Da ficção científica à realidade têxtil

Testes de resistência a químicos de um fato militar NBC (nuclear, biológico e químico), utilizando a tecnologia de polimerização por plasma, estão na ordem do dia de trabalhos da DSTL (Defence Science and Technology Laboratory), uma instituição governamental inglesa para a investigação, localizada em Porton Down. Contudo, com vista à transferência da tecnologia para um mercado comercial mais vasto, a DSTL procura apresentar a técnica de uma forma menos “conflituosa”. «Até dispomos de alguém a mostrar como isto funciona, que despeja o vinho tinto da sua gravata de seda directamente para um copo», informa Ian George, membro da equipa de transferência tecnológica da DSTL. Ian George sustem na sua mão direita um fragmento de papel mata-borrão que imediatamente absorve a água derramada, enquanto que o mesmo fragmento sustido na mão esquerda é incapaz de cumprir a missão para a qual foi especificamente concebido – as gotas de água simplesmente se associam e deslizam pela superfície fora. Esta exibição mostra como se forma uma barreira invisível à superfície do papel, sem alterar todavia as suas propriedades físicas. O investigador Stephen Coulson revela que «a nossa técnica de polimerização por plasma pode ser aplicada praticamente em qualquer material – madeira, metal, vidro, têxteis, plásticos – de modo a criar um revestimento que é extraordinariamente impermeável a líquidos. Mesmo artigos constituídos por um número de materiais distintos podem ser revestidos, o que torna esta técnica verdadeiramente original». O revestimento por plasma actua à escala nano, penetrando o material de tal forma que o revestimento envolve as fibras individuais, em vez de produzir uma película de barreira à superfície. Deste modo, o material conserva as suas propriedades de massa originais – um tecido apresentará o mesmo cair e não enrijece nem pica, enquanto que uma folha de metal manterá o seu brilho e a sua resistência. O processo de polimerização por plasma da DSTL utiliza a técnica da fase gasosa, efectuada em câmaras com plasma sob vácuo, especialmente desenvolvidas para o efeito. O plasma é um gás ou vapor ionizado, parcial ou completamente, situado a meio caminho entre um líquido e um gás. No caso da polimerização, diferentes monómeros são alimentados para o processo de polimerização. Os parâmetros de deposição podem ser ajustados de modo a guardar os grupos específicos do monómero, originando uma superfície quimicamente “costurada”. A ideia do DSTL para a polimerização por plasma esteve vários anos em incubação. Originalmente resultante de um projecto de investigação na Durham University, financiado pelo Ministério da Defesa do Reino Unido, a propriedade intelectual é agora detida pela DSTL de Porton Down. Stephen Coulson, que tem trabalhado no projecto desde os tempos de Durham, cita um requisito operacional para a sua concepção: «O Ministério da Defesa pretende desenvolver um revestimento impenetrável para o seu fato NBC, susceptível de obstruir a passagem de agentes como a mostarda e outros líquidos ameaçadores». «Procuramos algo que não confira apenas uma dimensão extra à protecção, mas que também seja confortável ao uso. A tecnologia por plasma constitui a única forma de produzir um revestimento de polímero durável para uma peça de vestuário completa», explica. Os factos NBC convencionais são compreensivelmente volumosos, devido aos materiais necessários para manter os agentes químicos “cercados”. O revestimento por plasma pode criar uma protecção equivalente, com a vantagem de poder ser aplicado a um tecido “normal”, facilitando assim o desempenho do soldado no cumprimento dos seus deveres. «Este revestimento pode futuramente ser aplicado no fato completo, em vez de ser aplicado nos seus componentes individuais», refere Stephen Coulson. «Por agora, os materiais utilizados em geral são tratados sob a forma de folha. O vapor de plasma necessita apenas de um simples contacto com o material para revesti-lo», revela ainda. Presentemente, as câmaras de plasma são ainda exíguas para conter o fato NBC completo, mas a equipa já está a levar a cabo experiências com uma empresa americana especialista nesse tipo de instalações para desenvolver câmaras de maiores dimensões. «Uma vez fixada a tecnologia, poderemos então compreender todo o seu potencial militar e comercial», adianta Stephen Coulson. De acordo com a política governamental inglesa, o DSTL tem estado a trabalhar activamente na transferência desta tecnologia para aplicações civis e a polimerização por plasma já se prepara para provocar um certo impacto no sector privado. Apesar de ainda não se ter chegado ao extremo “você tem-no, nós revestimo-lo”, está-se a gerar alguma expectativa em torno da nova tecnologia e dos seus benefícios para a construção civil. Naturalmente, como com toda a propriedade intelectual do Ministério da Defesa, existem algumas limitações, mas o estádio de “prova de conceito” está a avançar a passo acelerado. «Já existem vários interessados na aquisição de licenças da nossa patente», explica Stephen Coulson. «E iniciaremos a sua comercialização como e quando for apropriado». Quando comparada com o Gore-Tex – a referência industrial para tecidos de protecção respiráveis – a energia de superfície do tecido tratado por plasma é um terço do valor, o que o torna muito mais eficaz. O processo por plasma preserva a respirabilidade do tecido, pois reveste as fibras individuais em vez de produzir uma película sobre os poros do mesmo. A DSTL revela que já está a trabalhar com as principais empresas de vestuário desportivo e marcas de vestuário de luxo a fim de desenvolver uma nova geração de vestuário impermeável à água e resistente às nódoas.