Consumir com responsabilidade – Parte 2

A vaga ética e ecológica que tem assolado a sociedade tem aumentado a consciência dos consumidores, que procuram colaborar com pequenos gestos e mostram-se mais informados sobre estas questões (ver Consumir com responsabilidade – Parte 1). No seu estudo, o Institut Français de la Mode (IFM) procurou também saber quais são as noções de comércio ético dos franceses e quais as suas exigências em termos de oferta de vestuário e acessórios. Na sondagem, os consumidores puseram em destaque dois temas que consideram primordiais: a eliminação do trabalho infantil e o respeito pelas condições de trabalho dos assalariados. Estas duas exigências extremamente consensuais não constituem, contudo, um factor de progresso, na medida em que são satisfeitas pela maioria das grandes marcas internacionais, que tem multiplicado os controlos aos seus fornecedores neste domínio. Dito de outra forma, segundo o instituto, não se trata de factores de adesão a um lançamento mas sobretudo causas de rejeição em torno das quais se poderá formar um boicote, se uma marca for apanhada em falta. Além destas duas exigências incontornáveis, o conjunto das outras dimensões sociais e ambientais têm graus de importância similares para cada indivíduo: a protecção do meio ambiente, a ajuda às populações desfavorecidas ou a utilização de produtos reciclados. Mais recentemente, as críticas visando os produtos, a uniformização e o carácter muito “imposto” da moda vieram juntar-se às preocupações éticas essencialmente em relação às condições de fabrico. De sublinhar, de acordo com o IFM, o facto de 41% dos consumidores terem sentido uma deterioração da relação qualidade-preço do vestuário nas marcas e 27% nas cadeias. O recurso à produção longínqua, nomeadamente chinesa, é frequentemente destacado como causa da diminuição sentida na qualidade. E face à oferta de moda ética, os franceses exprimem sobretudo exigências em matéria de qualidade e durabilidade. Para a maioria dos indivíduos, o “vestuário responsável” é, em primeiro lugar, vestuário de qualidade. Muitos questionam mesmo se a própria noção de ética não pressupõe uma forma de honestidade que pretende que o preço pago por um produto corresponda à qualidade real da peça de vestuário. Apesar da evolução, nota o IFM, o sector têxtil e de vestuário não é considerado como particularmente virtuoso pelos franceses: uma boa parte dos consumidores considera, contudo, que se fizeram muitos progressos na produção de vestuário para a tornar mais “responsável”. 48% da população acredita que as marcas de moda respeitam, em geral, os critérios éticos tanto quanto os outros sectores de actividade, mas uma forte minoria (38%) ainda acha que a ITV os respeita menos do que outros sectores e raros são aqueles que acreditam que as marcas de vestuário são exemplos a seguir em termos de comportamento responsável (6%). Para uma parte significativa dos franceses, o vestuário deverá por isso, mais do que outros sectores, levar a cabo mudanças para se “moralizar”. O IFM constatou igualmente que, qualquer que seja a implicação pessoal face a estes debates na sociedade, a maioria dos franceses está hoje desconfiada face ao discurso que acompanha as iniciativas éticas na moda. Os trendsetters e os mais sensíveis à questão do desenvolvimento sustentável estão mais desconfiados, supondo mesmo que certas marcas fazem greenwashing (brandir argumentos ecológicos nem sempre comprovados) em torno de questões vitais a seus olhos. A necessidade de transparência e de segurança para com os consumidores, neste momento, acaba por se traduzir muitas vezes em confusões relativas aos discursos em volta do biológico e do ético, misturadas com noções vagas e muitas vezes de difícil compreensão, e apoiando-se, no máximo, em rótulos muitas vezes desconhecidos. Neste contexto, um rótulo representará, para uma larga minoria (38%), uma forma simples de reconhecer os produtos que respondem a critérios de cidadania, perante a marca (23%), o país de produção (23%) e a insígnia (13%). Actualmente, os rótulos pecam em número, falta de visibilidade, carácter pouco explicativo e debilidade dos seus meios de comunicação, refere o IFM. A importância atribuída ao país de produção, nomeadamente junto das pessoas com mais de 40 anos, reflecte as inquietudes sobre a desindustrialização da Europa e as tentações proteccionistas: assim, os consumidores que fazem parte dos grupos qualitativos reunidos pelo IFM mostraram que não têm qualquer ilusão sobre a proveniência do vestuário que compram, qualquer que seja o nível da gama, sabendo que os preços baixos são sistematicamente associados com as produções chinesas, pouco valorizadas. Mas no inquérito quantitativo, 68% dos franceses exprimem o seu acordo com a preposição “uma peça de vestuário responsável deve ser fabricada em França ou na Europa”. A moda “responsável” está ainda balbuciante e, por isso, todas as iniciativas são certamente boas, quer sejam de novos actores ou de marcas e insígnias estabelecidas, desde que estas sejam cumpridoras e honestas e, igualmente, que continuem a fazer sonhar os consumidores: dito de outra forma, um produto de “moda responsável” deve seduzir, renovar-se, ser desejável, mas também acessível, valorizando o acto de consumo. Numa altura em que a guerra dos preços está a aumentar e o preço baixo parece tornar-se um dos principais critérios de compra, os actores da moda europeia devem, segundo o IFM, analisar novas áreas, após os anos de banalização e de massificação recentes, e darem um novo impulso que valorize a qualidade, a criatividade, a diversidade e a proximidade.