E-têxteis aumentam presença

Inicialmente focados em cobertores aquecidos, os têxteis eletrónicos, ou e-têxteis, estão a ser aplicados cada vez mais em diferentes áreas, da monitorização de astronautas no espaço ao vestuário e solas sensorizadas para o cidadão comum.

[©CSA-NASA]

Os e-têxteis avançaram consistentemente desde os cobertores aquecidos comercializados nos anos 60 e 70, incluindo agora camisolas inteligentes que monitorizam astronautas a bordo da Estação Espacial Internacional.

«Contudo, o caminho nem sempre foi fácil para os te-têxteis e as empresas na área têm ainda de encontrar uma aplicação que corresponda ao sucesso dos têxteis aquecidos», aponta Tess Skyrme, analista sénior de tecnologia na IDTechEx.

O aquecimento é a aplicação mais bem sucedida dos e-têxteis, representando mais de 80% do valor do mercado em 2023. Dos motociclistas a quem trabalha ao ar livre, até aos praticantes de desportos de inverno, o vestuário aquecido tem bastante procura. Os cobertores aquecidos também são populares há várias décadas e o interesse tem aumentado devido ao custo crescente da energia.

Segundo a IDTechEx, o sucesso do aquecimento como aplicação de e-têxteis deve-se à capacidade da tecnologia providenciar aquecimento localizado de uma forma confortável. Em comparação com alternativas como aquecer a sala toda, que é onerosa, a aquecedores de mãos, que abrangem apenas uma pequena área, ou simplesmente usar mais roupa, que se torna desconfortável pelo volume, os têxteis aquecidos juntam as forças dos têxteis e da eletrónica.

Apesar do fornecimento de energia continue a ser um problema nesta aplicação, uma vez que os utilizadores têm de ter uma bateria recarregável ou estarem ligados a uma fonte de energia, a crescente disponibilidade de power banks portáteis está a ajudar a impulsionar o vestuário aquecido junto dos consumidores, com a IDTechEx a prever um crescimento sustentado dos têxteis aquecidos até 2033, a uma taxa anual composta de 4,5%.

Sensores biométricos a crescer

A sensorização biométrica tem sido uma das áreas de aplicação dos têxteis eletrónicos que, na última década, tem registado maior interesse, assim como os principais desenvolvimentos e resultados. A integração de vários sensores em vestuário pode permitir a monitorização de sinais vitais essenciais, incluindo o ritmo cardíaco, respiração e temperatura. «O interesse dos investidores em aplicações de e-têxteis para desporto e fitness aumentou no início dos anos 2010, mas vários problemas, incluindo o custo e possibilidade de lavagem, impediram as grandes empresas de desporto de comercializarem a tecnologia para o mercado de massa», refere Tess Skyrme.

Também o surgimento de tecnologias alternativas capazes de fazer o mesmo ou até com mais funções, como os smartwatches, têm sido um impedimento ao desenvolvimento nestas áreas.

As empresas estão, em vez disso, a monitorizar sinais vitais para aplicações onde a informação é crítica, desde os cuidados de saúde à segurança do trabalhador. Por exemplo, aponta a IDTechEx, elétrodos embebidos em coletes inteligentes que conseguem monitorizar os sinais vitais e stress provocado por temperaturas elevadas de trabalhadores em ambientes extremos, como no caso de bombeiros.

«Claro que as camisolas inteligentes podem também ser aplicadas no estudo de como o corpo humano responde a situações extremas, como os astronautas na Estação Espacial Internacional. Os desafios típicos que o vestuário inteligente para o consumidor enfrenta, como ter de usar o mesmo todos os dias ou o custo unitário, tornam-se menos relevantes quando a peça de vestuário faz parte de um uniforme ou quando os dados são críticos e não podem ser facilmente replicados ou obtidos de forma tão precisa por alternativas», sublinha Tess Skyrme.

Solas que salvam vidas

Conforto e funcionalidade são outros pontos fortes dos e-têxteis, sobretudo quando aplicados em palmilhas inteligentes, que podem ser usadas quer para monitorizar a marcha, quer para recolha de informação para a gestão de doenças como a diabetes.

As palmilhas com sensores de pressão podem medir a simetria do movimento e a distribuição do peso de uma pessoa, permitindo que profissionais de saúde, por exemplo, avaliem o progresso na recuperação de uma pessoa após lesões que afetam a mobilidade. Quando combinadas com sensores de temperatura, as palmilhas conseguem detetar pontos de pressão ou temperaturas elevadas para alertar os médicos sobre a potencial formação de úlceras. Esta monitorização pode ajudar pessoas com diabetes, que correm o risco de desenvolver úlceras que não cicatrizam e resultam em amputação do membro.

No entanto, embora o mercado de tecnologias para monitorização e gestão de diabetes deva atingir mais de 30 mil milhões de dólares até 2033, segundo o estudo “E-Textiles and Smart Clothing Markets 2023-2033: Technologies, Players, and Applications” da IDTechEx, «é pouco provável que as palmilhas inteligentes captem grande parte deste mercado, fazendo com que os produtores de têxteis eletrónicos tenham de continuar a procurar um grande sucesso», afirma Tess Skyrme.

De acordo com a analista sénior de tecnologia, «para entregarem um produto atrativo, as empresas devem aproveitar tanto as vantagens dos têxteis como a função da eletrónica usada em têxteis. Contudo, há muitas alternativas já prontas, incluindo a utilização de têxteis simplesmente para fixar dispositivos. Até à data, os principais sucessos foram encontrados em aplicações onde a estética é de menor importância, onde a lavagem não é uma grande preocupação e onde o valor é crítico e não pode ser replicado de outra forma».