O estudo, realizado pelo Royal Melbourne Institute of Technology (RMIT) e publicado na revista Nature Cities, analisou o percurso de resíduos têxteis e vestuário descartado em cidades como Amesterdão (Países Baixos), Austin (EUA), Berlim (Alemanha), Genebra (Suíça), Luxemburgo, Manchester (Reino Unido), Melbourne (Austrália), Oslo (Noruega) e Toronto (Canadá). O padrão é consistente na maioria das cidades ocidentais, desde Melbourne a Manchester: exportação, aterros ou abandono no ambiente.
Estima-se que, anualmente, os resíduos têxteis a nível global atinjam 92 milhões de toneladas, podendo duplicar até 2030.
As lojas de caridade, que tradicionalmente lidam com grandes volumes de vestuário usado, enfrentam dificuldades crescentes. O estudo destaca que, devido à baixa qualidade das peças doadas e à ausência de incentivos económicos, muitas dessas organizações vendem artigos valiosos e descartam ou exportam o resto.
Em Melbourne, por exemplo, as instituições exportam roupa vintage de alta qualidade para a Europa, obrigando negócios locais de revenda a importar peças semelhantes da Europa ou dos EUA. No entanto, a qualidade das roupas tem vindo a deteriorar-se ao longo dos últimos 15 a 20 anos, reduzindo o seu potencial de revenda.
Yassie Samie, coautora do estudo, defende uma maior coordenação entre governos locais e instituições de caridade para gerir os resíduos têxteis. «Estamos habituados a que as instituições de caridade façam o trabalho pesado, mas há muito tempo que não conseguem lidar plenamente com o volume de vestuário doado», explica. «As instituições de caridade são movidas por valores de bem-estar social e precisam de gerar fundos para os seus programas. No entanto, as suas operações não estão equipadas para lidar com o volume de têxteis usados que precisam de ser reutilizados e reciclados», acrescenta.
A investigadora defende, por isso, a diversificação dos modelos de negócio, sugerindo alternativas como centros de troca e de reparação de roupa.
O consumo excessivo e a sobreprodução são apontados como os principais fatores por detrás do aumento de resíduos têxteis. Entre 33% (Austrália) e 97% (Noruega) das roupas doadas são exportadas, revelando uma incapacidade de gerir localmente o problema.
Embora alguns municípios, como Amesterdão, se destaquem por práticas mais sustentáveis – incluindo a recolha e triagem de vestuário não reutilizável –, a maioria das cidades não vai além da disponibilização de espaços públicos para contentores e licenças para revendedores.
«Isto indica a falta de mecanismos e incentivos para promover mudanças sistémicas reais», sublinha Yassie Samie.
Na União Europeia, os Estados-Membros deverão implementar sistemas de recolha seletiva de têxteis até janeiro de 2025. Contudo, países como Austrália e EUA, os maiores produtores de resíduos têxteis per capita, ainda não têm regulamentações semelhantes.
Proibir publicidade à fast fashion
Para reduzir os resíduos e promover alternativas à fast fashion, como a revenda, troca e reparação, os autores do estudo sugerem medidas ousadas, incluindo a proibição de publicidade de moda.
«Iniciativas de moda sustentável, como lojas de segunda-mão, enfrentam dificuldades para competir com os enormes orçamentos de marketing e localizações convenientes das marcas de moda», aponta a coautora. «Existem alternativas à fast fashion, mas são pouco promovidas, apesar do seu potencial significativo para reduzir os resíduos têxteis nas cidades», indica.
França já tomou a dianteira ao proibir anúncios de ultra fast fashion e introduzirá, até 2030, multas de até 10 euros por peça.
Yassie Samie manifestou a vontade de colaborar com governos locais para encontrar as melhores soluções para os têxteis descartados, reforçando que mudanças sistémicas são cruciais para enfrentar a crescente crise dos resíduos da indústria da moda.











