Celulose purifica águas residuais

Investigadores da Chalmers University of Technology, na Suécia, desenvolveram uma tecnologia à base de celulose que pode purificar a água contaminada por corantes usados no tingimento de têxteis.

[©Chalmers-David Ljungberg]

A descoberta tecnológica com base na celulose, aponta um comunicado da Chambers University of Technology, pode ser relevante especialmente para países com poucas tecnologias de tratamento de águas residuais e, dessa forma, ajudar a combater o problema das descargas de corantes tóxicos da indústria têxtil, que podem conter metais pesados passíveis de causar não só problemas de pele, mas também de aumentar o risco de cancro e falência de órgãos quando entram na cadeia alimentar.

O grupo de investigadores, liderado por Gunnar Westman, professor associado de química orgânica, foca-se em novas utilizações para produtos de celulose e à base de madeira, tendo reunido conhecimento sólido sobre nanocristais de celulose, que têm uma grande capacidade de absorção.

«Assumimos uma abordagem holística única a estes nanocristais de celulose, examinando as suas propriedades e aplicações potenciais. Criámos um material de base bio, uma forma de pó de celulose com propriedades de purificação excelentes que podemos adaptar e modificar dependendo do tipo de poluentes a remover», explica Gunnar Westman.

Testes na Índia

Num estudo recentemente publicado no jornal científico Industrial & Engineering Chemestry Research, os investigadores demonstram como os corantes tóxicos podem ser filtrados das águas residuais usando o material e o método que desenvolveram. A investigação foi realizada em colaboração com o Malaviya National Institute of Technology Jaipur da Índia, onde a poluição por corantes têxteis é um problema.

O tratamento não exige pressão nem calor e usa a luz solar para catalisar o processo. O método é semelhante ao que acontece quando se colocam grãos de arroz num copo com sumo de framboesa, indica Gunnar Westman: o arroz absorve a cor, deixando o líquido transparente.

Gunnar Westman [©Chalmers]
«Imaginem um sistema simples de purificação, como uma caixa portátil ligada a um tubo de esgoto. À medida que a água contaminada passa pelo filtro de pó de celulose, os contaminantes são absorvidos e a luz solar que entra no sistema de tratamento faz com que se quebrem de forma rápida e eficaz. É um sistema simples, e eficiente em termos de custos, de montar e usar e acreditamos que pode ser muito benéfico para países que têm fracos, ou nenhuns, sistemas de tratamento de água», sublinha o professor.

Os próximos passos passam por testes mais abrangentes na Índia. Para já, os testes laboratoriais com água industrial mostraram que mais de 80% dos corantes poluentes são removidos com o método. Gunnar Westman acredita que há boas possibilidades de aumentar o grau de purificação. «Passar de fazer descargas de água sem qualquer tratamento para remover 80% dos contaminantes é uma enorme melhoria e significa que há menos destruição da natureza e prejuízo para os humanos. Além disso, ao otimizar o pH e o tempo de tratamento, vemos a possibilidade de melhorar o processo ainda mais para podermos produzir água para irrigação e para beber. Seria fantástico se conseguíssemos ajudar estas indústrias a ter um sistema de tratamento de água que funcione, para que as pessoas na área à volta possam usar a água sem porem em risco a sua saúde», afirma.

Há ainda a possibilidade de usar os nanocristais de celulose para tratar outros tipos de contaminantes na água além dos corantes. Num estudo anterior, o grupo de investigação tinha já mostrado que o crómio hexavalente, que é comum nas águas residuais de atividades como a mineira, a metalurgia e a indústria do couro, pode ser removido com um tipo semelhante de material à base de celulose. A investigação está ainda a seguir uma outra linha, no sentido da purificação de resíduos de antibióticos na água.