Costureiras assumem fábrica

Buenos Aires mostra o que um grupo de costureiras é capaz de fazer para manter o seu posto de trabalho. Se não fosse a força de vontade destas pessoas, este seria mais um caso de desemprego entre milhares na Argentina. Depois dos donos da Brukman Confecciones, terem abandonado a empresa a 18 de Dezembro, cerca de 50 funcionários permaneceram nas instalações, produzindo e vendendo roupas masculinas. No entanto, o futuro destas pessoas é incerto. «Não queremos ser donos, somos costureiras, só queremos trabalhar», desabafa Célia Martinez, de 47 anos de idade, mãe de cinco filhos e uma das “companheiras de Brukman”, como são conhecidos os 10 homens e 40 mulheres que assumiram a produção da fábrica. No entanto, nem todos os funcionários optaram por permanecer na fábrica. Com 115 funcionários, mais de metade decidiu lutar por indemnizações. Também o sindicato dos trabalhadores têxteis, se opôs a esta situação, dado que pretendia usar os bens da Brukman para saldar dívidas e pagar ordenados em atraso. Mas um mês após a ocupação, as “companheiras de Brukman” voltaram ao trabalho. Os fornecedores que anteriormente se recusavam a receber os Brukman, deram-lhes um voto de confiança, tendo as costureiras pago já as dívidas do gás e da luz. Para já o stock está a ser mantido com o mesmo tecido usado no passado para confeccionar marcas como a Christian Dior, Yves Saint Laurent e Ralph Lauren. Os compradores, são agora pequenos comerciantes ou pessoas que aparecem na fábrica à procura de roupa bem confeccionada. O Ministério do Trabalho está à procura de uma solução para esta situação que não é inédita na Argentina. Entretanto, os Brukman querem a desocupação imediata das instalações e a possível retomada da produção em poucas semanas. O governo mediou as negociações, tendo ordenado o pagamento dos salários com a venda dos stocks existentes. No entanto, as “companheiras” receiam perder o seu posto de trabalho, preferindo que o governo cobrasse as dívidas aos empresários e adquirisse a empresa. «Poderíamos produzir aventais para médicos e uniformes escolares, que fazem muito mais falta neste momento do que roupas masculinas. E poderíamos ter mais 200 pessoas a trabalhar», garante Célia, uma das funcionárias. Apesar de terem recusado, alguns partidos de esquerda tentaram transformar as “companheiras de Brukman” numa bandeira nacional contra a crise argentina. «Eles vêm-nos apoiar, mas só da porta para fora. Aqui dentro só queremos manter a fábrica em actividade», diz Nilda, outra das funcionárias. Apesar de tudo, restam ainda as boas recordações que estas funcionárias tinham dos tempos vividos naquela fábrica. «No passado vivíamos felizes. Tínhamos orgulho de trabalhar aqui. Os Brukman eram bons patrões, pagavam tudo em dia. No fundo, eu respeito-os. Gostaria que fizessem uma boa proposta e voltássemos a trabalhar. Se isso acontecer, vamos dizer que cuidamos da empresa deles durante os saques», afirma Célia.