Desserto com os olhos na Europa

A empresa mexicana, que desenvolveu uma alternativa ao couro a partir de cato que já foi usada por marcas como a Balenciaga, instalou uma unidade produtiva em Itália e quer conquistar o Velho Continente, incluindo Portugal.

Marte Cázarez Duarte e Adrián López Velarde

O material produzido pela Desserto surgiu para tentar encontrar uma alternativa mais sustentável às peles convencionais. «No México, o cato é abundante, está em todo o lado, não precisa de água para crescer, nem de químicos nem cuidados especiais. Por isso, pensámos que se conseguíssemos converter a planta de cato num material, essa seria a solução certa para a indústria», explica Marte Cázarez Duarte ao Portugal Têxtil.

O cato é cultivado sem necessidade de usar água que não seja a da chuva, demorando cerca de um ano a crescer. «Fazemos a colheita a cada oito ou 10 meses, depois o cato é colocado a secar ao sol durante cinco dias. Desta forma conseguimos reduzir a utilização de energia e as emissões de gases. Usamos apenas o sol para o processo de secagem. A seguir fazemos a extração da proteína», enumera o cofundador.

O resultado é um material 90% à base de plantas que pode ser usado como a pele, na produção de vestuário, calçado ou marroquinaria, com vantagens ecológicas face a outras alternativas produzidas a partir de matérias-primas fósseis. «A utilização de água e químicos e as emissões de gases com efeito de estufa são muito baixas em comparação com as peles e os materiais sintéticos», sublinha.

«Bio-polímeros como os que são feitos com milho também são provenientes de uma planta, mas o impacto ambiental é muito grande», realça Adrián López Velarde, o outro cofundador da Desserto. «Por isso estamos a educar os clientes e a comunicar a sustentabilidade do material. Temos uma avaliação de ciclo de vida para que possamos fazer estas comparações e saber de que forma tem benefícios para o ambiente», acrescenta.

Os próximos passos nesse sentido passam pela rastreabilidade de cada colheita. «Para nós será fácil de implementar, porque temos apenas um fornecedor de cato – é uma cadeia de valor muito concentrada», aponta Adrián López Velarde.

Em Itália e a caminho da Coreia do Sul

Além do México, a empresa instalou uma unidade produtiva também em Itália no ano passado. «Queríamos reduzir o transporte, porque tem também um impacto importante nas emissões de gases», indica Marte Cázarez Duarte. O cato continua a ser produzido no México devido às condições meteorológicas favoráveis, mas a transformação é já feita em Milão, permitindo servir o mercado europeu.

O interesse pelo material tem vindo a aumentar, sobretudo na Europa. «Quando lançámos a Desserto em Itália, todas as marcas ficaram muito interessadas. Depois abrimos nos EUA e também veio o mercado asiático», desvenda o cofundador.

Em Portugal, a empresa tem clientes no sector do calçado. «Portugal é bem conhecido como um bom produtor de calçado. Por isso considerámos que é uma boa oportunidade», afirma, justificando a presença na Intershoes, a feira de calçado que decorreu pela primeira vez em Portugal em paralelo com a Intertex. Mas, salienta Marte Cázarez Duarte, «o material pode ser usado em vestuário, acessórios ou assentos de automóvel. É uma alternativa que pode ser aplicada a qualquer coisa que seja feita com pele».

Atualmente, 50% da produção é enviada para a Ásia, «porque as fábricas das grandes marcas estão na China e no Vietname», pelo que o futuro deverá passar pela implantação de uma unidade produtiva no continente asiático. «Ainda não decidimos, mas talvez na Coreia do Sul e provavelmente no próximo ano», adianta Marte Cázarez Duarte.