Continuamos a ser motor da inovação”

A Dupont anunciou a formação da DuPont Textiles & Interiors (DTI), uma nova subsidiária (de que detém a totalidade do capital), que se tornou na maior companhia mundial de fibras têxteis e interiores, com um volume anual de vendas de 6,5 biliões de euros e 22 mil trabalhadores. O grupo está a estudar opções estratégicas para a DTI, incluindo uma OPV. Isabel Marcos, directora da DTI em Portugal, revela ao JT a estratégia da empresa e traça um diagnóstico da ITV. Jornal Têxtil – Comecemos pela actualidade, a OPV da DuPont Textiles & Interiors (DTI) em finais de 2003… Isabel Marcos – Para a DuPont, a melhor estratégia é separar o grupo têxtil pois já não apresenta os resultados que pretende como empresa cotada na bolsa e que quer cumprir com as promessas de rentabilidade que fez aos seus accionistas. Assim, está prevista a colocação da DTI na bolsa de Nova Iorque até finais de 2003. Mas não podemos prever o futuro, na medida em que, surpreendentemente, a DTI tem apresentado bons resultados nestes últimos meses, o que contraria estas expectativas. E não está fora de hipótese começar a apresentar níveis de rentabilidade interessantes com todas as remodelações e investimentos que a DTI vai realizar. JT – O recente despedimento de dois mil empregados tem a ver com questões de eficiência e de competitividade da empresa? IM – Exactamente. Queremos ser uma empresa assumidamente têxtil e tem que ser a mais competitiva no mercado onde está inserida. Isso passa pela redução e racionalização dos recursos. A DTI, ao sair da DuPont quer tornar-se mais competitiva, quer gerir os seus próprios fundos para investir naquilo que para esta área vale a pena. Realizámos uma série de inquéritos aos retalhistas em todo mundo e quando perguntámos se queriam mais apoio a nível de marketing, de confecção ou de pós-venda, o que eles nos pediram foi mais inovação. Foi o primeiro requisito do retalho em relação a um produtor de fibras. Até criámos um novo pelouro dentro da Dupont com um dos nossos directores mais capazes, a que chamamos Innovation Council, para congregar os esforços todos de inovação que a DTI em todo o mundo faz para a área têxtil. Em 1938 criámos o nylon, em 1959 apresentámos a Lycra, duas das fibras mais importantes hoje em dia em qualquer mercado, sobretudo nos collants e nos artigos de banho. JT – E como foram os resultados da DuPont? IM – O primeiro semestre a nível mundial foi muito bom. Na Europa há sectores que estão a desenvolver-se ainda com alguma timidez, mas estes valores entusiasmam-nos em rela-ção ao mercado americano, cuja produção têxtil tem decrescido consideravelmente. Em Portugal há uma estagnação em relação ao ano passado, o que apesar de tudo é bom dada a conjuntura actual. Segundo conversas que temos tido com os clientes, nota-se uma grande fragilidade na área de malhas e dos tecidos sintéticos. Os tecidos em geral, parece que estão bem. A maioria dos nossos clientes da área de tecelagem têm uma boa carteira de encomendas, apesar de ser a curto prazo, como hoje em dia acontece, mas houve alguns que me disseram que até Setembro estavam cheios de encomendas. Os nossos clientes desta área que se especializaram e que investiram continuam a vender. Na área das malhas é que infelizmente há informação de empresas grandes, e boas, que estão a ter mais dificuldades do que no ano passado. Na zona de Barcelos, que é o centro deste segmento, é mais preocupante. Hoje em dia é fundamental ter contacto com o consumidor final. Os malheiros, que não têm acesso ao cliente final, é que estão com menos encomendas. Nos nossos negócios, sobretudo de Lycra, não estamos a ter quebras acentuadas porque a penetração na margem que ainda temos desse mercado permite-nos crescer, mas a produção penso que desceu. Por outro lado, na área do nylon, que é a área que nos toca de perto neste momento, os negócios já não estão tão promissores. JT – Como está o mercado das fibras sintéticas? IM – As fibras sintéticas não estão actualmente na primeira fila da moda. Há menos consumo do que havia há alguns anos atrás e os preços de algumas fibras naturais têm vindo a decrescer. Por tudo isto, as nossas vendas também apresentaram uma ligeira queda. Há dois ou três anos atrás as mulheres usavam muito tops, e eram quase todos de poliamida e elastano. Neste momento voltou-se à camisa e à blusa, que são artigos basicamente de algodão. Apesar deste decréscimo, as fibras sintéticas ainda se usam muito, e a nossa esperança é que, como a moda é cíclica, ainda venhamos a assistir a uma recuperação brevemente. Estamos a trabalhar muito com novos designers, temos novos projectos para a Europa e América do Sul, para estimular de novo a procura. A Lycra foi o produto estrela da DuPont durante muitos anos. Hoje já não terá este destaque, mas é um produto ainda muito interessante desde que se juntou com o nylon. No vestuário, o nylon não é um negócio onde a DuPont ganhe dinheiro, se consolidarmos os números acabamos por ter taxas de rentabilidades mais baixas. No poliéster, são áreas em que entramos em produções muito elevadas a nível mundial em que há muitos concorrentes e os negócios acabam por ter margens muito mais baixas. No vestuário exterior é onde temos neste momento um potencial de crescimento muito grande. É apenas necessário um esforço de marketing para que as nossas fibras entrem nessa área. JT – Queria que apresentasse a “biblioteca têxtil on-line” que a DuPont inaugurou no inicio do ano… IM – No fundo é uma ferramenta para facilitar o “sourcing” a nível mundial, é permitir aos nossos clientes em qualquer parte do mundo que possam aceder aos mercados onde ainda não se encontram, assim como fornecer às cadeias de retalho os nomes dos grandes produtores, para poderem comprar tecidos com os nossos produtos mais rapidamente e de uma maneira mais eficiente. Depois de vários estudos, concluímos que são elevadíssimos os custos de deslocação dos compradores de tecidos que procuram os nossos produtos. A DuPont fornece assim a possibilidade Às marcas e aos retalhistas de, via Internet, ver e tirar amostras de tecidos confeccionados com as nossas fibras. JT – Como avalia a conjuntura a nível mundial? IM – Eu creio que estamos a atravessar períodos muito estimulantes. Por um lado vemos que a indústria têxtil na Europa e na América pode estar a em declínio, mas o consumo não pára, está constantemente a subir, só que quem está a produzir são outras regiões do mundo e nós não queremos perder esse barco. JT – E a nível nacional? IM – Pessoalmente, eu já estou na área têxtil há 10 anos, e aquilo que eu vi foram belíssimas transformações em muitas empresas portuguesas. Foram muito rápidas a mudar e a investir em design e em colecções, sobretudo na área dos tecidos. Na área das malhas há também situações dignas de louvor. Não foram no entanto tão rápidas e eficientes, eu diria, e são essas empresas que sofrem com este período de recessão, porque a instabilidade a nível das empresas responsáveis pelas grandes encomendas é muito significativa, e isso é o maior drama da indústria têxtil portuguesa. Neste momento não somos competitivos a nível de mão-de-obra e toda a empresa que seja mão-de-obra intensiva acaba por ir parar aos países de Leste, à Àfrica ou à Ásia. Eu gostava de acabar com uma nota positiva, porque é um raciocínio que anda na mente de muita gente da área têxtil, que é quanto mais se disser que a nossa indústria está mal lá fora pior é. No retalho Europeu generaliza-se a ideia de que o nosso país é caro, e depois não nos visitam, não fazem cá a confecção, já não compram malhas, nem tecido, nem utilizam os acabamentos portu-gueses. Há que melhorar a produtividade, a qualidade e o design, mas Portugal tem muito para oferecer. E os meios de comunicação social especia