A iniciativa do CENIT, promovida no âmbito da estratégia ModaPortugal, realizou-se no passado sábado, no MUDE, integrada no calendário oficial da ModaLisboa.
Da parte da indústria, Ana Pedrosa, head of product da Pedrosa & Rodrigues salientou a elevada capacidade técnica das fábricas nacionais. A empresa familiar trabalha sobretudo com marcas internacionais e, embora procure flexibilidade, a produção industrial continua a exigir volumes mínimos. «Indicamos normalmente 300 peças por modelo e por cor, sobretudo por causa dos mínimos de tinturaria», referiu.
Ainda assim, admitiu margem de flexibilidade em alguns casos, sobretudo quando há valor reputacional ou potencial de aprendizagem técnica, salientando que a fábrica pode ganhar ao aceitar desafios desconfortáveis. Exemplo disso foi o trabalho desenvolvido pela Pedrosa & Rodrigues no passado com Neil Barrett, que obrigou a empresa a aprender técnicas novas. «Ninguém sabia trabalhar com neoprene e termocolado», recordou. «Dissemos que sim e depois logo se via. Era extremamente desconfortável, mas ajudou-nos a desenvolver competências que depois trouxeram mais valor», apontou.
Para Ana Pedrosa, esse tipo de desafio ajuda a indústria portuguesa a requalificar-se e a afastar-se da competição puramente pelo preço.

Contudo, afirmou, a fábrica, muitas vezes, não é o parceiro certo para marcas pequenas e designers. «A fábrica não é o parceiro certo para começar», acredita. «Temos estruturas grandes e exigências tremendas para rentabilizar essas estruturas e sustentar os empregos pelos quais somos responsáveis», referiu.
Ainda assim, recusou uma lógica de porta fechada: quando não pode responder, procura encaminhar os criadores para soluções mais adequadas ao seu estádio de maturidade, como plataformas com produto pré-desenvolvido ou estruturas de apoio técnico mais leves.
Apesar de a empresa já trabalhar com ferramentas como o CLO 3D, o digital ainda é pouco explorado no segmento de luxo, onde muitos clientes continuam a preferir ver a peça em corpo real antes de tomar decisões, revelou Ana Pedrosa.
Mesmo assim, a empresa tem apostado em tecnologia, incluindo em inteligência artificial. «Estamos a treinar um LLM open source para tradução e interpretação de fichas técnicas», adiantou.
A Pedrosa & Rodrigues usa igualmente sistemas de visão computacional, em parceria com a Smartex, para controlo de qualidade de matéria-prima e deteção precoce de defeitos.
Para a head of product da empresa, o maior potencial da IA na indústria está menos na criação e mais no machine learning, automação e redução da subjetividade em áreas como o controlo de custos.
A importância de digitalizar
Para Francisco Campos, SVP Revenue & Operations do Rovo Group, digitalizar é a chave para tornar a indústria acessível, pelo que essa é uma das prioridades estratégicas da empresa: a digitalização dos cortes, moldes e fluxos operacionais.
«O desafio é resolver como operacionalizar uma linha de produção», afirmou. Sem digitalizar processos «temos um esforço manual muito grande entre cliente, parceiro industrial e desenvolvimento de produto» e «esse esforço aumenta custos e retira viabilidade à produção», acrescentou.
O problema não está apenas na produção, mas na forma como os processos ainda são geridos, insistiu, apontando como solução a existência de plataformas digitais que reduzam fricção e tornem o trabalho com pequenos clientes menos penalizador para a indústria.

No domínio da inteligência artificial, «estamos a trazer a experiência industrial para um motor de IA que avalia a submissão da customização que os nossos clientes pretendem, se é possível, em função das capacidades industriais», explicou. Ao mesmo tempo, tem um projeto para os orçamentos. «O cliente chega-nos com um produto e nós, sem falarmos com o parceiro industrial, conseguimos dar-lhe uma quotation para o produto que eles pretendem. Isto só é possível com dados históricos», explicou.
Uma experiência resultante da Assembly, uma das áreas da empresa, que tem peças já desenvolvidas – t-shirts, hoodies, bonés, tote bags – que podem ser personalizadas, e relações industriais que permitem baixar os mínimos de produção em alguns casos e automatizar grande parte do processo. «Com algumas técnicas de customização, direct-to-garment, direct-to-film, já conseguimos baixar até um mínimo de 15 unidades com tingimento em qualquer cor possível», indicou. «A partir de 50 unidades abre-se uma panóplia de técnicas de customização», acrescentou.
Da visão do designer ao produto comercial
Do lado das marcas, Ana Duarte trouxe para a conversa a experiência concreta de quem vive a tensão entre expressão criativa e necessidade comercial. «Para contar uma história precisamos sempre de peças mais elaboradas, mas também de peças comerciais», afirmou.
À frente da DuarteHajime, presente na ModaLisboa, a designer descreveu a realidade de uma marca de autor, onde o produto nasce de um processo conceptual, mas precisa de encontrar tradução em peças comercializáveis.

Ao expor um caso real de produção, Ana Duarte revelou também a fragmentação que ainda marca muitos percursos de marcas pequenas. Perante uma encomenda superior a 600 peças, mas repartida por 20 produtos diferentes, teve de mobilizar cinco costureiras e duas pequenas confeções, dividir produção por tipologias de tecido e peça, encomendar matérias-primas diretamente para diferentes destinos e assegurar internamente o corte e parte da gestão técnica.
A dificuldade em encontrar fábricas disponíveis para séries pequenas e a ausência de modelagem digital tornaram o processo ainda mais complexo. «Encontrar uma fábrica que fizesse apenas 50 peças foi muito difícil», admitiu.
Ao mesmo tempo, a designer reconheceu a importância de construir esse equilíbrio entre peças de autor e produtos mais acessíveis.
«Começámos com casacos e continuam a ser a nossa peça-chave», explicou. «Mas o que vendemos mais são camisas e calças, seguidas de t-shirts», acrescentou.
Entre a indústria e marcas de autor como a DuarteHajime vive o Design Lab, que trabalha no «desenvolvimento de produto de jovens designers e marcas que estão a começar», esclareceu a fundadora Helena Quinan.
O laboratório de design está preparado para desenvolver produto em quantidades muito reduzidas, até cerca de 50 peças. «Fazemos o trabalho anterior à produção industrial», afirmou Helena Quinan, para quem este trabalho intermédio é essencial para garantir que o produto ganha consistência técnica.
«Se não sabemos como um produto é modelado e confecionado, então o produto não está criado», considera.
Para reduzir desperdício e acelerar processos, o Design Lab aposta também em ferramentas digitais como o CLO 3D. «No nosso caso só existe peça física quando o avatar 3D foi validado», esclareceu. «Muitas correções são feitas em 3D, o que torna o processo muito mais assertivo», frisou.
Uma indústria com futuro
Apesar dos desafios, as perspetivas para a moda em Portugal são, para os intervenientes, otimistas.
Segundo Ana Pedrosa, o momento atual é marcado por uma realidade ambivalente, em que convivem perdas de capacidade produtiva com novas oportunidades para a indústria portuguesa. «Há uma transformação incrível a acontecer», sublinhou Ana Pedrosa. «Continuamos a ter excelentes oportunidades de negócio e marcas bem geridas a desenvolver produtos que fazem sentido no mercado», referiu.
Na sua leitura, essa transformação está a levar também novas marcas internacionais a olhar para Portugal como alternativa produtiva. «Temos soft power, somos facilmente auditáveis e somos reconhecidos pela inovação», enumerou. «Isso faz com que algumas marcas considerem Portugal quando estão a gerir o risco da cadeia de fornecimento», salientou.
Para Francisco Campos, a indústria terá inevitavelmente de se adaptar a novos padrões de consumo, mais conscientes e sustentáveis. «Temos de aceitar que os níveis de produção vão baixar», afirmou. «Estamos a ver as gerações mais novas a serem muito mais conscientes sobre aquilo que compram e pensam cada vez mais em reutilizar», exemplificou.
Para o SVP Revenue & Operations do Rovo Group, essa mudança poderá beneficiar a produção europeia e, em particular, Portugal. «Quando tiverem poder de compra, vão escolher produtos com responsabilidade social e ambiental e vão escolher Made in Portugal», defendeu.
Francisco Campos considera, contudo, que o futuro da moda portuguesa não depende apenas da indústria. «Precisamos de marcas que coloquem Portugal no mapa também do ponto de vista da moda», acredita.

Do lado do design, Ana Duarte mostrou-se confiante no potencial das novas gerações, que considera mais conscientes e mais preparadas para pensar o setor de forma sustentável.
«Vejo muita criatividade nas novas gerações», reconheceu. «Começam a pensar na consciencialização e no que podem fazer de diferente», acrescentou.
Para a designer, uma mudança importante passa também por uma relação mais responsável com o consumo. «Consumir menos não é necessariamente mau», defendeu. «Se as pessoas pensarem melhor no que vão comprar e investirem em peças que possam usar a longo prazo, isso também pode ser positivo para as marcas», realçou.
A importância da educação e da relação entre design e indústria foi também destacada pela fundadora do Design Lab, que trabalha diretamente com jovens criadores. «Todos os dias temos alunos que têm o sonho de seguir esta área», lembrou Helena Quinan. «Há muitas adversidades, mas temos de ultrapassá-las e fazer o melhor possível. Acredito que vai dar certo», concluiu.











