Comércio esmorece entre China e Rússia

O sentimento russo em relação ao afluxo chinês é misto. Ao longo dos últimos anos, os russos têm-se deslocado à escassamente povoada região do extremo oriental do país, sete fusos horários a leste de Moscovo, para comprar os produtos mais baratos que passam a fronteira trazidos por comerciantes chineses ou mesmo por cidadãos russos que trabalham para eles. Mas os russos têm permanecido profundamente desconfiados em relação à hegemonia chinesa. E agora, a crise económica internacional está a originar o esmorecimento deste comércio, talvez pela primeira vez em uma década. O abrandamento económico está a empurrar a Rússia para a sua primeira recessão em dez anos e esta é uma má notícia para os cerca de 2.000 comerciantes chineses que trazem as suas mercadorias através da fronteira, para o mercado localizado na região de Khabarovsk. A consequência tem sido a diminuição acentuada dos preços praticados pelos comerciantes chineses. O comércio entre a China e a Rússia deveria atingir um valor entre os 60 e os 80 mil milhões de dólares (entre os 42,58 e os 56,78 mil milhões de euros) por ano até 2010, mas esta previsão dificilmente se irá verificar. Na extremidade ocidental da Rússia, onde os dois países coexistem numa proximidade desconfortável, as relações são tensas, tanto pelo fosso económico como cultural. «Para nós, o comércio tem sido muito mau desde o final do ano passado. A queda no valor do rublo face ao dólar tornou as importações mais caras e os cidadãos russos têm menos dinheiro por causa da crise», refere Chan Tseluk, uma comerciante chinesa de peles. No mercado onde Chan trabalha, a apenas 30 km da fronteira chinesa, homens chineses reúnem-se à volta de um tabuleiro de mahjong e milhares de caixas, amontoadas sobre carros de mão, ladeiam as vielas estreitas entre barracas que vendem de tudo, desde carretos de pesca a jantes de automóveis. Neste mercado, poucos sinais estão em russo. Chan, originária da cidade de Harbin, no Norte da China, afirma que a procura tradicional pelas peles que vende, concebidas para resistir a temperaturas de -40ºC, está a desaparecer. Os comerciantes de produtos mais económicos também concordam. A China é o segundo maior parceiro comercial da Rússia, depois da União Europeia. As exportações chinesas constituem cerca de um décimo do total das importações da Rússia e o comércio bilateral entre os dois países chegou aos 48 mil milhões de dólares em 2007, registando um aumento de sete vezes desde 1996. Os vizinhos esperam ainda alargar os laços económicos através do conjunto de países do BRIC (Brasil, Rússia, índia e China). A China, que é extremamente dependente de energia, está empenhada em assegurar o acesso aos minerais e à madeira da Rússia. O China Development Bank acordou este ano um empréstimo de 25 mil milhões de dólares às empresas petrolíferas russas, em troca de petróleo bruto suficiente para durar 20 anos. A Rússia está agora a construir um sistema de transporte tubular para enviar o petróleo dos novos campos da Sibéria para a fronteira. A própria região de Khabarovsk, a quarta maior em termos de território, produz ouro e madeira e espera, em breve, vender o novo avião de passageiros Sukhoi no mercado mundial. Por outro lado, a China vende vestuário, calçado e produtos domésticos para os consumidores russos. Mas estes clientes têm menos dinheiro disponível e o comércio é menos rentável desde que o rublo perdeu um terço do seu valor face ao dólar.