Há pouco mais de vinte anos Portugal começava prodigamente a diversificar sólidos passos napasserelle do mundo da moda, acrescentandoglamoure criatividade a uma indústria com reconhecida experiência no saber, no saber-fazer e no corte-e-cose. Multiplicaram-se os desfiles, quer em iniciativas autónomas quer nas primeiras feiras, investiu-se na formação em design têxtil e design de moda, aumentaram exponencialmente os investimentos em publicidade, nomeadamente na imprensa, apareciam as primeiras revistas da especialidade e surgiam as agências de modelos e as top-models nacionais.
Mas depois de um auspicioso início de carreira de muitos designers, hoje amplamente referidos, onde naturalmente a criatividade imperava, e de alguns anos de amadurecimento de percurso, mais experiência e profissionalismo (embora seja feita uma chamada de atenção ao incumprimento de prazos, um mal que não se devia herdar da experiência industrial), deve seguir-se naturalmente o marketing, a comunicação e promoção de imagem, que permitam passar do ateliê para a loja, ou rede de lojas, aumentando o seu leque de clientes. Aí apresentarão a sua colecção, com a maior diversificação possível (os seus clientes queixam-se da frequente falta de tamanhos), assegurando uma capacidade de produção que permita produzir em série e exportar, passando ou não pela modalidade de parcerias (algumas das existentes são reconhecidos casos de sucesso), com possibilidades financeiras para reinvestir, para exportar, comprar melhores materiais, viajar e visitar feiras.Esta segunda fase do processo parece, no entanto, não estar a acontecer. Houve um fortalecimento, de facto, da fase de criação, mas aí cristalizou, (há até quem refira que em termos de criação se assiste já a uma estagnação).É unânime reconhecer a criatividade portuguesa, qualidade que já nos permitiu vencer concursos de moda internacionais como o European Fashion Awards, em Bruxelas, o Festival de Hyères, perto de Paris, ou o Porto Fashion Awards, quando o seu júri internacional era fundamentalmente constituído por reconhecidas personalidades ligadas à arte.Na criatividade já chegámos a tão alto patamar que noendorsementinternacionalnão faltam excelentes referências, com uma das actrizes da famigeradasitcom «O Sexo e a Cidade», ou Jane Birkin no recente espectáculo «La robe rouge», a vestirem Fátima Lopes, ou Robbie Williams e Tony Blair a vestirem Vicri. E não é por acaso que esta última marca de roupa, detentora do prémio de colecção mais inovadora na última Pitti Uomo, foi recentemente participada por duas empresas têxteis, para suprir a dimensão produtiva e financeira que faltavam.OCENESTAP, em parceria com outras entidades, promoveu um ciclo de colóquios de moda no Porto, onde consultores, jornalistas e reputadas personalidades do mundo da moda alertaram os estilistas para a necessidade de montarem a tal estrutura de marketing e comunicação, tendo um dos mais reconhecidos criadores da nossa praça adiantado que seriam valências incompatíveis com a da criação, ao que uma jovem aluna portuguesa da London College of Fashion contrapôs que tinha disciplinas de gestão na sua formação Num desses colóquios Victor Nobre, uma referência da extinta Filmoda, salientava que o maior valor acrescentado que uma empresa poderia dar ao seu produto seria a marca própria aliada à capacidade de criar moda, pelo que deveria até importar designers seniores, como se fez com os técnicos de produção nos anos 70, especializados nos mercados alvo que a empresa tivesse definido. A componente de gestão em questão. E fica a sugestão.Mas não é só do lado dos criadores que reside o ónus da solução, há efectivamente ainda alguma xenofilia dos consumidores nacionais, que preferem o produto e a marca estrangeira em detrimento da portuguesa. Ao que se pode adicionar alguma falta de amor-próprio, justificando o conselho de um jornalista espanhol para crermos mais em nós e perdermos o complexo de inferioridade.Agora, que é rara a publicação nacional generalista que não escreva sobre moda, e com vários anos de investimento nas principais iniciativas de promoção da moda nacional, designadamente 12 anos no Moda Lisboa, marcadamente mais experimentalista, e 8 no Portugal Fashion, mais arauto da ligação dos criadores à industria e à internacionalização (os seus promotores divulgaram um estudo feito por uma reconhecida consultora independente sobre o retorno da iniciativa, onde se destaca o aumento da qualidade das colecções, da internacionalização das mesmas, do profissionalismo, da plataforma de oportunidades de negócio, do número de alunos na área, e da frequência na referência da imprensa internacional), o JORNAL TÊXTIL (JT) perguntou a algunsopinion makers, produtores de moda, jornalistas e fotógrafos, nacionais e internacionais, qual a colheita resultante de tantos anos de cultura. Agostinho da Silva também dizia que cultura é «vestir decente». Mas de preferência português
Questionário:
1- O que se avalia numa colecção?
2- O que têm os portugueses neste âmbito?
3- O que falta?
4- Houve uma evolução nos últimos anos?
5- É necessária, ou indispensável a comercialização/ rentabilização da colecção, e o eventualmass-market?
6- Faz sentido o esforço de constituir uma parceria com uma empresa?
7- E os dois dias do P.Fashion, um para a indústria e outro para os criadores?
8- São indispensáveis as iniciativas de divulgação Moda LX e P.Fashion?
9- Temos consumidores para a moda de autor?
1- Que me consiga transmitir uma ideia, um conceito, umstatment,uma mensagem. A colecção tem que ter um conteúdo. E, se possível, deve transmitir uma ideia de único.
2-Têm criatividade. Mas sempre que se fala da moda que existe, caímos na tentação de falar dos que já se notabilizaram. É preciso sangue fresco, dar uma oportunidade a outros estilistas que estejam a sair das escolas. Estamos a investir e a falar sempre nos mesmos.
3- Falta capital, iniciativa e dimensão, pois muitos deles são apenas costureiros, e trabalham para um nicho num país pequeno, o que significa trabalhar para um nicho pequeno. Neste nicho, quem tem possibilidade de comprar uma peça de um costureiro nacional ao preço a que eles as vendem se calhar prefere pagar um pouco mais e comprar uma peça Prada ou D&G, por exemplo. É necessário que a peça nacional se evidencie para que isto não aconteça. Falta também mais contacto com as empresas nacionais para escolherem os melhores materiais, que aquelas já disponibilizam. Ainda se investe muito pouco nesta aproximação. Há também problemas no número de peças e tamanhos produzidos, pois para ter um bom número de peças é necessário ter uma empresa por trás e contar com alguma capacidade financeira e produtiva que muitos deles não têm. Poucos foram os que criaram estas estruturas. O que, sinceramente, me faz alguma impressão pois, depois de tantos anos de investimento nosso, há pouca obra feita. A maior parte deles, embora tenham tido muitos apoios, não se autonomizaram. Por último, falta montar a máquina de comunicação e de marketing para a sua promoção.
4- Claro, mas podia ter havido mais. E ainda não compreendi porque é que, estando a investir no design nacional, não se dá mais ênfase aos restantes segmentos do design industrial. Há outros designers a trabalhar tão bem na nossa indústria e a esses ninguém tem dado apoios, ou prémios. Para além disto, ainda falta melhorar a formação de que dispomos. Temos gente altamente criativa a ter formação no Citex e que está ser subaproveitada. Em Itália ou em França dão construção de modelos em 3D, modelagem,drapping, entre outras disciplinas mais modernas e essenciais, e cá ainda não. É uma pena. E falta trabalhar mais a imagem. Lá fora já falam em nós, mas podiam falar mais
5 e 6 A comercialização e as parcerias são essenciais. A indústria e os criadores têm objectivos diferentes, mas devem-se juntar, o que ainda se vê pouco. Ter uma colecção é ter um negócio, é ter uma estrutura e ter estabilidade empresarial, o que só justifica o envolvimento das duas partes. Mas nem as parcerias nem a sólida estruturação do negócio têm sido uma constante nacional. Qual é a solução?… É mexerem-se!
7-São fundamentais, mas é importante informar e diferenciar previamente estes dois públicos-alvo, frisando as diferenças de pretensões de cada dia da iniciativa.
8-É a única hipótese para promover efectivamente a moda, cada uma com os seus objectivos particulares. Mas repito, falta gente nova em todo este processo.
9-Temos, mas poucos. Não há poder de compra, e os que o têm muitas vezes preferem outras marcas.
1- Sobretudo um cunho pessoal. A colecção tem de estar dentro dos nossos tempos mas trabalhada de modo a que a sua assinatura esteja presente através das formas e volumes, da coordenação das matérias-primas, da coordenação das cores, com audácia e criatividade. O lado funcional, o ser vestível, também é importante, e é preciso lembrar isto a alguns criadores que trabalham directa ou indirectamente para empresas. Quando se trata de uma empresa a moda é para vender. A criatividade e diferenciação devem vir, quase sempre aliadas à funcionalidade.
2-Têm boas ideias, têm estado bem no plano criativo.
3- Falta-nos algum profissionalismo. Sabe-se que grande parte da ITV nacional falha nos prazos, e os nossos criadores não são excepção, deixando tudo para a última hora.
4-Sim, sem dúvida. A moda massificou-se e toda a gente agora pode tirar um curso de moda, mas isto é um pau de dois bicos pois deu-se a democratização da formação mas constato cada vez mais os alunos têm menor maturidade intelectual.
5-A comercialização é muito importante. E já temos muitas empresas que vendem milhares de peças com uma boa componente moda, com bons tempos de produção e bons preços.
6- As parcerias são muito importantes e aproveitando o elogio que fiz na questão anterior às empresas, realço o facto de muitas dessas empresas terem estilistas muito bons cujos nomes nunca são referidos, e são eles que dão a tal componente moda que faz a diferença, e vende. As parcerias são uma ideia excelente e são o único caminho a seguir. A apresentação das suas colecções deve depois dividir-se entre o ateliê e a loja. 7-Sim, pois são públicos-alvo diferentes. Mas os convites para o Moda LX e Portugal Fashion são para uma elite. Devia-se ver bem qual é o público-alvo a atingir em cada um dos dias e não convidar as pessoas para irem aos dois, mais como um acto social do que profissional.
8- Sim, quanto mais iniciativas melhor. Temos, mas também temos alguns entraves para que o consumo destes artigos se concretize. Em primeiro lugar, o próprio autor por vezes não quer massificar a marca. Não faltam lojas a querer vender roupa de autor, mas faltam autores a quererem vender nessas lojas. Depois são raros os que têm espírito empresarial e com capacidade financeira para comprar materiais, para produzir em série, para fazer uma boa campanha de marketing, etc. Por último, também temos muitos consumidores ainda preconceituosos em relação aos produtos nacionais, pois preferem comprar, pelo mesmo preço, uma peça da DKNY, por exemplo.










