De pedra e cal no mercado

24 colecções de criadores e marcas revelaram, em duas passerelles, uma das quais – a Lab – instalada no coração do Mercado da Ribeira, entre as próprias bancas de legumes e frutas, as principais tendências para a Primavera/Verão 2011. «É a primeira vez que a ModaLisboa está a operar num local que tem actividade própria. Aquilo que parecia impossível aconteceu e a plataforma Lab serviu para mostrar isso mesmo: a fusão entre a ModaLisboa e o próprio mercado. Daí o tema “in the market” e não “on the market”. “In the market” tem duplo sentido: no Mercado da Ribeira e no mercado global», explicou Eduarda Abbondanza, directora da Associação ModaLisboa, ao Portugal Têxtil. «Observando e percebendo o espaço e as pessoas que o habitavam, foi logo determinação nossa que não íamos invadir esse espaço, mas sim entrar em fusão com ele. Claro que isso requereu atenção, sensibilidade para o fazer e para o entender também», acrescentou. «A moda passa, o estilo fica», dizia, com razão, Coco Chanel. A moda passou nas passerelles instaladas no Mercado da Ribeira, revelou as principais tendências para a próxima estação quente, que seis meses depois estarão fora de moda, mas deixou patente que o estilo, inconfundível, de criadores como Ana Salazar, Luís Buchinho ou Nuno Gama vai muito para além das colecções e das estações. A ModaLisboa, uma montra por excelência do melhor que se faz na moda nacional, nasceu com muitos destes talentos inatos da moda, acompanhou-os, e inclusive amparou-os, no seu crescimento e amadurecimento, e hoje consolidam-se ambos, depois de um percurso recheado de conquistas e de obstáculos ultrapassados sem, todavia, fim à vista. «Estou sentada na primeira fila a ver mesmo as colecções: a roupa, os sapatos, os acessórios… E é com enorme prazer que assisto à evolução dos criadores. Sinto uma moda portuguesa mais madura, que realmente está noutro patamar. Não há comparação», afirma Eduarda Abbondanza. «A ModaLisboa, hoje em dia, pode ser uma excelente rampa para criação de marca e marca é aquele assunto que Portugal levou muito tempo a perceber que tem um valor acrescentado enorme». Nesta 35ª edição da ModaLisboa, as viagens foram um tema transversal a muitos criadores, quer por paragens exóticas, como reflectiram as propostas de Luís Buchinho, que nos levou até África; quer pela riqueza dos nossos hábitos e costumes, que Nuno Gama recria como ninguém e desta vez não foi excepção, apresentando uma colecção inspirada nos pescadores da Nazaré, mas também com fortes influências da cultura oriental, fruto da sua recente passagem pelo Médio Oriente; ou ainda por uma viagem ao “Eu”, à identidade – uma questão pertinente nesta era dominada pelas redes sociais -, abordada pela colecção de Dino Alves. Silhuetas fluidas, cortes assimétricos e estampados inspirados na Natureza, mas com a fauna a ceder o lugar à flora, são algumas das linhas que vão coser a moda do próximo Verão. Para além da moda mostrada em passerelle, a ModaLisboa mostrou que tem uma estratégia e, por isso, é hoje um projecto sustentável, uma marca consolidada e uma ponte para novos desafios. «A estratégia é uma disciplina muito importante para nós. Uma coisa é ter uma metralhadora carregada de balas e desatar a disparar, se calhar uma delas acerta nalguma coisa. Mas como não estamos em tempo de desperdiçar munições, estas têm que ser assertivas. Como tal, um bom plano estratégico é fundamental, para o país, para as empresas e para toda a gente», revelou Eduarda Abbondanza. «Temos capacidade para pensar projectos estruturantes “tailor made”, como foi o “+Portugal” em Barcelona, a própria ModaLisboa ou, mais recentemente, o Estoril Fashionart Festival. Neste momento estamos a desenhar um projecto internacional que se sobreponha ao facto de não dispormos de verbas para a internacionalização», concluiu a directora da ModaLisboa. E mais não quis, por agora, desvendar.