados, incluindo a produtores chineses sediados noutros países.

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De acordo com o Reshoring Index 2024 da consultora Kearney, o aprovisionamento de produtos mais perto de casa é um objetivo de muitas marcas americanas, mas o caminho para lá chegar é tudo menos linear, refere um artigo do Sourcing Journal.

No centro desta tendência está o afastamento dos EUA da China, que foi substituída pelo México, que assumiu o lugar cimeiro entre os principais parceiros comerciais da nação presidida por Joe Biden este ano.

A Kearney concluiu que as importações dos EUA a partir da China caíram 20%, ou 105 mil milhões de dólares, em 2023. As tensões comerciais entre os EUA e o país de Xi Jinping persistem há vários anos, mas a escalada da retórica entre os governos dos dois países até às eleições americanas, agendadas para novembro, estão a provocar ainda mais incerteza sobre o futuro da relação. Como tal, as empresas americanas estão menos dispostas a depender do sourcing na China do que no passado.

A hesitação tem-se alastrado igualmente aos países vizinhos da China, mostram os dados da Kearney: as importações americanas de países e regiões próximas de custos mais baixos, incluindo Taiwan, Malásia, Índia, Vietname, Tailândia, Indonésia, Singapura, Filipinas, Bangladesh, Paquistão, Hong Kong, Sri Lanka e Camboja, baixaram em 143 mil milhões de dólares em 2023.

Segundo Shay Luo, autora do estudo e partner de operações estratégicas na Kearney, o abrandamento da cadeia de aprovisionamento que procedeu a pandemia causou uma forte impressão nas empresas americanas e, provavelmente, influenciou a sua nova filosofia de sourcing.

O covid destacou os «benefícios não relacionados com o custo» de fazer negócios mais perto do mercado final e questões como agilidade e reatividade tornaram-se mais críticos. «A maior parte deles só olhou para os custos nos últimos 30 anos», mas depender dos mercados externos low-cost durante uma altura difícil em termos de produção e logística custou milhões em vendas perdidas.

Fugir da China para outros mercados asiáticos «não vai resolver o problema de enviar produtos mais rapidamente para o destino» nem vai contribuir para a resiliência da cadeia de aprovisionamento», aponta Shay Luo. Daí a preferência pelo nearshoring e o regresso à produção local.

Made in the USA

O sector produtivo americano recuperou alguma da quota perdida pelos mercados asiáticos, apesar da produção bruta total ter diminuído ligeiramente de 7,25 biliões de dólares em 2022 para 7,24 biliões de dólares em 2023.

Os números do Gabinete de Análise Económica, referidos no relatório da Kearney, mostram que o consumo pessoal aumentou apenas 3% em 2023, de 5,99 biliões de dólares em 2022 para 6,19 biliões de dólares em 2023. Entre 2021 e 2022, o consumo pessoal subiu 9%, sugerindo um abrandamento recente no consumo de bens e serviços no geral.

Contudo, o Reshoring Index está no nível mais alto da última década e duplicou o nível em 2023 face a 2019 – o ponto alto anterior. Foi ainda o segundo ano consecutivo de movimento relativo para os EUA, sublinha o relatório da Kearney.

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«A maior parte das empresas que estão a transferir a produção para os EUA são altamente automatizadas e estão a fazer a mudança para ficarem mais perto da inovação ou da tecnologia», realça Shay Luo. A autora do estudo acredita ser improvável que a produção de têxteis convencionais ou de vestuário regresse aos EUA em grandes quantidades, devido à escassez de mão de obra qualificada, mas tecnologias como a impressão 3D, a tricotagem 3D e outras de nova geração poderão criar grandes oportunidades no sector.

Países como o México e o Canadá estão, entretanto, a ganhar importância. O México tornou-se o maior exportador para os EUA pela primeira vez desde 2013, capitalizando vantagens como mão de obra acessível e abundante, estando igualmente a investir fortemente em infraestruturas para apoiar a indústria – recentemente foi anunciada a construção de 100 novos parques industriais. Há também cada vez mais empresas asiáticas, especialmente chinesas, a comprar instalações no México. Embora a intenção das empresas americanas seja afastar-se da China, «muitas das mudanças na produção mundial são impulsionadas por empresas chinesas», refere Shay Luo. Uma tendência que tem acelerado e se tornado mais evidente. «Por isso, as empresas não estão realmente a afastar-se dos chineses – ainda estão a aproveitar o seu know-how na produção e também o seu capital para encontrar um destino melhor», resume.

No caso do Canadá, o estudo da Kearney refere que o potencial do país «como localização para algumas importações asiáticas se moverem para aí aumentou, de alguma forma, inesperadamente». Em volume, as exportações canadianas para os EUA cresceram 13 mil milhões de dólares no ano passado. Embora os custos laborais sejam comparativamente elevados, o Canadá, tal como os EUA, está focado em implementar tecnologias avançadas para os sectores produtivos. «A captação de mercado do Canadá é muito diferente do tipo de indústria que o México está a captar», explica a autora do relatório.

Sourcing mundial

Embora a China possa estar a perder título de “Fábrica do Mundo”, está longe de perder a sua influência. «As empresas chinesas ainda estão muito presentes nas importações dos EUA e estão a adaptar-se rapidamente a um mercado global impactado por novos desenvolvimentos de reshoring e nearshoring», sustenta o relatório.

Países como o Vietname, a Índia e a Tailândia estão a importar mais da China, apesar das importações dos EUA do Império do Meio terem diminuído. E embora esses países também tenham perdido algum terreno no que diz respeito aos negócios dos EUA, «as importações dos principais países asiáticos para os EUA são quase diretamente proporcionais às suas importações da China Continental», indica a Kearney no estudo.

Mesmo que pareça que a China está a ser substituída por estes outros intervenientes, «pelo menos em alguns casos, eles tornaram-se uma escala na viagem de produtos produzidos na China Continental para a América».

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Uma estratégia semelhante pode estar a tomar forma em locais de nearshoring dos EUA. «Análises adicionais aos dados comerciais indicam uma mudança estratégica entre os produtores chineses, que estão a deixar de fazer produtos finais internamente e estão a aproveitar os centros de produção internacionais no Sudeste Asiático e, cada vez mais, no México», salienta o relatório.

Shay Luo acredita que as empresas chinesas vão, provavelmente, continuar a investir no México e na América Central para capitalizar o apetite pelo nearshoring. Algumas marcas norte-americanas estão mesmo a pressionar os seus fornecedores chineses para que levem os seus conhecimentos, inputs, tecnologia e capital para novos locais mais próximos e menos desenvolvidos.

«A globalização ainda existe», afirma a autora. Embora o interesse no reshoring e no nearshoring esteja, sem dúvida, a aumentar, a verticalização das cadeias de aprovisionamento demora tempo. É provável que a cadeia de valor moderna veja mais países a trabalhar em diferentes partes de um único produto, em vez de um único país, como a China, a assumir o controlo do processo completo.

«Os países podem estar ligados de uma forma diferente, com um formato diferente para a cadeia de valor. Todos têm uma contribuição muito especializada que podem dar», conclui Shay Luo.