Consumo e ética em convergência: Parte 2

A implementação de regras de responsabilidade social que garantam o bem-estar de todos os intervenientes na cadeia de fornecimento, é ainda um objectivo distante. No entanto, os primeiros passos já foram dados (ver a primeira parte no Portugal Têxtil). Questões sobre o salário mínimo De acordo com Jeremy Hobbs, director-executivo da Oxfam International, grupo internacional de defesa dos direitos humanos, uma das lacunas em muitos códigos de conduta é o facto de estipularem o pagamento do salário mínimo legal. No entanto, em diversos países, o salário mínimo estipulado por lei não está de acordo com os custos de vida dos trabalhadores. Neste aspecto, os governos locais têm também um papel a desempenhar, assegurando que a legislação laboral é implementada de forma adequada e efectiva. Melhores decisões Assumindo uma postura franca perante os desafios que existem, o gigante norte-americano Gap Inc é um dos retalhistas que tem prestado mais atenção às suas próprias práticas, de forma a compreender como melhorar as suas decisões. Segundo Dan Henkle, vice-presidente de responsabilidade social da empresa, já foram registadas melhorias, mas acrescenta que se está a tornar cada vez mais claro o facto dos compradores desempenharem um papel de relevo nas condições laborais das unidades de produção. O atraso na aprovação de testes laboratoriais ou as mudanças de última hora nas cores, por exemplo, originam o desperdício de tempo de produção e dificultam o cumprimento dos prazos de entrega por parte dos fornecedores, o que por sua vez pode gerar horas extraordinárias e o recurso à subcontratação não autorizada. Os responsáveis pelo aprovisionamento têm também expectativas irrealistas em relação aos custos, rapidez e limites de produção. As oportunidades de melhoria centram-se em trazer os compradores para o interior do processo, educando-os e aumentando a consciência sobre o impacto das suas decisões. Henkle acrescenta ainda que o respeito pelas regras de responsabilidade social podem representar uma situação vantajosa para todos. De acordo com a experiência deste responsável, as fábricas com melhores níveis de cumprimento, possuem aparentemente produto de melhor qualidade e melhor resposta aos prazos de entrega, o que gera lucros maiores. Aprovisionamento e ética De acordo com Jacki Belchambers, director de responsabilidade social na rede britânica de retalho de moda New Look, é fundamental que os compradores compreendam a ligação entre a compra e o efeito ético. Devem ser estabelecidos prazos realistas, na medida em o planeamento atempado é fundamental para eliminar a pressão nas fábricas, deve também existir comunicação para avaliar o impacto causado pelas práticas implementadas. No entanto, Belchambers também refere que por cada passo em frente no sentido de melhorar o impacto da aquisição de vestuário, a pressão comercial, a mudança de trabalhadores e as alterações nas chefias podem frequentemente atrasar o progresso conseguido. Uma solução viável? A questão chave prende-se indubitavelmente com o que pode ser feito para conseguir uma solução viável entre as práticas de aprovisionamento de retalhistas e marcas, e o impacto dessas práticas nos trabalhadores do sector de vestuário. A adopção de uma abordagem positiva ao aprovisionamento é uma via possível, onde um retalhista ou uma marca revê o caminho critico do processo de aprovisionamento e realiza ajustamentos de forma a permitir ao fabricante mais tempo para a produção do produto. Outra solução pode passar pelo balanceamento dos planos de produção através da distribuição mais equilibrada das encomendas ao longo do tempo. Outra via pode passar pela introdução de uma espécie de “balanced scorecard” com o objectivo de avaliar o desempenho dos valores éticos, com base nesta avaliação seria dada prioridade aos fornecedores que implementem as normas de trabalho internacionais. Os fornecedores podem também ser incentivados à responsabilidade social, com base num sistema de recompensas para as melhores empresas, que beneficiariam de mais encomendas ou de prioridade no preenchimento da carteira de encomendas. Para além destas eventuais medidas, os compradores necessitam de mais formação ao nível das normas de ética, do papel que desempenham e no impacto das suas decisões sobre os trabalhadores. Os comprados devem incluir critérios éticos, em paralelo com o custo e a qualidade, ao seleccionarem os fornecedores, e reflectir os custos de vida do trabalhador nos preços que pagam. Claro que um dos principais motivadores para encorajar os retalhistas e as marcas a integrar a responsabilidade social nas funções de design e aquisição, é o valor que gera ao negócio para além do bem-estar dos trabalhadores. Aparentemente existem evidências de que um bom negócio e boas condições de trabalho estão inexoravelmente ligados, na medida em que uma força de trabalho bem paga e bem formada é capaz de ser mais profissional e mais produtiva. Ao aumentar os níveis de exigência das principais marcas e retalhistas, é de prever que as outras sigam o exemplo. Mas os consumidores também desempenham um papel no meio disto tudo. Muitos estão cada vez mais a exigir informação sobre onde os produtos são fabricados, podendo em última análise pressionar as empresas a mudar a forma como realizam o negócio.