Comprar em Cabul

Apesar de Cabul ser a capital de um país destruído pela guerra, com o cair da noite começa a surgir um vibrar que persiste mesmo após três décadas de conflito. Armas, guardas e soldados estão em toda a parte. Mas também estão os mercados e os clientes, que arriscam as suas vidas atravessando estradas caóticas repletas de tudo: carroças puxadas por animais, automóveis novos e veículos militares. No labirinto das ruas e vielas empoeiradas, os buracos profundos determinam o lado da estrada que os condutores optam por usar. Ao caminhar por Chicken Street, é quase possível esquecer que existe uma guerra. As lojas que oferecem jóias, peles, cachecóis e chapéus afegãos, procuram chamar a atenção ao lado de talhos e cambistas que realizam as suas operações em tendas na própria rua. Homens barbudos em roupas largas, envoltos em lenços e turbantes contra o frio intenso, conversam e fazem negócios. Mas as mulheres são escassas. Das poucas que se arriscam a sair, algumas utilizam a burca, conotada no Ocidente como símbolo da extrema subjugação das mulheres sob o antigo regime talibã. Mas muitas delas carregam crianças de colo e mendigam, sugerindo que a burca, para além de esconder a face, pode por vezes servir mais para esconder a vergonha, do que propriamente responder aos códigos de vestuário impostos pelos talibãs, anos depois de serem expulsos pela invasão liderada pelos EUA em 2001. Apesar da ameaça de rapto, seja por talibãs ou grupos criminosos, para um ocidental, um breve passeio pela Chicken Street é passível de ser perturbado por pouco mais do que a atenção entusiasmada dos meninos de rua. Mas o barulho repentino de uma frota de helicópteros militares é um lembrete de que o Afeganistão teve pouco descanso do conflito nos últimos 30 anos. Apesar de tudo, como os habitantes urbanos em todo o mundo, muitos estimam a sua cidade. «Vivi toda a minha vida em Cabul», afirma Mohammad Siddique, de 48 anos, motorista de uma empresa internacional que se descreve como “uma história viva” dos anos de conflito. «Vi muita guerra, mas nunca sai de Cabul e gosto da minha cidade», acrescenta Doug Wankel, um ex-responsável da US Drug Enforcement Administration, que viveu durante dois anos em Cabul antes da invasão soviética de 1979, regressou em 2004 e permaneceu desde então. «Gosto do povo afegão, é muito forte, orgulhoso e independente. Os afegãos são bons amigos e podemos contar com eles», diz Wankel, agora sócio-gerente da empresa de segurança Spectre Group International. As janelas na sua casa foram estilhaçadas por um recente ataque suicida em Cabul. «É o preço de fazer negócios no Afeganistão, mas ainda vale a pena», prossegue Wankel. Apesar da atitude aventurosa dos cidadãos de Cabul, eles enfrentam uma guerra em rápida escalada. No ano passado, o número de civis mortos no conflito saltou para 2.412 pessoas, transformando o ano 2009 no mais mortal para os afegãos comuns desde a invasão liderada pelos EUA, segundo a ONU. O ano passado foi também o mais mortífero para as forças estrangeiras na luta contra os talibãs, com 520 soldados mortos, contra 295 no ano anterior, na medida em que a insurreição tem aumentado e espalhado. Mas a carnificina não é nada de novo para o Afeganistão ou para Cabul. No pátio da Gandamack Lodge, baptizado com o nome de uma batalha que ocorreu em 1842, um antigo canhão permanece como uma recordação da desastrosa e sangrenta invasão do Afeganistão pela Grã-Bretanha, há mais de 150 anos atrás.