Chamamento cantonês

Foi português durante 400 anos e por lá moram apelidos, letreiros e toponímia que lembram o país à beira-mar plantado. Agora, Macau chama por investimento no retalho e as lojas mais luxuosas abrem portas para ruas que se querem polidas pelo calcorrear dos endinheirados. Mas, quem o ouve?

O retalho sabe falar cantonês, ainda que no meio de tantos diálogos falte sempre a pontuação final. Há um “je ne sais quoi” que impede que se olhe para as reais potencialidades de Macau, a Meca de todos os apostadores. Sendo o único lugar na China onde as apostas são legais, a população endinheirada tem inundado a cidade durante a última década, produzindo um crescimento de dois dígitos ao ano e, com isso, um grande mercado para os bens de luxo – mas sempre com um reflexo tardio.

Em particular, o veredicto alcançado por muitos executivos de marcas de luxo é de que o negócio em Macau é de facto lucrativo, mas a experiência global de retalho deixa ainda a desejar. Como Wilhelm Schmid, diretor executivo da relojoaria de luxo A. Lange & Söhne observou uma altura ao portal de moda The Business of Fashion: «Macau é bom para os negócios, não para a construção de marca». Azar ao jogoNo ano passado, Macau atraiu um recorde de 31,5 milhões de visitantes, um ponto de viragem chocante para a cidade de 600.000 habitantes, próxima de Hong Kong e não muito longe dos polos industriais de Guangzhou e Shenzhen.

Mas a campanha anticorrupção da China resultou, em média, numa queda de 40% das ações dos operadores de casino de Macau no ano passado, fazendo com que a cidade de regista-se o seu primeiro declínio em receitas de jogo. Com um número de jogadores VIP conspicuamente ausente, o papel económico de Macau foi guiado para uma sombra de dúvida. Porém, os otimistas sobre o potencial de retalho de Macau acreditam que o clima atual representa uma oportunidade para a moda – juntamente com restaurantes e entretenimento. Antes de se tornar uma capital do casino globalmente importante e um recreio para os ricos, Macau era uma pequena colónia portuguesa.

Quando ficou sob administração chinesa, em 1999, a cidade era um humilde lar de uns quantos casinos detidos por Stanley Ho. Os casinos tendem a ser lugares escuros e enfumarados, exclusivos de um determinado tipo de clientela. Os visitantes que queriam desfrutar de um pouco de terapia de retalho iam para New Yaohan, a única retalhista na cidade. O monopólio de quatro décadas de Ho terminou em 2002, quando o governo permitiu que a concorrência estrangeira entrasse no mercado. Aos 93 anos, Ho continua a ser uma figura estilo “padrinho” na cidade e a sua família detém uma enorme influência na vida política e económica de Macau.

Metade dos seis casinos licenciados é controlada por familiares do magnata do jogo, que detém também uma grande superfície de retalho nas suas instalações. Apostas no futuroNos últimos 18 meses, o Governo finalmente começou a colocar pressão sobre os casinos e, no final de maio de 2015, uma nova visão de Macau foi apresentada com a abertura de portas do complexo do Galaxy Fase II.

O resort que introduz 30 novas marcas em Macau, como a Delvaux, a Moncler e a Neil Barrett. Uma das mudanças mais notáveis, no entanto, é o facto de os clientes não precisarem ali de caminhar através da área de jogo do casino para acederem à oferta de retalho. Outros cinco grandes resorts, cada um com as suas próprias atrações estão programados para abrir em 2017 – uma adição substancial de espaço de retalho para a cidade. O empresário Stephen Hung, presença regular nos desfiles de Alta-Costura ao lado da sua esposa Deborah, está a construir o ultraluxuoso hotel Louis XIII, onde as lojas venderão peças à medida para convidados. Graff Diamonds já assinou contrato para abrir uma loja.

As joias disponíveis no seu espaço terão um preço mínimo de 1 milhão de dólares, podendo alcançar os 100 milhões, de acordo com o empresário Hung. Enquanto isso a SJM Holdings (propriedade da quarta esposa de Stanley Ho), alistou quer Donatella Versace, quer Karl Lagerfeld para cada um projetar um hotel no seu novo resort: Lisboa Palace. O que mostra que as apostas começam a perder o monopólio das atenções na cidade. A este propósito, ainda no início deste ano, o diretor executivo da Salvatore Ferragamo, Michael Norsa, revelou ao The Business of Fashion o seu entusiasmo com o chamamento cantonês. «Nós prevíamos que o Brasil e Índia fossem as estrelas em ascensão, mas estes não conseguem representar mais [negócios] do que Macau para a maioria das empresas», disse.

No entanto, ainda existem marcas de luxo a dar os seus primeiros passos em Macau, como a Alexander McQueen, que abriu a sua primeira loja no resort Galaxy no mês passado. «Se olharmos para o centro comercial que abriu no Galaxy, é fabuloso», afirma o analista da Bloomberg Tim Craighead. «Acho que é mesmo o melhor estabelecimento de retalho em Macau neste momento e não há melhor do que isso para vir», sublinha. Apesar da sua força, as perspetivas de Macau enquanto a cidade aguarda pelo lançamento dos seus novos resorts são preocupantes para muitos.

A sua economia é fortemente dependente do número de turistas e, como resultado, é dependente das fortunas da vizinha Hong Kong (onde Macau é geralmente adicionado como um dia de viagem dos visitantes). Como agravante e resultado dos efeitos prolongados da campanha anticorrupção da China, as vendas no retalho em Macau caíram 11 % no primeiro trimestre deste ano. Contas feitas, a roleta do retalho ainda não dita a sorte de Macau, apesar de a cidade erguer casinos que anseiam servir-lhe de morada.