CE discute o desafio da mudança na ITV

Numa conferência sobre a gestão da mudança nos sectores têxtil e de vestuário, a mensagem que assumiu maior relevância foi a de que a política industrial possui um papel relevante a desempenhar na criação de uma estrutura para o desenvolvimento do negócio, conforme nos é relatado nesta análise publicada pelo just-style. A conferência foi organizada pela Direcção-geral de Empresas e Indústria da Comissão Europeia e decorreu em Bruxelas na última semana de Abril Os intervenientes por parte da Comissão Europeia (CE) referiram que a indústria têxtil e de vestuário europeia deve antecipar as mudanças e assumir riscos, através da aplicação das actuais práticas de gestão da mudança. Por outro lado, os industriais que se encontravam entre a assistência rapidamente referiram que consideram necessário que a CE adopte medidas mais rigorosas e com maior frequência. Günter Verheugen, vice-presidente da UE e Comissário Europeu para Empresas e Indústria, referiu que, por razões estratégicas, económicas e sociais, a Europa necessita de uma base industrial forte. Verheugen referiu que se trata de uma ideia perigosa a de que «a Europa consegue sobreviver sem indústria». Abordando as consequências da globalização, o Comissário referiu: «Não podemos evitar a mudança, podemos apenas gerir a mudança. E para conseguir fazer isso, precisamos de antecipar». Verheugen referiu que apoia por completo a estratégia seguida pelo Comissário Europeu para o Comércio, Peter Mandelson, no âmbito da Ronda de Doha. A UE não vai aceitar compromissos que enfraqueçam a sua indústria, referindo que a regra básica no âmbito das negociações é a de «cortes por cortes». Verheugen avisou os industriais europeus dos sectores têxtil e de vestuário que podem ganhar algum tempo no seu relacionamento comercial com a China, mas que não podem evitar a concorrência total a longo prazo. «Não podemos esquecer que o principal produtor de têxteis é a UE e não a China», concluiu o Comissário Europeu. Adaptando-se a novos desafios Duas empresas, o grupo francês Trèves e a Tytex Slovakia, produtor eslovaco de têxteis para aplicações médicas, e representantes da região têxtil italiana da Toscânia, explicaram como conseguiram mudar com sucesso as suas estratégias e produtos de forma a adaptarem-se aos novos desafios. A empresa familiar Trèves, que este ano celebrou o seu 170.º aniversário, evoluiu desde uma modesta tecelagem para um importante fornecedor de têxteis técnicos para a indústria automóvel. Em 2005 a Trèves empregava 7.500 pessoas, atingindo um volume de negócios na ordem dos 900 milhões de euros. O sucesso da empresa resulta do elevado investimento em I&D (7% do volume de negócios) e nos recursos humanos (entre 3,5% e 5% dos custos salariais anuais estão associados a despesas de educação e formação). A empresa eslovaca Linda Chemes foi constituída em 1995 com o objectivo de produzir meias de senhora para o mercado local. A empresa possuía 70 trabalhadores e alcançava um volume de negócios anual de 2 milhões de euro. Stefan Jursa, director-geral da empresa, recorda-se desse tempo: «fabricávamos produtos muito bonitos, mas perdíamos dinheiro». Em 2000, a Linda Chemes foi parcialmente adquirida pelo grupo dinamarquês Tytex e, sob a designação Tytex Slovakia, transformou-se num produtor de cuecas para incontinentes. Actualmente, a Tytex Slovakia emprega 253 pessoas e tem óptimas perspectives para o futuro. «O nosso mercado chave (pessoas acima dos 60 anos) está a aumentar rapidamente», explica Jursa. A Toscânia e, fundamentalmente o distrito industrial de Prato (centro europeu mais importante para os lanifícios), são um exemplo de sucesso na gestão da mudança ao nível regional. A dimensão da maior parte das empresas têxteis e de vestuário da região é muito pequena, as 12.000 empresas existentes empregam apenas 74.000 pessoas, o que resulta num número médio de 6,2 trabalhadores por empresa. No entanto, conforme explica Carlo Longo, presidente da associação industrial de Prato (Unione Industriale Pratese), em virtude da cooperação entre as pequenas e médias empresas e as estratégias competitivas inteligentes (nomeadamente: reposicionamento da produção no sentido de nichos de mercado de elevado valor acrescentado, elevados investimentos em educação e formação, e focalização na inovação), o distrito têxtil de Prato não apenas sobreviveu, mas conseguiu transformar-se num cluster industrial de sucesso. Apelos da indústria Beneficiando na conferência da presença do vice-presidente da UE, Günter Verheugen, e de Pedro Ortún, director da Direcção-geral de Empresas e Indústria, diversos empresários apresentaram apelos urgentes. Filiep Libeert, presidente da EURATEX (European Apparel and Textile Organisation), apelou à CE para corrigir o actual desequilíbrio no acesso ao mercado, resultado da feroz concorrência com base em preços excessivamente baixos, combater a contrafacção e a pirataria e trabalhar de forma cuidadosa os requisitos associados ao REACH. Intervindo em representação da EUROCOTON, o industrial belga Jean-François Gribomont criticou o facto da UE estar protegida apenas até ao final de 2007 contra um leque de importações chinesas, enquanto que os EUA, Brasil e África do Sul estão protegidos até ao final de 2008. Gribomont pediu ainda a ajuda da CE para restaurar o justo equilíbrio de poder entre a indústria e a distribuição. Franco Castro, director da Texinov, produtor francês de têxteis técnicos, sugeriu que a CE deve seguir o seu exemplo: realizar visitas a escolas de modo a atrair os estudantes para o sector têxtil através de exemplos de produtos têxteis fantásticos. Bernd Stadler, responsável de negócios internacionais da Hugo Boss, ficou surpreendido com o facto dos intervenientes apenas referirem as mudanças originadas pela globalização. Durante a última década, salientou Stadler, os retalhistas e consumidores europeus mudaram significativamente. O retalhista independente de vestuário quase desapareceu e os consumidores querem mais criatividade e rapidez. Esta realidade oferece significativas oportunidades para os produtores europeus, referiu Stadler.