Como o dever de diligência vai afetar o sourcing

As marcas e os retalhistas de moda estão a ser advertidos para redobrarem a implementação de práticas de compras responsáveis para garantirem a conformidade com a nova diretiva de devida diligência aprovada pela UE.

[©Ethical Trade Initiative]

Ao longo das últimas décadas, à medida que os consumidores se habituaram à moda barata e o seu apetite pelas tendências mais recentes se tornou insaciável, as marcas e os retalhistas de moda procuraram fornecedores que oferecessem o preço mais baixo e que fossem capazes de entregar as encomendas em tempo recorde, sublinha um artigo publicado pelo Just Style.

O ciclo perpetuou-se, ao ponto de hoje, sobretudo em mercados menos desenvolvidos, os fornecedores, face aos preços reduzidos pagos pelos compradores, estarem a economizar em questões relacionadas com a saúde, segurança e bem-estar dos trabalhadores de forma a garantir as encomendas.

Para complicar ainda mais a situação está a procura por moda sustentável por parte dos consumidores, cada vez mais interessados em saber que as fibras e os processos usados na produção são mais sustentáveis.

Até agora, a responsabilidade estava limitada ao fornecedor, mas Diretiva de Devida Diligência em Sustentabilidade Corporativa (CSDDD), aprovada em março pela UE, está a introduzir mudanças, prevendo que marcas e retalhistas são responsabilizados pelas suas práticas de compras.

«As práticas de compra estão estreitamente interligadas com regulamentos e quadros nacionais como o CSDDD, sublinhando a necessidade de as empresas se adaptarem para mitigar os riscos e garantir a conformidade com a legislação existente e emergente», aponta a Ethical Trade Initiative (ETI).

A coligação, que tem como missão a melhoria dos direitos humanos nas cadeias de aprovisionamento, sustenta que é essencial que as empresas façam análises minuciosas das suas práticas de compra, para identificar áreas a melhorar e recolher feedback dos fornecedores.

«Ao examinar o impacto das decisões de compra nos direitos humanos, as empresas podem minimizar proativamente os resultados negativos e defender os padrões éticos», acrescenta a organização.

Mitigar riscos

A nova legislação transfere a maior parte do ónus para as marcas e retalhistas. «Será mais difícil para os compradores de vestuário transferirem totalmente os riscos e custos associados à transição para uma indústria mais sustentável para os produtores de vestuário… vai criar condições de concorrência mais equitativas, com melhores oportunidades para melhorias reais no ambiente e nos direitos humanos», acredita Matthijs Crietee, líder do projeto STTI na Internacional Apparel Federation (IAF).

O não cumprimento da legislação resultará em sanções por parte das autoridades administrativas nacionais, incluindo multas de até 5% do volume de negócios mundial das marcas e retalhistas em incumprimento. E, de acordo com o escritório de advocacia Baker McKenzie, as partes afetadas podem apresentar reclamações diretamente contra as empresas por danos decorrentes de violações intencionais ou negligentes das suas obrigações para garantir uma aplicação eficaz.

Kate Lewis, diretora de associação na ETI, sublinha, ao Just Style, que «a falha na implementação de práticas de compras responsáveis põe em risco os trabalhadores e a cadeia de aprovisionamento, a reputação e a sustentabilidade do negócio da própria marca».

A ETI delineou um quadro comum para práticas de compras responsáveis, com o objetivo de orientar as empresas no envolvimento com as partes interessadas e na implementação de melhorias tangíveis nos seus processos de compra.

«As práticas de compras responsáveis ​​têm o potencial de reduzir significativamente os impactos adversos nos direitos humanos dos trabalhadores nas cadeias de aprovisionamento. Podem apoiar e permitir a melhoria das condições de trabalho, a implementação de salários dignos e um melhor planeamento e sustentabilidade empresarial para todas as empresas envolvidas. As marcas de vestuário e os trabalhadores que produzem as suas roupas podem beneficiar da adoção de práticas de compra responsáveis. Estarão também em melhor posição para cumprir os requisitos da legislação emergente, que sublinha a sua importância, e a necessidade de as empresas mitigarem os riscos através da devida diligência em matéria de direitos humanos e de uma conduta empresarial responsável», enumera Kate Lewis.

Além disso, «as práticas de compras responsáveis alimentam uma cadeia de aprovisionamento mais estável e melhorias de eficiência na comunicação, planeamento, políticas e processos de compra», acrescenta.

«Esta é uma oportunidade para criar condições de concorrência equitativas para as empresas que comercializam na ou com a UE, para tornar a realização da devida diligência em matéria de direitos humanos a norma e para melhorar as condições de trabalho em todo o mundo», conclui Peter McAllister, diretor-executivo da ETI.