Etiópia diversifica exportações após suspensão do AGOA

Com o acordo comercial dos EUA suspenso desde 2022, o país africano intensificou a diversificação dos seus mercados de exportação, apostando na UE, África e países do BRICS para reduzir a dependência dos norte-americanos.

[©Ethiopian Industrial Parks Development Corporation]

A Etiópia acelerou a procura de mercados alternativos para as suas exportações, em particular no setor têxtil e do vestuário, na sequência da suspensão do acesso ao AGOA (African Growth and Opportunity Act, que pode ser traduzido por Lei de Crescimento e Oportunidades para África), que expirou a 30 de setembro de 2025, após já ter sido suspensa em 2022 devido aos conflitos civis no país, avança o Just Style.

Segundo Feseha Yetagessu, CEO da Ethiopian Industrial Parks Development Corporation, o país conseguiu mitigar o impacto da suspensão do acordo através do investimento estrangeiro, nomeadamente em parques industriais apoiados pelo governo, centrados na produção de têxteis e vestuário.

O CEO da Ethiopian Industrial Parks Development Corporation considera ainda que o atual contexto do comércio internacional reduziu a relevância do AGOA. «Do ponto de vista técnico da política comercial, o novo regime tarifário da administração Trump tornou o AGOA praticamente irrelevante, porque o principal benefício do programa – o acesso a isenção de impostos – foi efetivamente eliminado pelas tarifas recíprocas agora aplicadas a praticamente todos os parceiros, incluindo os beneficiários do AGOA», sublinha Feseha Yetagessu.

Com os EUA fora do horizonte imediato, o governo etíope e o setor do vestuário têm reforçado a aposta no mercado europeu, beneficiando da iniciativa Everything But Arms (EBA), que concede acesso isento de direitos aduaneiros ao mercado da UE. Dados da Comissão Europeia indicam que, em 2024, as exportações etíopes de vestuário para a UE atingiram 98 milhões de euros, enquanto os têxteis geraram 24 milhões de euros.

Alargar horizontes

Paralelamente, a Etiópia tem procurado fortalecer a sua estratégia externa através da adesão ao BRICS, grupo que se expandiu para incluir também o Egito, a Indonésia, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, e da participação na Zona de Comércio Livre Continental Africana (AfCFTA), que visa criar um mercado integrado entre 55 países africanos.

De acordo com dados da ONU, as receitas de exportação caíram de 180 milhões de dólares em 2022 para 120 milhões de dólares em 2023, embora o governo etíope estime um valor mais elevado, na ordem dos 150 milhões de dólares, nesse ano, após a perda do mercado norte-americano. Em 2024, as vendas externas recuperaram para 188 milhões de dólares, segundo o Ministério do Comércio e Integração Regional, e as autoridades estimaram que o valor ultrapasse os 200 milhões de dólares em 2025, impulsionado sobretudo pelas vendas ao abrigo da EBA e da AfCFTA.

Com a experiência da Etiópia em relação às barreiras ao mercado dos EUA, Feseha Yetagessu afirma que há lições a aprender para outros países africanos produtores de vestuário. «Primeiro, nunca construam uma estratégia de exportação em torno de um único regime de preferências ou mercado e certifiquem-se de que os seus parques industriais sejam projetados como plataformas diversificadas, não enclaves monossetoriais. Isso ajuda a distribuir o risco, criando mais ligações com a economia doméstica, o que facilita a absorção de choques externos», alerta.

O impacto também se fez sentir a nível individual. Eyob Tadesse, antigo gestor de produção no Parque Industrial de Hawassa, foi despedido após a suspensão do AGOA e acabou por criar a sua própria fábrica no norte do país. «Há uma lição para a Etiópia em todas estas experiências, que é a de que não podemos depender de um único parceiro cuja relação é condicional e não nos pode sustentar a longo prazo. Encontrar uma solução local para o nosso objetivo a longo prazo é o que precisamos e é algo que aspiro alcançar», salienta.