Como se trabalha na China? – Parte 2

No seguimento da explicação do poder da ITV chinesa e de algumas opiniões de industriais chineses na Parte 1 deste artigo, analisamos agora a sua capacidade de recuperação. Deslocalização dos acabamentos Jimmy Lau, director geral da Chung Tai, olha os campos de ténis existentes nas imediações da empresa para os 4.000 trabalhadores que vivem nos blocos cor-de-rosa, também nas imediações da empresa. Existem duas instalações para as mulheres, uma para os homens e uma para casais. Recebem diariamente três refeições grátis, têm direito a sete a dez dias de férias e ganham mensalmente entre 1.000 a 1.2000 Yuan, ou seja, entre 105 a 125 euros. «Há cinco anos atrás o vencimento era ainda 600 Yuan», afirma Lau. As costureiras olham de relance e logo baixam as suas cabeças com os bonés brancos para prestar atenção às montanhas de sutiãs à sua frente, alinhadas em filas intermináveis de corredores gigantescos. O especialista de lingerie produz cerca de 50.000 conjuntos por mês para a Tchibo, S.Oliver and Palmers, DKNY e Calvin Klein. Tudo segundo processos totalmente automatizados. Alfonso Gálvez, do produtor espanhol de swimwear Redpoint, revela-se impressionado com o sistema de corte computorizado. Na escola de formação, um grupo de jovens de 18 anos originário do noroeste da China está a ter formação. «Depois do fim das quotas tornou-se mais difícil encontrar trabalhadores. Todos aumentaram a sua capacidade de produção e queriam exportar grandes quantidades. A falta de mão-de-obra tornou-se no nosso maior problema aqui no Sul, uma vez que no Norte começaram a surgir mais fábricas e as pessoas já não se queriam afastar tanto de casa», revela Jimmy Lau. «Também a Chung Tai empregou mais 1.000 trabalhadores no início do ano e apesar de nem sempre todos estarem ocupados a grande maioria está». A Chung Tai não se preocupa muito com as quotas. A empresa já estava à espera de novas limitações e tinha por isso no ano anterior aberto uma sucursal em Hong Kong onde faz os acabamentos. «Esta mudança de local resulta num aumento dos custos de produção de 20 por cento que não se vai reflectir no preço final, uma vez que a confiança e parceria com os nossos clientes são os factores mais importantes para nós», sustenta Lau. No total, a empresa fundada em 1974 pela Sun Hing Industries Holding, emprega mais de 12.000 pessoas distribuídas por onze filiais em toda a China. Os melhores clientes dormem numa casa de hóspedes com quarenta quartos, piscina e uma maravilhosa vista para o mar, que assegura o abastecimento de água da empresa para a fiação e a tecelagem. Muito longe Três horas é o tempo que o autocarro demora a percorrer ossinuosos caminhos. Não existem mapas de estradas e, mesmo que os houvesse, na próxima visita já não serviriam de nada. Muitas vezes os próprios donos das empresas não encontram as suas fábricas quando se ausentam por umas semanas de Hong Kong. Por cinco dólares de Hong Kong, jovens em motorizadas indicam o caminho para as fábricas. Pouco depois das cinco, os trabalhadores da empresa de vestuário exterior de senhora High Fashion partem para casa. A este grupo fundado em 1987 pertencem 15 empresas, com um total de 13.000 trabalhadores, uma unidade própria de produção de seda em Hangzhou, escritórios em Londres, Nova Iorque e desde há um ano atrás, também em Itália. No showroom podem ver-se saias de seda floridas da Calvin Klein, vestidos brilhantes de cocktail da Valentino e fatos às ricas da Armani. Também Betty Barclay, Oui, Gerry Weber e desde há uma semana atrás a Mango, produzem aqui. O produtor espanhol de vestidos de noite David Farré e a sua esposa Maria de Ramos Novell observam as peças. «Boa qualidade e 16 dólares por uma saia de seda é um bom preço», afirma rapidamente Ferré e recolhe um dos folhetos informativos. Uma encomenda mínima de 300 saias é igualmente aceitável. Quotas? Não se preocupa com isso, mas a directora de marketing, Sónia Kam já não pensa da mesma forma. «Apesar de cada vez mais apostarmos na qualidade e não na quantidade, a reposição das quotas foi tambémum choque para nós», afirma ela. Felizmente, o grupo tem a sua sede em Hong Kong e um parceiro em Macau. A 200 km de distâcia em Zhongshan, Liu Jun Quan, director-executivo da Shaxi Hi-Fashion, afirma que«queremos comprar quotas no próximo ano, mas não sabemos muito bem como o sistema funciona. De qualquer modo, vai custar-nos muito dinheiro». Quan gostaria mesmo de voltar ao tempo das “velhas” quotas. Nessa altura, tudo era bem claro e as empresas sabiam com o que contar. Agora, tudo é caótico. Prefere abandonar o assunto e falar da nova colecção do fundador da empresa Mark Cheung, um dos designers chineses mais conhecidos. Um grupo de mulheres sentadas entre ventiladores trabalham em vestidos de seda e cosem lantejoulas coloridas nos decotes. Para esta produção de alta-qualidade, as quotas não são tão importantes. O factor mais decisivo é a imagem do artigo chinês, que na opinião de Liu é muito má. «É por essa razão que não temos clientes alemães, mas esperamos que a curto prazo abandonem esse preconceito». Em Zhongshan, muitas empresas produzem vestidos de noite, mas nenhuma com esta qualidade superior e com tanto trabalho manual. Um vestido destes custa pelo menos 40 dólares. O designer Antoni Francesc Ortega é de opinião que é um preço justo e tira uma fotografia. Na Parte 3 e última deste artigo exemplifica-se o investimento em maquinaria e como outros países se rendem ao poder do gigante da Ásia.