Crise não detém subida de preço do algodão

Apesar dos efeitos do Covid-19 na economia mundial, os preços do algodão mantiveram-se estagnados ou registaram aumentos no último mês. Com o consumo de vestuário em queda, contudo, as previsões estão envoltas em incerteza para os próximos tempos.

De acordo com uma atualização de mercado da Cotton Incorporated e dos dados do Departamento de Agricultura dos EUA, a maior parte dos preços de referência permaneceram estagnados ou aumentaram no último mês, com o A Index a subir de 0,63 para 0,65 dólares por libra – equivalente a 1,27 a 1,31 euros por quilo.

Os preços na Índia desceram ligeiramente, de 0,62 dólares para 0,60 dólares por libra, enquanto o China Cotton Index ficou relativamente estável, próximo dos 0,73 dólares por libra.

Os números contradizem, em certa medida, as projeções do International Cotton Advisory Council (ICAC), publicadas no dia 2 de maio.

Um fator que terá suportado o mercado durante a pandemia terá sido provavelmente as fortes exportações dos EUA para a China. Estas foram atribuídas às compras por parte do sistema chinês de reservas e fazem parte do cumprimento da primeira fase do acordo estabelecido entre os dois países.

Para 2020/2021, as previsões são pouco claras, mas o relatório acrescenta que «danos financeiros significativos foram infligidos aos retalhistas de vestuário», adiantando que «tanto os EUA como a União Europeia publicaram estimativas para o consumo por categoria em março. Em cada localização, o vestuário sofreu mais do que qualquer outro conjunto de bens (algumas categorias de serviços, como as viagens, estiveram pior)».

O relatório acrescenta que «assim que a recuperação começar, a questão é quão forte será a procura do consumidor. Uma vez que foi a primeira a ser afetada e a primeira a retomar, a China pode fornecer algumas diretrizes. As vendas a retalho na China em março e abril, contudo, não foram encorajadoras, com o consumo a baixar cerca de 20% em termos anuais em cada um dos meses. Isto contrasta com o crescimento em termos anuais de quase 10% antes do surto e sugere que os consumidores em todo o mundo podem ser conservadores nos seus gastos depois de terem ficado chocados pela rapidez e profundidade da crise de Covid-19».

Produção em queda

O Departamento de Agricultura estima que a produção da próxima colheita seja ligeiramente mais baixa do que em 2019/2020 (-3%, ou menos 3,7 milhões de fardos, de 122,7 milhões em 2019/2020 para 118,9 milhões em 2020/2021).

Em termos de países, a maior parte das alterações nas comparações em termos anuais da produção revelam-se negativas. São antecipadas reduções na Índia (menos 2 milhões de fardos, para 28,5 milhões), Brasil (menos 1,2 milhões de fardos, para 12 milhões), China (menos 800 mil fardos, para 26,5 milhões), EUA (menos 400 mil fardos, para 19,5 milhões) e México (menos 300 mil fardos, para 1,2 milhões). Com a expectativa de melhores condições meteorológicas, a Austrália deverá registar o maior aumento anual (mais 1,1 milhões de fardos, para 1,7 milhões de fardos).

Os stocks mundiais de algodão, no entanto, deverão permanecer elevados. No final de 2019/2020, a oferta armazenada deverá atingir 97,2 milhões de fardos. Será o nível mais elevado desde 2014/2015, quando os stocks mundiais atingiram o nível recorde de 106,7 milhões de fardos. Durante este tempo, a China tem estado a encerrar o seu programa de stocks e uma proporção significativa dos stocks mundiais não estão disponíveis no mercado.

Stocks a subir

Sob as atuais condições de mercado, uma percentagem bastante maior de stocks mundiais estará disponível para envio. Em 2020/2021, os stocks finais deverão subir novamente, para 99,4 milhões de fardos. Este volume de oferta disponível deverá afetar os preços ao longo da época 2020/2021.

O comércio deverá aumentar ao longo da próxima época de colheita (+8,9% ou mais 3,5 milhões de fardos, de 39,3 para 42,8 milhões de fardos). Em termos de importações, as maiores alterações deverão registar-se na China (mais 2 milhões de fardos, para 9,5 milhões de fardos), Vietname (mais 500 mil fardos, para 7 milhões de fardos) e Bangladesh (mais 400 mil fardos, para 7 milhões de fardos).