Dez tendências para 2006

Os que dizem que o sucesso empresarial está apenas dependente da execução estão enganados. Os mercados certos para os produtos, a tecnologia e a geografia são elementos críticos do desempenho económico no longo-prazo. As empresas que navegam com a corrente têm sucesso, as que rumam contra a corrente sentem geralmente sérias dificuldades. Identificar estas correntes e desenvolver estratégias de navegação são elementos fundamentais para o sucesso empresarial. Quais são as tendências que vão tornar o mundo em 2015 um lugar diferente para fazer negócio em relação ao mundo de hoje? Prever mudanças no curto prazo ou choques imprevistos é uma caminhada inútil. Mas, prever tendências de mudança no longo prazo é possível através de uma análise aprofundada da história, em vez da análise superficial de um passado recente. Até mesmo a Internet demorou mais de 30 anos para se tornar um fenómeno de um dia para o outro. Este estudo, desenvolvidopela McKinsey & Company, evidencia dez tendências que, segundo a empresa de consultoria, vão modificar a paisagem empresarial em diversas áreas. Tendências macroeconómicas São três as tendências macroeconómicas que vão transformar profundamente a base da economia mundial. 1.Os centros de actividade económica vão modificar-se de forma profunda, não apenas em termos globais, mas também em termos regionais. Como consequência da liberalização económica, dos avanços tecnológicos, dos desenvolvimentos no mercado de capitais e de mudanças demográficas, o mundo entrou numa nova orientação da actividade económica. Apesar da existência de choques inevitáveis e de recuos, esta reorientação vai persistir. Actualmente, a Ásia (excluindo o Japão) é responsável por 13% do PIB mundial, enquanto que a Europa Ocidental é responsável por mais de 30% deste indicador. Ao longo dos próximos vinte anos, estes dois valores vão convergir quase totalmente. Algumas indústrias e sectores vão registar uma modificação ainda mais significativa. A questão não passa apenas pela deslocação com destino à Ásia. Os EUA vão continuar a ser responsáveis por uma grande parte do crescimento económico absoluto ao longo das próximas duas décadas. 2.As actividades do sector público vão aumentar, tornando os ganhos de produtividade fundamentais. O envelhecimento sem precedentes das populações no mundo desenvolvido vai requerer novos níveis de eficiência e criatividade por parte do sector público. Sem a existência de ganhos claros na produtividade, os custos de pensões e saúde vão originar taxas de imposto sufocantes. Este é um problema que não se restringe apenas aos países desenvolvidos. Muitos responsáveis governamentais de países em desenvolvimento vão ter de decidir sobre qual o nível de serviços sociais a fornecer aos cidadãos, que cada vez mais procuram protecções estatais como os cuidados de saúde e a reforma. A adopção de soluções no fornecimento de serviços sociais por parte do sector privado vai provavelmente difundir-se nos países desenvolvidos e nos países em desenvolvimento. 3. Os grupos de consumidores vão modificar-se e expandir de forma significativa. Quase mil milhões de novos consumidores vão entrar no mercado global na próxima década, à medida que o crescimento económico nos mercados emergentes impulsiona-os para além do limiar de 5.000 dólares de rendimento anual doméstico, valor a partir do qual as pessoas começam geralmente a gastar em artigos diversificados. Entre hoje e 2015, a capacidade de compra do consumidor nas economias emergentes vai aumentar dos 4 mil biliões de dólares para mais de 9 mil biliões de dólares, quase o actual valor do consumo da Europa Ocidental. As mudanças ao nível dos segmentos de consumidores nos países desenvolvidos também vão ser significativas. As populações não estão apenas a envelhecer, mas a modificar-se de outras formas. Nos EUA, por exemplo, a população hispânicavai possuir, em 2015, um poder de compra equivalente a 60% do total de consumidores chineses. E os consumidores, independentemente da sua morada, vão possuir informação e acesso aos mesmos produtos e marcas. Tendências sociais e ambientais Seguidamente foram identificadas quatro tendências ao nível social e ambiental. Apesar de serem menos previsíveis e o seu impacto no mundo dos negócios ser menos evidente, vão mudar significativamente a forma como vivemos e trabalhamos. 4. A conectividade tecnológica vai transformar a forma como as pessoas vivem e interagem. A revolução tecnológica foi efectivamente uma revolução. No entanto, estamos numa fase inicial e não numa fase de maturidade nesta revolução. Indivíduos, sectores públicos e empresas estão ainda a aprender como utilizar da melhor forma as tecnologias de informação no desenvolvimento de processos e no desenvolvimento e acesso ao conhecimento. Novas soluções em áreas como a biotecnologia, tecnologia laser e nanotecnologia estão a impulsionar a gama de produtos e serviços. Mais significativa do que a própria tecnologia em si é a transformação que a tecnologia permite na mudança do comportamento. Trabalhamos não apenas em termos globais, mas também de forma instantânea. Estamos a formar comunidades e relacionamentos de novas formas (efectivamente, 12% dos novos casais nos EUA em 2005 conheceram-se através da Internet). Mais de dois milhões de pessoas utilizam actualmente telemóveis. Enviamos 9 mil biliões de e-mails por ano. Realizamos mil milhões de pesquisas no Google todos os dias, mais de metade das quais em idiomas diferentes do inglês. Talvez pela primeira vez na História, a geografia não é a principal restrição aos limites da organização social e económica. 5. A luta pelo talento vai alterar-se. As actuais mudanças no trabalho e no talento vão ser muito mais profundas do que a vasta migração de postos de trabalho registada para os países com baixos salários. A transição para indústrias de conhecimento intensivo vem salientar a importância e a escassez de recursos humanos bem formados. No entanto, a crescente integração nos mercados de trabalho globais está a originar novas fontes de talento, como é o caso dos 33 milhões de jovens profissionais com curso universitário existentes nos países em desenvolvimento, os quais são mais do dobro do registado nos países desenvolvidos. Para muitas empresas e governos, o mercado de trabalho e as estratégias de qualificação vão tornar-se tão importantes como as estratégias internacionais de subcontratação e produção. 6.O papel e o comportamento das grandes empresas vão ser alvo de um escrutínio maior e mais atento. À medida que os negócios expandem o seu alcance internacional e à medida que as exigências económicas sobre o ambiente intensificam-se, o nível de desconfiança pública sobre as grandes empresas vai provavelmente aumentar. O código de conduta da actual ideologia empresarial (por exemplo, valor do investidor, livre comércio, direitos da propriedade intelectual, repatriamento dos lucros) não são compreendidos, quanto mais aceites, em muitas zonas do mundo. Esta tendência não é apenas registada ao longo dos últimos 5 anos, mas ao longo dos últimos 250 anos. O aumento do ritmo e da abrangência dos negócios em termos mundiais e a emergência de empresas internacionais efectivamente gigantes vai aumentar significativamente as pressões ao longo dos próximos 10 anos. As grandes empresas nunca mais serão amadas. Poderão, no entanto, ser mais apreciadas. Os líderes empresariais precisam de argumentar para demonstrar de forma mais evidente as vantagens em termos intelectual, social e económico para a sociedade e o contributo dos negócios para a sociedade. 7. A procura por recursos naturais vai aumentar, assim como as pressões sobre o ambiente. À medida que o crescimento económico acelera, principalmente nos mercados emergentes, estamos a utilizar recursos naturais a taxas sem precedentes. Prevê-se que a procura de petróleo cresça 50% ao longo das duas próximas décadas e, na ausência de significativas novas descobertas ou inovações radicais, o fornecimento não deverá manter-se. Estamos a observar um aumento semelhante da procura ao longo de uma vasta gama de bens de consumo. Na China, por exemplo, a procura por cobre, ferro e alumínio quase triplicou ao longo da última década. Os recursos naturais mundiais são cada vez mais escassos. As falhas de água vão ser a principal restrição ao crescimento em muitos países. A atmosfera, um dos recursos naturais mais raro, vai precisar de transformações dramáticas no comportamento humano para evitar a sua degradação. A inovação na tecnologia, a regulamentação e a utilização de recursos vão ser fundamentais para criar um mundo que possa fomentar o sólido crescimento económico e sustentar as exigências ambientais. Tendências no negócio e na indústria O terceiro conjunto de tendências identificadas abrange as orientações ao nível do negócio e da indústria, as quais estão a fomentar a mudança ao nível empresarial. 8.Novas estruturas industriais internacionais estão a emergir. Em resposta a mudanças na regulamentação do mercado e ao advento de novas tecnologias, os modelos de negócio não tradicionais estão a florescer, coexistindo muitas vezes no mesmo mercado e espaço sectorial. Em muitas indústrias está a aparecer uma estrutura tipo piramidal, com alguns gigantes no topo, um meio estreito e depois diversos intervenientes pequenos e ágeis na base. De forma semelhante, as fronteiras da organização estão a tornar-se menos definidas à medida que emergem sistemas interligados de fornecedores, produtores e clientes. Mesmo os pressupostos estruturais básicos estão a ser ultrapassados.Por exemplo, aemergência de fundos de investimento privado está a modificar a propriedade empresarial, os ciclos de vida das empresas e as expectativas de desempenho. As empresas que procurem as eficiências conseguidas com as novas possibilidades estruturais vão beneficiar com estas transformações. 9. A gestão vai passar de arte a ciência. Empresas maiores e mais complexas exigem novas ferramentas de funcionamento e gestão. Efectivamente, melhor tecnologia e ferramentas de controlo estatístico originaram novas abordagens de gestão que tornam até as mega-instituições viáveis. Os dias da gestão por instinto já estão ultrapassados. Os actuais líderes empresariais estão a adoptar técnicas de decisão com base em algoritmos e a utilizar software sofisticado para gerir as suas organizações. 10.O acesso omnipresente da informação está a modificar as economias do conhecimento. O conhecimento está cada vez mais disponível e, ao mesmo tempo, cada vez mais especializado. A manifestação mais óbvia desta tendência é o aumento dos motores de busca na Internet, que tornam instantaneamente disponível uma quantidade quase infinita de informação. O acesso ao conhecimento tornou-se quase universal. No entanto, a transformação registada é muito mais profunda do que apenas o alargamento do acesso ao conhecimento. Novos modelos de produção, acesso, distribuição e propriedade de conhecimento estão a emergir. Assistimos ao aumento de abordagens abertas ao desenvolvimento do conhecimento, à medida que comunidades, não indivíduos, se tornam responsáveis pelas inovações. A própria produção de conhecimento está a aumentar: os pedidos de patentes ao nível internacional, por exemplo, aumentou de 1990 a 2004 a uma taxa anual de 20%. As empresas vão precisar de aprender como aproveitar este novo universo de conhecimento, ou arriscar afogar-se numa enchente de excesso de informação. As empresas precisam compreender as implicações destas tendências internacionais, em paralelo com as necessidades dos consumidores e os desenvolvimentos competitivos. Os gestores que orientam a estratégia das suas empresas com base nestes factores vão estar melhor posicionados para serem bem sucedidos. Reflectir sobre estas tendências é tempo bem empregue.