China e Austrália não partilham o optimismo nos lanifícios

Contrastando com os produtores de lã australianos, que estão ansiosos pela entrada em vigor do acordo de livre comércio entre a China e a Austrália, as empresas de lã chinesas e os criadores de ovelhas estão menos optimistas em relação à ideia de liberalização do comércio entre os dois países. A China e a Austrália estão a trabalhar no sentidode desenvolverum acordo de livre comércio, no âmbito do qual a lã assume uma relevância significativa. Os produtores de lã australianos demonstram grande entusiasmo com o acordo, o qual acreditam irá fomentar as exportações de lã australiana com destino à China. Em meados da década de 1990, perto de 20% do volume das exportações australianas de lã eram destinadas ao mercado chinês. Actualmente, a China adquire 50% do total das exportações australianas de lã, volume que representa a satisfação de 75% das necessidades chinesas de lã. As indústrias de lanifícios da Austrália e da China são significativamente complementares. A indústria de lanifícios da China produz fundamentalmente fibras de lã grossas e de pequena dimensão acima dos 25 micron, ideal para revestimentos e tapeçarias, enquanto que a Austrália produz a lã merino que a China necessita para a produção de vestuário destinado ao mercado interno e para exportação. No entanto, existe uma barreira que reprime o crescimento do comércio de lã entre a Austrália e a China, conforme é referido por Brian Van Rooyen, responsável da AWI (Australian Wool Innovation) no comité de negociação do acordo de livre comércio. Van Rooyen refere que esta barreira é o sistema de taxas variáveis aplicadas sobre as importações de lã suarda e de lã em cru, que a AWI considera penalizante para os produtores australianos à medida que a procura aumenta. Ao abrigo deste sistema, a lã vendida dentro do volume estipulado pela quota incorre numa taxa alfandegária de 1%, enquanto que a lã vendida acima da quota está sujeita a uma taxa de 38%. De acordo com a AWI, a aplicação deste critério origina um desincentivo muito significativo quando a quota estipulada é atingida. Fomentada pelo crescimento das vendas domésticas e pelas exportações, a procura de lã pela China está a registar uma evolução positiva. Em 2005, as importações chinesas de vestuário de lã atingiram as 270.000 toneladas, representando cerca de 35% da procura mundial de vestuário de lã. De acordo com uma previsão do AWI, a procura de lã pela China deve quase duplicar ao longo dos próximos cinco anos, chegando às 473.000 toneladas em 2010, o equivalente a 62% da procura mundial de vestuário de lã. Para que a Austrália possa beneficiar desta expansão, as restrições ao comércio devem ser eliminadas, defende Van Rooyen. A eliminação das taxas alfandegárias com base na quota deverá resultar no aumento das exportações australianas de lã suarda em 20%. Esta medida resultaria também na maior competitividade das empresas chinesas, na medida em que estas taxas originam preços mais elevados no vestuário de lã; reflectindo a taxa alfandegária mais elevada, mas também as despesas associadas ao mercado paralelo de quotas. Enquanto que as empresas chinesas de lanifícios estão satisfeitas por serem capazes de importar lã fina e fita de lã penteada da Austrália, os criadores de ovelhas de lã fina receiam a possível entrada descontrolada de lã australiana no mercado. A China produz anualmente entre 40.000 e 50.000 toneladas de lã fina limpa, com a lã abaixo dos 24 micron a ser responsável por cerca de 30% da produção anual. No entanto, Mao Jianxin, vice-director do mercado de lã em Nanjing, desvaloriza os receios de que a indústria chinesa de lã fina vai desmoronar-se sob o peso da lã australiana quando o comércio entre os dois países for liberalizado. Este responsável refere que as variedades chinesas de lã fina são competitivas e mais baratas em cerca de 10.000 iuan por tonelada (aproximadamente 970 euros por tonelada) em relação aos mesmos tipos de lã merino importada da Austrália. Mao Jianxin refere que as empresas chinesas de lanifícios iriam naturalmente utilizar a lã doméstica, desde que esta seja adequada. Mas os criadores chineses de ovelhas de lã fina permanecem apreensivos. Zhang Jici, vice-director da associação de criadores de lã fina de Xinjiang, refere que os agricultores não se opunham ao acordo de livre comércio, mas esperavam que a abertura do mercado fosse concretizada a um ritmo mais lento, evoluindo de forma faseada. Zhang refere que no âmbito deste processo os produtores chineses de lã fina vão necessitar de capital e de apoio político por parte do governo, acrescentando que não planeiam competir pela quota de mercado com os produtores australianos, mas esperam manter as actuais quotas de mercado. No entanto, Zhang refere que os criadores chineses de ovelhas esperavam que os seus homólogos australianos oferecessem alguma ajuda na melhoria das raças chinesas de lã fina, assim como na modernização da indústria. Zhang refere que antes da entrada em vigor do acordo de livre comércio na lã, os criadores chineses de ovelhas precisavam de um período de protecção de três a cinco anos, ao longo do qual pudessem tornar-se mais competitivos. Caso a China não concretizasse esta medida, a lã australiana iria originar o estrangulamento do mercado da lã fina chinesa. As consequências seriam muito graves. A sobrevivência do sector de produção de lã fina é vital para a estabilidade social no Noroeste da China, na medida em que os criadores de ovelhas, que na sua maioria são minorias étnicas, dependem para a sua subsistência das vendas no mercado interno de lã. Se a China não possuísse a sua própria indústria de lã fina, as empresas e os comerciantes de lanifícios teriam de se sujeitar nas negociações comerciais quando os produtores australianos aumentassem os preços da lã, o que prejudicaria os interesses da indústria têxtil chinesa no seu todo.