Designers europeus rendidos à ITV portuguesa

Com dois dias inteiramente dedicados à visita da indústria nacional, 18 participantes do Concurso Europeu de Jovens Designers foram recebidos no Valérius Recycling Center, Riopele, Calvelex e Polopiqué.

Polopiqué

Organizadas pela ModaPortugal, estas visitas, que procuram divulgar e promover a indústria têxtil portuguesa, agitaram os conhecimentos dos designers emergentes que vieram da Finlândia, França, Itália, Reino Unido, Suíça e Portugal.

A primeira paragem desta viagem pela indústria têxtil portuguesa foi no Valérius Recycling Center, em Vila do Conde, onde Diana Soto, LCA & Textile Sustainability Specialist, explicou todo o método de separação e reciclagem de resíduos têxteis, da limpeza à fiação, até ao produto final. O reaproveitamento e transformação de materiais em novas fibras e o método de valorização dos têxteis que não são utilizados no processo de fabrico, com o objetivo de reduzir o impacto negativo desta indústria, foram o foco da visita guiada, que deixou os estudantes surpreendidos.

Valérius

«Estar a fazer esta sensibilização nesta fase em que eles estão a entrar no mercado e em que ainda estão a aprender é muito importante para moldar o futuro e mostrar-lhes que, efetivamente, é possível fazer estas coisas», considera Diana Soto.

A parte da tarde foi reservada à Riopele, empresa que está a três anos da celebração do centenário, numa visita que começou com o exercício de tentar reconhecer, pelo toque, qual dos materiais era algodão e qual era poliéster, teste no qual os estudantes foram bem sucedidos. Depois de identificarem as duas matérias-primas, iniciou-se o itinerário de conhecer o funcionamento vertical da têxtil de Famalicão, começando pela fiação e concluindo no controlo de qualidade. José Cruz, responsável do departamento de tecelagem, guiou o grupo de estudantes e jornalistas internacionais pelo seu departamento, onde explicou detalhadamente as várias fases deste processo. Toda a tecnologia utilizada de forma a monitorizar, controlar e partilhar o sistema dos equipamentos com a maior eficiência possível, e a variedade de máquinas capazes de oferecer várias alternativas ao cliente final, despertou curiosidade no professor Ervin Latimer, da Aalto University, que quis saber pormenores como a quantidade mínima de produção e o tempo de entrega.

Já a equipa de desenvolvimento da Riopele explicou o processo criativo e inspirações, e despertou perguntas relacionadas com o reaproveitamento de coleções antigas.

A visita culminou num questionário sobre a empresa, que valeu aos estudantes Eden Sherry, Kristine Dzene e Scout Macpherson, da London College of Fashion, cinco rolos de tecido à escolha.

Riopele

«Gostamos de contribuir e que eles [estudantes] fiquem a conhecer a indústria – como somos uma fábrica vertical, conseguimos mostrar todo o processo e os nossos projetos de sustentabilidade», destacou Francisca Oliveira, Business Development Manager e 4.ª geração da família fundadora da Riopele.

Jimena Gusman, que visitou pela primeira vez empresas de produção têxtil, ficou especialmente fascinada com o que viu na Riopele porque, mesmo sabendo que Portugal tem uma enorme indústria têxtil, enquanto estudante sentiu que a ajudou a entender que por cá têm a abertura e a oportunidade para produzir com marcas pequenas e emergentes. «Eu vejo-me a trabalhar com a Riopele. A empresa é muito grande e fiquei surpresa por ver que começam com a fibra, passam pelo fio e vão até ao tecido. Não sabia sequer que existia todo este processo numa só fábrica», referiu a aluna da Polimoda, que realçou igualmente a atenção às questões da sustentabilidade e a meticulosa organização da Riopele.

Na Calvelex, Maria Peixoto, da equipa de Fabric Sourcing, conduziu a apresentação da empresa, que confeciona atualmente 600 mil peças de vestuário por ano e tem como prioridades a sustentabilidade, a internacionalização e a qualificação das competências dos trabalhadores. O foco esteve no acompanhamento dos vários departamentos, desde a área de modelação, passando pela unidade de produção, com o corte e a costura, até obter o produto final. Por fim, houve ainda tempo para visitar o showroom da biblioteca de tecidos Fabrics4Fashion, de onde os estudantes regressaram com tecidos nas malas.

Calvelex

«Quando recebemos estudantes aqui e mostramos a fábrica, sabemos que há muitos que não têm muita a noção de como funciona», indicou Maria Peixoto.

Na Polopiqué, Eduardo Peixoto, diretor da empresa que, nos últimos dois anos, tem estado a lançar o segmento dedicado à casa, demonstrou que o compromisso com a inovação e o aproveitamento das vantagens da verticalidade são essenciais para responder a todas as necessidades dos clientes. A Polopiqué assume todas as etapas do ciclo produtivo e os estudantes puderam ver quase todas: a unidade de fiação, a de tecelagem e tricotagem e a de tingimento e acabamento. Apollo da Costa Dória, estudante da Aalto University, ficou curioso com o destino dos resíduos, tendo em conta o volume de produção da empresa: 20% do que produzem é resíduo, que é vendido para ser reciclado e reutilizado. Ao Portugal Têxtil, Eduardo Peixoto referiu que «Portugal é um dos países, ou mesmo o único país, na Europa com a indústria de início ao fim. Ainda existe de A a Z e é importante eles verem exatamente como é que os produtos que querem conceber são feitos, o time-frame em que são feitos e todos os processos envolvidos do início ao fim».