Castelbajac, a arte do saber

Acrobata verbal e artista do paradoxo. Assim é como foi definido o polivalente criador francês Jean Charles de Castelbajac, protagonista de uma das exposições que durante os próximos meses pode ser vista em Londres no Museu Victoria and Albert, que mostra a sua faceta como designer e nos aproxima da sua forma particular de entender e expressar a moda. Castelbajac nasceu em 1949 em Casablanca e a sua infância está marcada por uma educação severa e restrita, dentro de um contexto militar que dava escassas concessões às pretensões criativas deste “enfant terrible”. Estes primeiros anos da sua vida serão mais tarde fonte de inspiração para o artista, assim como a busca constante de uma arte popular, reinterpretada e levada quase sempre a extremos. A partir destas duas premissas, Castelbajac vai recebendo ao longo da sua trajectória influências muito heterogéneas, que finalmente darão lugar a uma mostra criativa carregada de imaginação, ironia e uma certa dose de loucura. A exposição consta de uma representação cuidada dos seus vestidos objecto, assim como de duas projecções em chave de homenagem: o primeiro à figura do criador, e o segundo e não menos merecido a todo um ícone infantil, que nas mãos de Castelbajac perde toda a sua inocência: a Hello Kitty. Esta linda gatinha partilha o protagonismo com outras imprescindíveis figuras da nossa mais terna infância, já não tão terna: Pokemon, South Park, Campanilla e Mikey Mouse, cujo rosto ilustra uma camisa larga que nos anos 70 se converte na peça de culto nos ambientes mais suburbanos de Nova Iorque. Precisamente devido a estes ambientes é onde estabelece relação com mestres da pop-arte e do design gráfico, como Basquiat, Warhol ou Haring e, como prova de amizade cria vestidos em forma de lata de sopa Cambell ou garrafas de Coca-Cola. Algumas das figuras da música tembém têm os seus cinco minutos de glória nesta exposição e, especialmente impactante é o vestido à imagem e semelhança de Jimmy hendrix, com cabelo afro e corrente dourada incluídos. Para Castelbajac, o trabalho criativo é uma forma de luta e reivindicação: a ponta do seu lápis é a ponta de uma espada imaginária com a qual combate a favor de causas sociais e certos traumas pessoais. É desta forma que podemos interpretar a sua colecção “Camuflagem”, um vestido de noiva “o mulher invisível”, onde mistura o estampado militar com bordados de duendes e ursinhos de trapo. Na sua colecção “Múltiplos” cria artigos a partir da repetição de objectos, para aumentar assim, a sua carga simbólica: um blusão motard nasce da união de luvas de couro ou o modelo taggliatelle, formado por ligeiras tiras que terminam formando uma pesada capa. Principal artigo é uma capa cheia de pequenos ursinhos de peluche, convertida em “fetiche” desde que a Madonna o usou numas das suas aparições públicas que nunca passam despercebidas.A exposição está situada dentro do espaço que o Museu Victoria and Albert dedica à moda, joalharia e acessórios, com peças únicas que ilustram a evolução do vestuário desde o século XIX até aos nossos dias. Junto com esta mostra permanente, o museu aposta de forma constante em exposições temporárias tanto de grandes mestres, como de jovens promessas, para assim impulsionar e fomentar o interesse pela moda como expressão artística e como um dos fenómenos sociais mais interessantes dos nossos dias.