Empresas portuguesas de têxteis e vestuário têm preocupações sustentáveis

O primeiro relatório de sustentabilidade da ITV, apresentado pelo projeto be@t, revela que as empresas nacionais estão a integrar mais materiais reciclados ou orgânicos, a gastar menos energia e a procurar medir o consumo de água e as emissões de CO2.

O relatório, que está disponível no site do be@t e foi apresentado ontem num webinar, compila e analisa a informação resultante das respostas de 77 empresas, distribuídas por tipologia de processos, sobre indicadores de sustentabilidade nos anos de 2019 a 2022. «Foi um desafio», sublinhou Assunção Mesquita, do CITEVE, dando conta das dificuldades de compilar informação sobre tantos indicadores e de quatro anos.

Este relatório pretende ser um primeiro retrato da indústria portuguesa e as conclusões acabam por ser positivas, embora com uma grande margem de progressão nas diferentes áreas analisadas.

No que diz respeito às matérias-primas, de acordo com as conclusões, em 2022, foram usadas mais de 17% de matérias-primas recicladas e quase 9% de materiais orgânicos/biológicos na produção, numa tendência que se tem vindo a acentuar. «Ao longo dos últimos quatro anos, as empresas têm vindo a integrar uma maior quantidade de materiais reciclados e orgânicos/biológicos nos seus produtos, fruto da crescente preocupação do sector em aumentar a sustentabilidade e circularidade dos seus produtos e materiais», destaca o relatório.

Por tipologia de processo, são as empresas de corte e confeção, de tricotagem e tecelagem, e de ultimação as que mais integram materiais orgânicos/biológicos (mais de 24%), sendo que é também no corte e confeção que se verifica uma maior integração de materiais reciclados (14%), juntamente com as empresas classificadas na categoria fiação, tecelagem, tinturaria e acabamentos.

O relatório ressalva, contudo, que «face à elevada quantidade de produtos fabricados, que ultrapassou os 60 milhões toneladas em 2022, o peso reduzido de materiais reciclados e orgânicos/biológicos utilizados e de embalagens reaproveitadas demonstra a necessidade urgente do sector em criar estratégias de circularidade que permitam aumentar significativamente a valorização dos materiais e das embalagens».

O consumo de combustíveis renováveis e não renováveis dentro das organizações também tem vindo a diminuir, perfazendo 7.856.463 MWh em 2022, sendo que se observa uma diminuição mais acentuada em 2022, que no relatório – que foi produzido pelo CITEVE e pela PwC Portugal – é atribuído a diversos fatores, incluindo o «aumento dos esforços das empresas em reduzir o seu consumo de energia e em optar por soluções renováveis».

Ao nível da água, o relatório dá conta de um aumento de quase 15% do consumo de água reportado durante os quatro anos, que atingiu 3.491.917 m3 em 2022, que pode ser justificado, parcialmente, pelos «esforços [das empresas] para conseguirem quantificar e monitorizar a quantidade de água que consomem. Entre 2019 e 2022, a amostra considerada aumentou 16%».

Os mesmos esforços têm sido feitos ao nível das emissões de dióxido de carbono. «Entre 2019 e 2022, houve um aumento de 9% no número de empresas que quantificam as suas emissões de Âmbitos 1 e 2. Simultaneamente, em 2022, observa-se uma redução, face ao ano anterior, das emissões de Âmbito 1, para 127,4 mil tCO2e, e de Âmbito 2, para 75,8 mil tCO2e. As diminuições mais acentuadas das emissões em 2019 e 2020 deve-se principalmente ao facto de existirem menos empresas a quantificarem as suas emissões, com o acréscimo do período de pandemia que se viveu em 2020 e que abrandou a produção neste sector», indica o relatório.

Já em termos de produção de resíduos – a maior parte dos quais correspondem a fibras têxteis e a embalagens de papel e cartão –, a tendência é claramente decrescente, com os dados fornecidos pelas empresas da amostra a darem conta de uma redução de 13%, para menos de 16 mil toneladas em 2022, sendo que destas, 5,5 mil toneladas são fibras têxteis e 2,7 mil toneladas de resíduos não foram valorizadas. «Estas variações, aliadas ao aumento da percentagem de materiais reciclados utilizados nos produtos, demostram uma preocupação crescente do setor em mitigar o seu impacte no ambiente e em apostar na valorização dos resíduos», reforça o relatório.

Sustentabilidade social e ética também melhora

O relatório contempla ainda indicadores relativos à sustentabilidade social e ética, quer com os trabalhadores, quer com clientes e fornecedores.

«De um total de 77 empresas, uma amostra de 67 afirma comprometer-se no fornecimento de boas condições no local de trabalho. Ao longo dos quatro anos, as empresas adotaram cada vez mais práticas para boas condições de trabalho», indica o relatório, acrescentando que 67% das empresas reportaram possuir pelo menos uma prática, com preponderância para as práticas de bom ambiente de trabalho (26%), fornecimento de material necessário à função de trabalho (26%), pausas estratégicas para descanso mental/físico (20%) e ergonomia no espaço de trabalho (18%).

No âmbito da ética, a percentagem de compromisso de empresas da indústria têxtil e de vestuário no período entre 2019 e 2022 é «elevada» e tem aumentado, passando de 81% em 2019 para 83% em 2022, «o que evidencia o compromisso por partes das mesmas com a integridade, a governança transparente e as práticas empresariais responsáveis nos seus Códigos de Ética e Conduta», descreve o documento.

A maior parte das empresas participantes (82%) também revelou ter algum tipo de certificação, com destaque para as certificações ISO 9001(78%), STeP (31%) e ISO 14001 (29%), assim como NP 4457 (9%), Bluesign (5%), SA 8000 (7%) e NP 4552 (4%).

Este primeiro relatório deverá ter um trabalho de continuidade anualmente, com novas edições relativas a 2023 e a 2024, para o qual as empresas da indústria têxtil e vestuário poderão contribuir, com o fornecimento de informação relativa aos diferentes indicadores.

As empresas participantes têm ainda acesso a uma plataforma desenvolvida pela Wiimer, onde introduzem os dados e onde podem depois aceder à sua informação compilada, em forma de gráfico, e até fazer comparações com as empresas da mesma área de atividade.

«É uma ferramenta de benchmarking que cada uma das empresas que estiveram envolvidas neste estudo possam, elas próprias, fazer comparações entre elas e com a média das empresas que estão nesta amostra», resumiu António Braz Costa, diretor-geral do CITEVE.