Emissões da moda voltam a subir

Apesar dos esforços de descarbonização, as emissões da indústria mundial da moda aumentaram pelo segundo ano consecutivo, pressionadas sobretudo pelo crescimento do consumo de fibras e, em particular, do poliéster de origem fóssil.

[©Unsplash-Andreas Gucklhorn]

Segundo o estudo “Taking Stock of Progress Against the Roadmap to Net Zero 2026”, publicado pelo Apparel Impact Institute (Aii), as emissões da cadeia de valor global de vestuário cresceram 6,3% entre 2023 e 2024.

A evolução é atribuída principalmente ao crescimento do consumo de fibras, com destaque para o poliéster à base de petróleo. À medida que a produção e, consequentemente, a pegada carbónica do setor continuam a aumentar, o Aii considera que a descarbonização energética pode permitir reduzir as emissões operacionais e, simultaneamente, reforçar a resiliência das empresas, mesmo perante a expansão do consumo de matérias-primas.

Renováveis avançam

Apesar do aumento global das emissões, o relatório identifica progressos na transição energética de marcas e fabricantes. Em 2025, cerca de 33% da energia utilizada pelas principais fábricas que produzem para a Puma teve origem em fontes renováveis, ultrapassando a meta de 25% definida pela empresa para esse ano.

A Shenzhou International Group Holdings, fabricante que fornece, entre outras marcas, a Uniqlo, revelou igualmente que a eletricidade renovável representou mais de 60% do seu consumo total de eletricidade em 2024. Dez fábricas do grupo operavam já exclusivamente com eletricidade renovável e, entre 2020 e 2024, a empresa reduziu em 16,8% as emissões de âmbito 1 e 2.

Também o Grupo H&M acelerou a eliminação do carvão na cadeia de aprovisionamento. Entre 2022 e 2025, o número de fábricas fornecedoras dos níveis Tier 1, Tier 2 e Tier 3 que utilizavam caldeiras a carvão nas próprias instalações caiu de 118 para apenas 10.

Os exemplos demonstram, segundo o Aii, que existem tecnologias e intervenções capazes de reduzir a intensidade carbónica da produção. O desafio passa agora por levá-las a uma escala significativamente maior.

Financiamento trava fornecedores

Uma parte substancial das emissões do setor está concentrada nos fornecedores, precisamente onde persistem alguns dos maiores obstáculos à descarbonização.

O Aii identifica dificuldades de acesso ao capital necessário para investir em projetos de redução de emissões, além de limitações tecnológicas, diferenças na disponibilidade de energia renovável entre países e insuficiências das infraestruturas das redes elétricas.

A organização defende, por isso, uma maior partilha do esforço financeiro e operacional entre marcas, instituições financeiras, decisores políticos, parceiros de implementação e fornecedores. Entre as soluções estão um acesso mais fácil ao financiamento climático e compromissos de compra mais estáveis e de maior duração por parte das marcas.

A descarbonização deve igualmente passar das metas corporativas para projetos concretos ao nível das unidades industriais. O Aii destaca a eletrificação dos processos térmicos, a adoção de eletricidade renovável e medidas de eficiência energética, com prioridade para instalações e fases de produção de maior impacto carbónico, nomeadamente os processos intensivos em energia e calor no Tier 2.

Da experiência à escala

O relatório considera igualmente necessário transformar intervenções climáticas já testadas em práticas correntes na indústria, em vez de permanecerem como projetos isolados. Para isso, recomenda a partilha de resultados verificados e de conhecimento adquirido durante a implementação, juntamente com uma monitorização consistente dos resultados.

A expansão da produção não pode, contudo, ser ignorada. O Aii defende reduções absolutas das emissões e considera que os modelos de negócio circulares devem avançar paralelamente à rápida descarbonização da produção, incluindo melhorias nos materiais, na eficiência energética e na intensidade carbónica das operações.

«As energias renováveis e a eletrificação são componentes cruciais da ação climática global; o progresso da indústria da moda na expansão das tecnologias de eficiência e eletrificação e na mobilização mais eficaz de capital pode oferecer um roteiro para outras indústrias», afirma Kurt Kipka, Chief Impact Officer do Apparel Impact Institute.

Com a COP31 no horizonte, Kipka espera que empresas e governos reconheçam «a importância das soluções de energia limpa e calor limpo para apoiar a descarbonização do setor».